Aldo Fornazieri: as elites brasileiras, que apoiam Bolsonaro, não têm pudor

Em conversa com Mino Carta, cientista político também aponta o que a esquerda deve fazer para superar o que chama de 'transição transada'

Abril de 1980: Mino leva Raymundo Faoro ao palanque de Lula na Vila Euclides lotada pelos grevistas de São Bernardo e Diadema quando o PT não passava de um projeto

Abril de 1980: Mino leva Raymundo Faoro ao palanque de Lula na Vila Euclides lotada pelos grevistas de São Bernardo e Diadema quando o PT não passava de um projeto

Política

CartaCapital não tem dúvidas: Aldo Fornazieri é um dos raríssimos analistas da situação atual do Brasil, límpido, desassombrado e inexoravelmente certeiro. Fornazieri clama pela necessidade de pessoas­ corajosas, dotadas da capacidade de indignação ativa, “porque não basta ser indignado de redes sociais”. E se por acaso for entrado em anos, que conserve a juventude de espírito. O País, na sua feição atual, confirma e reforça todos os pecados que o perseguem na sua condição de egresso da colonização predatória da metrópole portuguesa.

Comove-me o fato de que ele cite Raymundo Faoro, que foi, para mim, um irmão mais velho e um mestre de vida. A referência ao autor de Os Donos do Poder evoca a definição dada a uma conjuntura inexoravelmente repetida no tempo ao sabor da conciliação velha de guerra, a significar um leitmotiv perene, da “transição transada”, pelo entendimento entre os poderosos, que mandam e sempre mandaram. A gravidade do quadro é precipitada pelo fracasso de quem se disse de esquerda, mas não soube cumprir a tarefa elementar de iluminar o povo para levá-lo ao entendimento das humilhações, dos vexames, das capitis diminutio a que é submetido sem solução de continuidade.

Recado final: “O que permanece intacto é a injustiça, sempre a se aprofundar, é o conservadorismo da sociedade brasileira, a incapacidade de mudança e, inclusive, a incapacidade de as próprias esquerdas mudarem o Brasil”.

 

SEMPRE PARA TRÁS

Na América Latina, temos os povos deserdados, por exemplo, na Argentina grassa uma pobreza enorme, assim como no Chile, na Bolívia, na Venezuela, e assim por diante. No sentido político, é evidente haver diferenças, o Uruguai é um país mais civilizado, a Costa Rica, e outros. Do ponto de vista entre os sistemas político e judicial, as ditaduras foram bastante diferentes. Nós não punimos os crimes de ditadura e anistiamos todo mundo, na Argentina e no Chile os crimes foram punidos. Recentemente, nós tivemos grandes manifestações no Chile que implicaram a convocação de uma Constituinte, e na Bolívia a população organizada barrou o golpe. No Brasil, nós andamos para trás.

 

A TRANSIÇÃO TRANSADA

Veja o seguinte: eu me refiro àquele livro de Raymundo Faoro, Os Donos do Poder, quando sustenta que aqui vigora um sistema de mudança, a “transição transada”. As elites sempre fazem as transições por cima e, quando acontecem mudanças, parte das elites mantém o poder. Foi assim na Independência, na Proclamação da República, na Revolução de 30, em 64, e até mesmo no governo Lula parte das elites estava ali no poder. Esse sistema de mudanças que não faz um ajuste de contas real com quem está dominando e mantém os dominadores anteriores no mandato. Assim torna-se uma ação desse sistema de conciliação com as elites, a girar como uma roda, não é espiral e não tem saída para a população pobre.

 

A ORGANIZAÇÃO DO POVO

Há países onde se fazem ajustes de contas. Se você for ver, a gestão do Evo Morales na Bolívia foi um governo diferente do governo do PT no Brasil. A mobilização da população organizada que barrou o golpe por lá criou uma situação bem diferente da nossa, quando fomos impotentes para barrar o andamento do golpe que, em 2018, resultou na grande tragédia da eleição de Bolsonaro. No Brasil, ninguém acredita no povo, porque o povo nunca foi protagonista de coisa alguma. As esquerdas que não organizam o povo fracassam na hora do choque, na hora da verdade, na hora das tensões agudas. Então, o que decide é o povo organizado, como se deu na Bolívia.

 

O PT ERROU

Qual foi o erro do PT no governo? O PT acreditava que fazendo programas sociais como o Bolsa Família, Luz para Todos e tantos outros bons e necessários programas, ele manteria a fidelidade do povo e a fidelidade do voto, então foi uma aposta pela única via institucional que não deu certo. O governo deveria ter aproveitado esses 14, 15 anos de poder e ter, em primeiro lugar, politizado e organizado o povo. Se ele tivesse feito essas duas coisas, certamente o desfecho de 2016 poderia ter sido muito diferente, principalmente com a popularidade que Lula obteve. Então veio 2016 e o governo do PT não tinha mais a fidelidade do povo. Tentou-se manter uma reação muito tímida com manifestações, mas que foram frágeis, nas quais basicamente foram os militantes e ativistas.

