Economia

Brasil reage ao tarifaço e diz aos EUA que sobretaxa prejudica norte-americanos 

Em manifestação enviada ao USTR, governo Lula contesta investigação comercial, defende o Pix e afirma que tarifa de 25% impõe custos aos próprios Estados Unidos

Brasil reage ao tarifaço e diz aos EUA que sobretaxa prejudica norte-americanos 
Brasil reage ao tarifaço e diz aos EUA que sobretaxa prejudica norte-americanos 
O presidente Lula e o chanceler Mauro Vieira, nos Estados Unidos. Foto: Andrew Harnik/Getty Images via AFP
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O governo Lula (PT) apresentou nesta quarta-feira 1º sua resposta formal ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) contra a proposta de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras. No documento, antecipado pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmado por CartaCapital, o Brasil sustenta que a medida é incompatível com as regras do comércio internacional, prejudica interesses dos próprios Estados Unidos e enfraquece o diálogo entre os dois países.

A manifestação rebate as conclusões preliminares do USTR, que acusou o Brasil de adotar práticas comerciais consideradas desleais em áreas como comércio digital, meios de pagamento, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Como consequência, o órgão recomendou a aplicação da sobretaxa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros.

Em uma investigação paralela sobre produtos fabricados com trabalho forçado, o USTR também sugeriu uma tarifa adicional de 12,5% para diversos países, incluindo o Brasil, o que pode elevar a taxação sobre parte das exportações brasileiras para até 37,5%, caso ambas as medidas sejam implementadas.

O endurecimento da posição norte-americana ocorre apesar das negociações abertas entre os dois governos. Durante a cúpula do G7, realizada no mês passado na França, Lula afirmou que havia um entendimento para discutir as divergências comerciais antes da adoção de novas medidas e criticou a condução do presidente Donald Trump.

“Eu acho que o que ele fez foi uma coisa desaforada para o Brasil, ele sabe disso. É por isso que eu disse que ele ainda continua agindo como imperador”, declarou o presidente. Na mesma ocasião, Lula afirmou que os dois países estavam negociando por meio dos respectivos ministros. “Nós estávamos fazendo acordo. O Mauro Vieira e o meu ministro do Comércio estão tratando com o ministro do Comércio dele. Nós estamos negociando”, disse.

Na resposta enviada ao USTR, o governo brasileiro argumenta que a sanção proposta não atende aos requisitos previstos na própria legislação norte-americana. Segundo o texto, a Seção 301 autoriza apenas medidas “apropriadas e viáveis” para eliminar a prática contestada, condição que, na avaliação do Brasil, não é cumprida pela tarifa.

O documento acrescenta que a medida “não guarda relação com o suposto objetivo de eliminar a conduta impugnada e imporá custos substanciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos, sem enfrentar as preocupações apontadas”.

Outro eixo da defesa brasileira é que a investigação reúne acusações de naturezas distintas e tenta solucioná-las por meio de uma única medida comercial. Para o governo, a proposta representa uma forma de pressão econômica sem relação direta com os problemas levantados pelo USTR.

“No presente caso, o USTR apoia-se, quando muito, em uma teoria de pressão econômica generalizada”, diz o texto. Ainda segundo a manifestação, “a tarifa proposta não é um instrumento cuidadosamente calibrado para enfrentar a conduta impugnada, mas sim uma medida pouco precisa”.

Defesa do Pix

O documento brasileiro também faz uma defesa do Pix, um dos alvos da investigação dos EUA. O USTR sustenta que o Banco Central teria favorecido o sistema de pagamentos brasileiro em prejuízo de empresas estrangeiras, especialmente operadoras de cartões. O governo brasileiro rejeita essa interpretação e reafirma que o modelo não representa tratamento discriminatório.

A investigação comercial foi aberta pelo governo Trump em julho de 2025, poucos dias depois de o presidente norte-americano afirmar que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) era alvo de uma “caça às bruxas” no Brasil. Desde então, o Planalto passou a associar a deterioração da relação bilateral à atuação de aliados do ex-presidente nos Estados Unidos.

Na parte final da manifestação, o Palácio do Planalto argumenta que a adoção das tarifas poderá dificultar a busca por uma solução negociada para as divergências comerciais entre os dois países.

O tarifaço ameaça enfraquecer, em vez de incentivar, justamente as formas de diálogo construtivo que têm maior probabilidade de resolver quaisquer preocupações legítimas dos Estados Unidos”, afirma o documento. Em outro trecho, o governo brasileiro diz que a adoção da sobretaxa seria “prematura e contraproducente”, por impor custos à relação bilateral “ao mesmo tempo em que reduziria o espaço para o diálogo mais capaz de produzir resultados práticos”.

O processo agora seguirá para uma audiência pública marcada pelo USTR para 6 e 7 de julho, quando representantes de empresas, associações e integrantes da sociedade civil poderão apresentar argumentos favoráveis ou contrários às tarifas.

O governo brasileiro decidiu não participar diretamente da sessão, mantendo sua atuação pelos canais diplomáticos, enquanto a Embaixada do Brasil em Washington acompanhará os debates. A decisão final do governo de Donald Trump sobre a adoção ou não das sanções é esperada para a primeira quinzena deste mês.

Nas últimas semanas, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), adversário de Lula na disputa presidencial deste ano, disse que participará da audiência e que vai defender que as tarifas não sejam implementadas. O Itamaraty respondeu afirmando que o governo brasileiro continuará atuando pelos canais diplomáticos e publicou nas redes sociais que “os traidores da Pátria não conseguirão reescrever a história”.

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