Bolsonaro é “mercador da dúvida” no coronavírus, diz americana

Professora de Harvard vê ‘fundamentalismo do livre-mercado’ por trás das atitudes do presidente

A historiadora Naomi Oreskes (Foto: Wikimedia Commons)

A historiadora Naomi Oreskes (Foto: Wikimedia Commons)

Política

Olavo de Carvalho, guru bolsonarista morador dos Estados Unidos, questiona a eficácia das vacinas e o heliocentrismo, teoria de que a Terra gira em torno do Sol. Sobre a pandemia global de coronavírus, tem uma visão espantosa também, como mostrou no fim de março em um vídeo na internet: “É a mais vasta manipulação de opinião pública que já aconteceu na história humana”.

A mil quilômetros de sua casa, uma professora da Universidade Harvard tem uma boa definição para a postura dele: “mercador da dúvida”. Um “mercador”, segundo a americana Naomi Oreskes, é aquele sujeito que, em troca de dinheiro ou para favorecer algum interesse econômico – ou ambos – questiona descobertas científicas e o papel do conhecimento.

Professora de História da Ciência, Naomi, de 61 anos, desenvolveu sua ideia em um livro de 2010, intitulado “Mercadores da Dúvida”.

O ponto de partida da obra foram estudos feitos nos anos 2000 sobre mudança climática. Naomi examinou 928 artigos científicos e constatou que todos chegavam mais ou menos à conclusão de que a ação do homem interfere na temperatura. Por que, então, apenas 62% dos americanos concordavam, naquela época, que há aquecimento global?

Porque, concluiu a professora, havia cientistas pagos por lobistas e empresas para semear incerteza na mídia a respeito do tema. Um modelo de atuação inventado pela indústria do cigarro, a fim de retardar políticas públicas antitabagistas, e que depois foi adotado por setores interessados em adiar a regulação governamental de negócios que afetam meio ambiente.

Para Naomi, dois ídolos de Olavo de Cavalho tem se saído belos espécimes de “mercadores” no coronavírus, Jair Bolsonaro e Donald Trump. É o que ela diz nessa entrevista concedida por e-mail em 31 de março, véspera de o presidente brasileiro ter aparecido mais manso em uma cadeia de rádio e TV.

CartaCapital: A senhora tomou conhecimento de manifestações do presidente Bolsonaro minimizando a pandemia de coronavírus? Ele disse que era “gripezinha”,“histeria”.

Naomi Oreskes: Ficamos um pouco impressionados aqui, apenas acompanhando o que está acontecendo nos Estados Unidos, mas sim, eu soube dos comentários dele.

CC: Diria que ele age como “mercador da dúvida”? Por quê?

NO: Infelizmente sim. Infelizmente, é consistente com a rejeição da ciência climática, particularmente com o desprezo pela importância das florestas, em todos os lugares, incluindo a floresta tropical brasileira, em seqüestrar o clima e, assim, desacelerar a mudança climática. Da mesma forma que o presidente dos Estados Unidos, Bolsonaro mostra um desrespeito imprudente pelas evidências científicas e um desrespeito imprudente pelos cientistas.

CC: Quais seriam, na sua opinião, os interesses por trás da posição dele? Que setores econômicos se beneficiam?

NO: É difícil dizer exatamente, mas acho que reacionários como Trump e Bolsonaro criaram o hábito de rejeitar a ciência, particularmente a ciência climática, e eles fazem isso como uma espécie de reflexo. Esses homens rejeitam a ciência climática e qualquer ciência que aponte para a necessidade de regular o mercado para proteger as pessoas, porque isso ameaça seu “fundamentalismo de  livre-mercado”.

CC: Existe algum outro líder “mercador da dúvida” agora na pandemia?

NO: Não que eu saiba, mas não tenho observado o mundo de perto.

CC: Qual a sua opinião sobre a posição do presidente Trump na crise do coronavírus?

NO: Que é criminosa. Ele tem colocado em risco a vida de milhões de americanos. Milhares de pessoas, talvez dezenas de milhares ou mesmo centenas de milhares, morrerão desnecessariamente por causa de sua relutância inicial em reconhecer o problema e subsequente resistência a uma forte resposta do governo federal. Para acrescentar insulto à injúria, agora ele está exibindo favoritismo a certos estados por razões políticas. Ele está literalmente brincando de política com a vida dos cidadãos americanos. É vergonhoso e imoral.

CC: Ele tinha agido inicialmente como “mercador”, mas depois mudou, não? Por que ele fez isso, na sua opinião?

NO: Eu não sei. Só posso especular que Anthony Fauci (epidemiologista que dirige o Instituto Nacional  de Alergia e Doenças Infecciosas e tem sido o principal conselheiro de Trump na pandemia), ou alguns outros conselheiros, foram capazes de impressioná-lo de que, sem uma ação imediata, poderíamos ver literalmente milhões de casos sobre o vírus e centenas de milhares de mortes. Esse ainda é um resultado possível.

CC: Existem interesses econômicos nos EUA por trás das dúvidas sobre a pandemia? Quais seriam?

NO: Eu não acho que isso tenha resultado tanto de um interesse econômico específico quanto de uma atitude geral entre os conservadores americanos contra um governo federal forte. As pessoas agora no poder em Washington – na Casa Branca e no Senado – não acreditam em um governo federal forte. Por mais de 40 anos, republicanos – e alguns democratas também – enfraqueceram o governo federal, incluindo nossas agências científicas federais. O resultado previsível ocorreu em janeiro, quando precisávamos de uma resposta clara, forte e governamental, mas não conseguimos. As pessoas no poder em Washington hoje têm uma longa história de hostilidade em relação ao governo federal e uma longa história de hostilidade em relação à ciência. Eles têm uma fé quase religiosa na “mágica do mercado” – a capacidade do setor privado de resolver nossos problemas. Os eventos das últimas semanas ilustraram dramaticamente os problemas com esse tipo de pensamento.

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Repórter correspondente da revista CartaCapital em Brasília

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