Política
Cálculos eleitorais pesam nas reações de Lula aos EUA
A disputa no Brasil pode ser a ‘batalha de Stalingrado’ para a extrema-direita na América Latina
A defesa da “soberania nacional” será um dos temas do presidente Lula na propaganda eleitoral que começa em 16 de agosto. Há quem veja aí o potencial de atrair para o petita votos de quem não é nem lulista nem bolsonarista, como foi com o mote da “defesa da democracia” em 2022. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, integrante do comitê reeleitoral de Lula, é um dos que têm essa visão.
O governo bota esse tipo de cálculo eleitoral na mesa ao calibrar a reação às investidas dos Estados Unidos que tentam influenciar o resultado das urnas. Tem sido assim na resposta ao tarifaço, por exemplo.
O Brasil tem uma Lei de Reciprocidade que permite driblar compromissos na Organização Mundial do Comércio (OMC) e retaliar Washington. Ela foi acionada, há estudos no governo sobre como aplicá-la aos EUA sem causar prejuízos a exportadores brasileiros. Mas não há interesse de usá-la, ao menos não antes da eleição. O eleitor de centro, comenta um colaborador presidencial, não gosta de retaliação, e sim de negociação.
O governo Lula também tem agido com cuidado nas reações iniciais à revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, mais novo capítulo das hostilidades norte-americanas. Se a diplomacia dos EUA esperava contra-ataque, o que levaria a uma escalada na animosidade, caiu do cavalo. Por ora, houve uma nota pública do governo a condenar o gesto, reclamação de Lula em uma entrevista e só.
Além disso, se o objetivo da revogação do visto era arrancar a aceitação, pelo Brasil, do escolhido dos EUA para ser embaixador em Brasília, foi um tiro no pé. Essa chantagem pública, comenta o colaborador de presidencial, fechou a porta para a concessão imediata do chamado agrément.
A palavra francesa significa, na diplomacia, a anuência prévia a um embaixador designado por outra nação. Sem o agrément, o designado não pode exercer a função.
Os EUA estão sem embaixador em Brasília desde a posse de Donald Trump, em janeiro de 2025. Há algumas semanas, o Departamento de Estado dos EUA, equivalente ao Ministério das Relações Exteriores do Brasil, definiu quem quer para o posto: Daniel Perez, um trumpista da gema pertencente ao movimento Make America Great Again (Maga).
Perez é ainda deputado estadual na Flórida, berço político do chefe do Departamento de Estado, Marco Rubio. Este é tido em Brasília como mais ideológico do que o próprio Trump. Perez foi sabatinado pelo Senado em julho e está à espera da aprovação de seu nome por lá. Mas, sem o agrément brasileiro, não pode assumir o cargo em Brasília.
Não é da tradição do Itamaraty fazer filtro ideológico ao analisar um embaixador indicado por outro país. Recusar a designação, ainda que de modo polido, na forma de uma não resposta, pode acontecer, por razões menos abstratas. Convencido da tentativa de Rubio de ajudar a derrotar Lula na eleição e a eleger o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ), o governo brasileiro analisava a indicação sem pressa.
No início do ano, Rubio havia tentado mandar ao Brasil um emissário, Darren Beattie, para visitar Jair Bolsonaro na prisão. O Supremo Tribunal Federal (STF) negou permissão para a visita, depois de tê-la autorizado. E o Itamaraty revogou o visto dele. O único compromisso do americano seria com Bolsonaro, nada com autoridades federais.
Em julho, o Brasil negou vistos a outros dois diplomatas norte-americanos que viriam ao Brasil sob o pretexto de observar a eleição de outubro. Riley M. Barnes e Samuel Samson, ambos da área de Direitos Humanos do Departamento de Estado, faziam parte de um plano bolso-trumpista de questionar a lisura da eleição brasileira, segundo o Washington Post.
No Palácio do Planalto, há quem veja a sucessão de Lula como uma “batalha de Stalingrado” para a extrema-direita global, cujo centro são os EUA. Essa batalha marcou a virada nos rumos da Segunda Guerra Mundial. Depois do triunfo dos soviéticos, a derrota final nazista era questão de tempo.
O domínio completo do Hemisfério Ocidental por parte de Washington, um dos objetivos da Estratégia de Segurança Nacional lançada por Trump no fim de 2025, esbarra em Lula. Desde a volta de Trump à Casa Branca, houve sete eleições na América Latina. Todas foram vencidas por direitistas ou por candidatos apoiados pelos EUA, anota um ministro de Lula. Na lista, Abelardo de la Espriella (Colômbia), Daniel Noboa (Equador), Irfaan Ali (Guiana), José Augusto Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Nasry Asfura (Honduras) e Rodrigo Paz Pereira (Bolívia).
Para mostrar que não está isolado, Lula tem mantido conversas, e feito publicidade delas, com China e Rússia, por exemplo. Falou por telefone com o chinês Xi Jinping no fim de julho e com o russo Vladimir Putin em agosto. E topa tentar estabelecer uma relação pragmática com a vizinhança direitista. Seu chanceler, Mauro Vieira, foi recentemente à posse da peruana Keiko Fujimori e levou uma carta de Lula. Fará o mesmo na do colombiano Espriella.
Javier Milei, o mandatário argentino, é a exceção à regra. Com ele, Lula não quer papo: o governo brasileiro tenta salvar a relação entre os países sem que haja diplomacia presidencial.
Essa é a consequência concreta da decisão do Itamaraty de rebaixar o status da relação. Esta não será mais conduzida pelos embaixadores do Brasil em Buenos Aires e o da Argentina em Brasília. Embaixadores são representantes pessoais dos presidentes. Agora, a relação será levada adiante pelo número 2 de cada embaixada, o “encarregado de negócios”.
O rebaixamento é consequência das reiteradas ofensas de Milei contra Lula desde a participação do hermano na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. O chanceler de Milei, Pablo Quirno, disse publicamente em 5 de agosto que o chefe deseja “mudança ideológica” no Brasil.
Para um colaborador lulista, Milei tem agido assim de olho na disputa da própria reeleição no ano que vem. Quer um inimigo externo para vender ao eleitorado local. Desejaria também ser o “anti-Lula” sul-americano, daí que o brasileiro o ignora.
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