80% das dívidas das igrejas estão concentradas em 16 entidades religiosas

Lista de devedores tem igrejas comandadas por figurões bolsonaristas

Valdemiro Santiago e Bolsonaro. Igreja do apóstolo deve 153 milhões de reais em impostos.

Foto: Marcos Corrêa/PR

Valdemiro Santiago e Bolsonaro. Igreja do apóstolo deve 153 milhões de reais em impostos. Foto: Marcos Corrêa/PR

Política

Um pequeno grupo com apenas dezesseis entidades religiosas concentra 80% do montante de impostos devidos por igrejas no Brasil.

A dívida já soma mais de 1,6 bilhão de reais, segundo levantamento da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional obtido pelo portal UOL. De acordo com a reportagem, nenhuma das entidades deve menos do que 20 milhões ao País.

A lista de dezesseis entidades conta com figurões bolsonaristas, como o pastor RR Soares, o apóstolo Valdemiro Santiago e Estevam Hernandes, organizador da Marcha para Jesus.

O presidente Jair Bolsonaro é um dos nomes que articulam pelo perdão a dívidas tributárias de igrejas. O ex-capitão acionou diversas vezes a Receita Federal para analisar o pedido dos religiosos.

O grupo de devedores conta também com outras instituições evangélicas, católicas, espíritas e islâmicas.

As igrejas não pagam impostos no Brasil, no entanto, devem pagar tributos e obrigações ligados à folha de pagamento de seus funcionários. Contribuições previdenciárias, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), imposto de renda retido na fonte e multas trabalhistas compõem o montante bilionário devido pelas entidades.

Há ainda fraudes identificadas pela Receita Federal, que identifica constantemente que essas entidades atuaram como empresa. Nesses casos, elas são taxadas com imposto de renda e Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL).

Outras irregularidades como distribuição de bônus de arrecadação aos pastores também são vedadas pela legislação. A prática, segundo consta, é uma forma de distribuição de lucros, o que não é previsto para as entidades religiosas.

 

Conheça os devedores

O maior devedor no grupo é o Instituto Geral Evangélico, com mais de meio bilhão em dívidas. A entidade é presidida pelo publicitário José Augusto Cavalcanti Wanderley, que administra uma fazenda que, segundo o site do instituto, ‘distribui esperança’.

A igreja Ação e Distribuição aparece em segundo lugar na lista. A entidade foi registrada em nome de um funileiro, mas era administrada pelo economista Wagner Renato de Oliveira, preso em 2012 pela Polícia Federal após movimentar 400 milhões em quatro anos. Ambos morreram. A igreja foi autuada pela Receita em 388 milhões de reais, mas com o óbito dos responsáveis, não há informações de quem quitará o débito.

Em terceiro lugar aparece a Igreja Mundial do Poder de Deus, comandada pelo bolsonarista apóstolo Valdemiro Santiago. A dívida em nome da entidade é de 153 milhões de reais. O religioso é investigado por receber altas cifras da igreja que comanda, o que levanta suspeitas de transferência de patrimônio. Na época em que a suspeita veio à tona, ele negou as acusações.

Na quarta posição, a Igreja Internacional da Graça de Deus, do missionário RR Soares, com uma dívida de 84 milhões de reais. O pastor também é um dos figurões bolsonaristas. Seu filho, deputado David Soares (DEM-SP) é quem atua junto a Bolsonaro para obter o perdão das dívidas das igrejas.

A Igreja da Unificação, do falecido reverendo Moon, aparece em quinto lugar da lista com um montante de 70 milhões de reais em impostos devidos. A entidade chegou a ser alvo de busca e apreensão em 2002 por crimes de sonegação fiscal, de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro. Não há informações públicas disponíveis sobre o desfecho da operação.

Na lista ainda aparece outro aliado de Jair Bolsonaro: o apóstolo Estevam Hernandes, que comanda a Igreja Renascer em Cristo, e deve 40 milhões de reais em impostos. Hernandes é organizador da Marcha para Jesus, e já foi preso nos Estados Unidos por entrarem no País com dólares escondidos dentro da Bíblia.

O restante da lista:

  • Sociedade Vicente Pallotti – 60,6 milhões de reais
  • Convenção das Assembleias de Deus Santa Catarina e SO Paraná – 46,7 milhões de reais
  • Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD) – 44 milhões de reais
  • Igreja Cristã Apostólica Renascer em Cristo – 40,8 milhões de reais
  • Instituto Espírita Nosso Lar (S.J. Rio Preto) – 36.2 milhões de reais
  • Centro Islâmico do Brasil – 33 milhões de reais
  • Congregação das Filhas de N.S. do Monte Calvário – 28 milhões de reais
  • Colégio Batista Alagoano – 23,8 milhões de reais
  • Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados – 22 milhões de reais
  • Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira – 21,2 milhões de reais
  • Igreja Evangélica Assembleia de Deus (Bahia) – 20,6 milhões de reais
Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Compartilhar postagem