“Brasil tem 2 grandes tragédias: a conciliação e o papel trágico das Forças Armadas”, diz Roberto Amaral

Em entrevista a CartaCapital, ex-ministro avalia que esquerda entregou, em 2016, o mesmo estado que encontrou em 2003

O escritor Roberto Amaral, em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta. Foto: Reprodução/YouTube

O escritor Roberto Amaral, em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta. Foto: Reprodução/YouTube

Política

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia e ex-presidente do Partido Socialista Brasileiro (PSB), Roberto Amaral, afirmou que o Brasil tem duas grandes tragédias em sua história política: os esforços pela conciliação e o papel trágico das Forças Armadas. Em sua análise, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Dilma Rousseff (PT) erraram em prometer avanços sociais sem incomodar as elites econômicas, e também em ignorar a importância de alterar a formação dos oficiais militares, que ele chamou de “uma fábrica de fascistas”.

As declarações ocorreram nesta segunda-feira 3, em entrevista ao diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta. Com 80 anos, Amaral acaba de lançar o livro A história do presente: conciliação, desigualdade e desafios, pela editora Expressão Popular, com uma coletânea de artigos de sua coluna em CartaCapital, em que faz publicações desde 2011.

“Nós temos duas grandes tragédias que acompanham este país desde o seu nascimento: a conciliação pelo alto e o papel trágico das Forças Armadas”, examina o escritor.

No caso da conciliação, Amaral diz que o projeto dos governos do PT era “dar um pouco para a senzala, dizendo à casa grande que não ia tirar nada dela”. No entanto, com as crises econômicas que vieram à frente, as elites “deixaram de ter excedentes”.

“O que nós pensávamos? O que o Lula pensava? Que nós tínhamos feito um acordo, mas ele foi rompido. Porque a casa grande tem uma coisa muito mais aperfeiçoada, muito mais firme do que nós: consciência de classe. Ela sabe, então, os interesses dela, e não concilia”, analisa.

Além disso, na visão de Amaral, a esquerda entregou, em 2016, o mesmo estado que encontrou em 2003, no primeiro mandato de Lula. Ele observa que, apesar de programas importantes, mudanças estruturais não foram prioridade, como as reformas tributária, política e agrária.

“Nós, a esquerda, não é o PT, entregamos o Estado em 2016 assim como o recebemos em 2003. Não fizemos nenhuma transformação essencial. Não fizemos a reforma tributária, política, agrária. Eu comecei pelas mais fáceis. Não fizemos a reforma dos meios de comunicação eletrônicos, e estamos agora sem entender por que a Record e a Globo estão batendo na gente”, disse o escritor.

No caso das Forças Armadas, Amaral também avalia que a formação política dos militares precisa ser disputada. Contudo, os governos do PT acreditaram que a distribuição de verbas e o atendimento de demandas do setor eram sinais de que a cúpula fardada apoiava os ideais da esquerda.

“Nós pensávamos que, por darmos verbas para as Forças Armadas, e elas estavam caladinhas, estávamos enfrentando o problema. Nós não mexemos na questão crucial, que é a formação dos oficiais, que é uma fábrica de fascistas”, afirmou o escritor. “Depois de 21 anos de democracia, o que fez a democracia? Ignorou as Forças Armadas. E, aparentemente, as Forças Armadas nos ignoraram.”

Para o ex-ministro, um dos principais erros da conciliação com os militares foi evitar a punição dos responsáveis pelos crimes da ditadura. Na sua avaliação, o Brasil ainda não superou as heranças autoritárias do período e não corrigiu as infrações aos direitos humanos cometidas por agentes das Forças Armadas.

Outro aspecto que Amaral aponta é a orientação submissa aos Estados Unidos na formação dos oficiais. No período da ditadura, o pretexto utilizado se baseava no anticomunismo, diante do papel de relevância exercido pela União Soviética e a tensão da Guerra Fria. Hoje, a mesma justificativa não tem base na realidade, mas o pensamento segue como um instrumento discursivo das Forças Armadas.

“Os militares brasileiros, com exceções que não enchem a mão, estão convencidos de que há um conflito inevitável entre o Ocidente, leia-se os Estados Unidos, e o Oriente, leia-se China, Rússia e Irã. E que nós não temos alternativa, porque somos ocidentais, que o nosso guarda-chuva são os Estados Unidos”, observa. “Em 1964, eles tinham uma justificativa, inaceitável, mas tinha: o anticomunismo. Qual é agora a justificativa do anticomunismo? Eu não acredito que um general pense que há problemas de comunismo no Brasil”, observa.

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