O partido de Lula perdeu o jogo, porque o jogo do lado de lá é brutal, sem escrúpulos e sem medo, inclusive, de quebrar a constitucionalidade, como aconteceu no impeachment de Dilma Rousseff. As elites brasileiras não têm pudor, elas não se intimidam em apoiar um governo como o de Bolsonaro, que é um governo que na própria campanha defendeu a tortura, a violência, a ditadura. É uma tradição. Em todos os momentos decisivos da história brasileira as elites não tiveram escrúpulos para apoiar ditaduras. Como se deu em 1964 e, depois, até 1985. Assim como depois do impeachment apoiaram Michel Temer, que fez um governo antipovo, praticamente destruiu o sistema de direitos trabalhistas existente no Brasil. Não há projeto algum de nação por parte dessas elites, são apenas predatórias a viabilizar um capitalismo predador, a manter a iniquidade sacramentada na injustiça e na desigualdade.

 

O LEGADO DA ESCRAVIDÃO

Eu acho que a colonização portuguesa é constitutiva do nosso ethos, do nosso caráter, da nossa ética enquanto nação, ou falta de ética. Estados Unidos e Brasil: processos completamente diferentes. Nos Estados Unidos, foram para lá muitos deserdados das revoluções religiosas que aconteceram no Norte da Europa, na Grã-Bretanha, na Alemanha, e assim por diante. Eles foram para lá com espírito de colonização, inclusive havia toda uma visão do destino manifesto que implicava o seguinte: estamos fundando uma nova Jerusalém destinada a ser líder do mundo. Além disso, os colonos cuidaram de constituir pequenas e médias propriedades. Aqui constituímos as grandes capitanias hereditárias, cujo objetivo era buscar muito mais as riquezas do que fixar colonos. Nós fomos o último país a suprimir a escravidão e isso deixou marcas profundas, sem terras, sem armas, sem revolução e sem reforma agrária. Nos Estados Unidos, para acabar com a escravidão, foi deflagrada uma guerra civil. Nós jogamos os ex-escravos na completa pobreza, na desigualdade e miséria.

 

UM PROCESSO DE LONGO PRAZO

A esquerda tem de mudar em primeiro lugar para fortalecer os setores qualificados para tanto. Por exemplo, Guilherme Boulos tem coragem e conseguiu um desempenho eleitoral significativo. Você tem de lutar fundamentalmente nas periferias, tirando o povo do domínio conservador das igrejas evangélicas, mas também construindo igrejas evangélicas progressistas. Elas existem, tenho um aluno progressista, muito ativo, pastor de uma dessas igrejas. Sem trabalhar pela organização popular não conseguiremos remover as capitanias hereditárias incrustadas no sistema político, por exemplo, os Barbalho e os descendentes de Antônio Carlos Magalhães. Assim, enquanto se der a perpetuação dessas oligarquias conservadoras e corruptas, não haverá mudanças. O processo de organização popular é árduo e longo, é preciso criar hábito e costume. Eu converso muito com bolivianos e lá existe uma tradição de mobilização a funcionar admiravelmente. No Brasil, este processo será, no mínimo, de médio e longo prazo.

 

O LEGADO DE FRANCISCO

Existem pessoas mais velhas que atravessaram a história por mais tempo, como Luiza Erundina, mas jovens de espírito. Temos de dar espaço e apoiar pessoas­ jovens, combativas, mas também jovens de espírito, dotadas da capacidade de indignação contra a injustiça que aí está. Sem coragem e sem indignação não há grandeza na política.

A história da humanidade mostra que somente estas qualidades produziram os progressos do mundo, os mais relevantes e significativos. Temos de levar em conta a incrível vitalidade do exemplo. Enxergo o papa Francisco como alguém que deixará um legado muito importante. Teve a coragem de romper com uma série de preconceitos dentro da Igreja Católica, em relação a questões que dizem respeito à sua própria organização até a campanha contra a globalização excludente que joga as pessoas para morrerem afogadas no Mediterrâneo. Ele se pronuncia com voz ativa em defesa dos pobres, em defesa dos explorados e dos oprimidos, e o seu legado será extraordinário. Qual o legado de papas que o precederam? Um legado de conservadorismo e exclusão. Qual é o legado que Donald Trump vai deixar? Apenas de mentiras. Esses tipos de personalidades estão mortos para a história.

 

COMO COMBATER O MAL

Sou cético, seguidor de Maquiavel e penso que a natureza humana é má, mesmo quando há um certo equilíbrio o mal tende a prevalecer sobre o bem. É preciso coragem, virtude tenaz e feroz para conseguir derrotar o mal. A minha esperança é que a esquerda mude, se for o caso ao sabor das críticas. Existem poucos professores como Vladimir Safatle, alguém de coragem, crítico, entre outros atributos, mas são poucos os que sabem seguir-lhe o exemplo. A esquerda só sairá do seu comodismo burocrático se ela sofrer uma crítica externa, porque, do ponto de vista interno, constituem-se máquinas de poder difíceis de mudar. Primeiro, temos de ganhar corações e mentes, mas corações e mentes capazes de organizar forças, porque, na hora do embate decisivo, é a força que decide. Temos de registrar alguns sinais positivos nas últimas eleições. Surgiram vários candidatos jovens, negros, mulheres, pessoas das periferias. Nós, que pertencemos a uma suposta classe média, temos de apoiar três setores: mulheres, negros e ativistas das periferias. Hoje você vê partidos ditos de esquerda dominados pela burocracia e por uma aristocracia parlamentar, a viver de privilégios públicos.

 

Publicado na edição n.º1138 de CartaCapital, de 30 de dezembro de 2020

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