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A vassalagem do clã Bolsonaro

A subserviência aos EUA é um traço de família, do pai para os filhos

A vassalagem do clã Bolsonaro
A vassalagem do clã Bolsonaro
DNA entreguista. Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe, prestou continência à bandeira dos EUA. Os rebentos seguem o mesmo caminho – Imagem: Roberto Jayme/TSE
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Primeiro, o pai fez continência à bandeira dos Estados Unidos. Depois, o irmão mudou-se para lá a fim de conspirar contra instituições brasileiras e os interesses nacionais. Agora, o senador Flávio Bolsonaro escancarou os compromissos da família flavio bolsonaro a soberania brasileira ao transformar em comício uma audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos EUA que tratava de argumentos técnicos contra tarifas adicionais a produtos brasileiros.

Foi mais uma ação do senador contra o Brasil, dando continuidade à tentativa de golpe que condenou seu pai, Jair Bolsonaro, a mais de 27 anos de prisão. O senador do PL viajou aos EUA não para defender empregos, empresas ou trabalhadores, mas para atuar como linha auxiliar de ofensiva contra o País: tarifaço, sanções via Magnitsky, ataques ao Pix, pressão sobre minerais críticos e a vergonhosa oferta de uma “equipe de transição” inexistente na lei brasileira. É o bolsonarismo tentando entregar no exterior o que não venceu nas urnas.

Com postura de vassalo, esqueceu que é senador. Em vez de apresentar argumentos contrários ao tarifaço, como fizeram empresários e o Itamaraty, o político de extrema-direita atacou o presidente Lula e sugeriu ao governo Trump que espere as eleições para negociar com um novo presidente – que presume ser ele, mais alinhado a Washington. Colocou-se como serviçal de Trump, como se o Brasil fosse uma neocolônia. Despreza o povo que paga seu salário: enquanto viajava aos EUA para articular contra o País, abandonou o trabalho em Brasília.

No início de junho, o USTR defendeu tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, criticou o Pix e acusou, sem fundamento, o governo brasileiro de promover ações ilegais no comércio. Os EUA também classificaram o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, estimulando sanções contra o Brasil, com amparo do clã Bolsonaro. O filho 01 transformou o mandato em sabotagem. Um senador eleito não pode viajar para estimular tarifaço, sanções, chantagem econômica e pressão sobre setores estratégicos. Essa conduta tem nome, traição à Pátria. Ele precisa responder se representa os brasileiros ou se virou a casaca para defender Washington.

O empresariado nacional repudiou o entreguismo do senador, considerando sua postura constrangedora e antagônica ao pragmatismo do Itamaraty e das empresas nas negociações com os EUA. Em ambiente estritamente técnico, o bolsonarista discursou sobre big techs, Pix e corrupção – temas deslocados do propósito da audiência. Curiosamente, esqueceu-se de citar suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso, a quem pediu 134 milhões de reais para um filme laudatório ao pai. Flávio Bolsonaro é suspeito de praticar “rachadinhas”, lavar dinheiro por meio de loja de chocolates, manter relações com milicianos e comprar imóveis em dinheiro vivo. Apresentou-se ao lado do irmão Eduardo, deputado cassado e condenado à prisão, que vive nababescamente nos EUA, sem explicar a origem dos recursos que o sustentam, e passa o tempo conspirando contra o Brasil. A dupla nociva mostrou-se indigna do empresariado e dos trabalhadores brasileiros dos segmentos exportadores. Ambos são vassalos do “imperador” Trump.

Flávio Bolsonaro transformou o mandato em sabotagem

Desde meados de 2025, quando o governo Trump anunciou, de forma autoritária e arrogante, sanções contra o Brasil, o governo Lula intensificou negociações com a Casa Branca. Mais recentemente, as conversas diplomáticas se desenrolaram ao longo de junho e julho, de forma prioritária e urgente. Nesse perío­do, Eduardo Bolsonaro pediu a autoridades dos EUA a sobretaxação de exportações nacionais e ainda sanções a autoridades brasileiras, o que chegou a ocorrer. Enquanto Flávio Bolsonaro politizava a relação e se colocava como verdadeiro representante dos EUA, o governo Lula fazia reuniões técnicas. Em vez de rebater alegações infundadas, o senador legitimou uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores. Em nenhum momento negou que a campanha familiar esteve na origem do tarifaço.

Está patente que os Bolsonaro agem para prejudicar o Brasil sempre que seus interesses pessoais estão em jogo. Enquanto o governo Lula e empresários contornam as ameaças, os vassalos tentam enfraquecer instituições e a economia. Os dois filhos do ex-presidente em prisão domiciliar cometem traição nacional. Até grandes empresas dos EUA pedem que Trump não aplique novas tarifas, para evitar alta de preços aos consumidores norte-americanos. Mas os bolsonaristas, em luta insana por interesses ideológicos e pessoais, culpam Lula pelo descalabro de Trump.

A carta do secretário de Estado, Marco­ Rubio, na qual agradece a Flávio pela oferta de uma “equipe de transição” escancara o que todos sabem: a família Bolsonaro não passa de um grupo de “lambe-botas” de Trump. Humilham o Brasil, batem palmas para líderes que quebram nossa indústria e acham que governarão de joelhos para Washington.

Divergir do governo é legítimo. Convocar potência estrangeira para pressionar o próprio país é traição. Há diferença entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao País e ao povo. Na Câmara, por sinal, tramita projeto que amplia a pena para alta traição – de 20 a 40 anos de reclusão e perda de cargo – para quem solicitar, estimular ou apoiar sanções econômicas, diplomáticas ou políticas contra o Brasil por entidade estrangeira, com intuito de ­desestabilizar instituições ou políticas nacionais. Tipificação já existente em países como aqueles da Europa e os EUA, tendo como base a legislação inglesa.

A relação Flávio Bolsonaro e Trump pode ser resumida na performance de dois personagens de desenho animado: Dick Vigarista (Trump) e Muttley (Flávio Bolsonaro), seu fiel cão de guarda, totalmente vassalo, protagonistas da ­Corrida Maluca. Uma metáfora para a relação simbiótica entre um líder populista neocolonial e seu subordinado, que executa tarefas sem princípios, movido apenas por interesse pessoal. •


*Deputado federal (PT-SC) e líder da bancada do Partido dos Trabalhadores na Câmara dos Deputados.

Publicado na edição n° 1422 de CartaCapital, em 22 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A vassalagem do clã Bolsonaro’

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