Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

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Yellow Submarine: psicodelia e resistência em um mundo cada vez mais cinza

Lançado em 1968, ‘Yellow Submarine’ ocupa um lugar afetivo na memória de muitas gerações e merece ser apresentado também às novas

Yellow Submarine: psicodelia e resistência em um mundo cada vez mais cinza
Yellow Submarine: psicodelia e resistência em um mundo cada vez mais cinza
Yellow Submarine, The Beatles (Foto: Snap Stills/REX)
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Sob a superfície de uma animação protagonizada pelos Beatles está uma das experiências audiovisuais mais curiosas produzidas pela contracultura. Há criaturas excêntricas, mares impossíveis, humor britânico, cores por toda parte e canções que se tornaram parte do imaginário popular. Bastam alguns minutos em Pepperland para perceber a estranheza daquele universo.

O filme surgiu em um dos períodos mais intensos da cultura psicodélica. O Verão do Amor ainda reverberava, o LSD havia deixado os laboratórios e círculos de pesquisa para se tornar um fenômeno cultural, e uma geração questionava valores, instituições, comportamentos e a própria maneira de viver.

A história é simples. Pepperland, um reino onde música, imaginação e cores convivem em harmonia, é atacado pelos Blue Meanies, criaturas que odeiam alegria, arte e qualquer forma de expressão criativa. Para salvar seu mundo, o Capitão Fred parte no submarino amarelo em busca dos Beatles.

A partir daí, o filme abandona qualquer compromisso sério com a realidade. O submarino atravessa o Mar do Tempo, o Mar da Ciência, o Mar dos Monstros, o Mar do Nada e o Mar dos Buracos. Cenários se transformam, objetos ganham vida, as leis da física deixam de importar e o nonsense passa a funcionar segundo uma lógica próxima à dos sonhos e dos estados alterados de consciência.

Misturando colagem, surrealismo, pop art e referências às vanguardas do século XX, Yellow Submarine tornou-se uma das grandes expressões audiovisuais da estética psicodélica. Sua força permanece também na rebeldia que atravessa toda essa explosão visual.

Os Blue Meanies querem retirar de Pepperland tudo aquilo que não conseguem suportar: música, cor, espontaneidade, alegria e diferença. Seu mundo ideal é imóvel, silencioso e obediente.

A guerra contra Pepperland é um conflito entre imaginação e controle, expressão e repressão, cor e cinza.

Mais de meio século depois, revisitar aquela explosão de cores e rebeldia voltou a ser necessário.

Em 2026, olhar para a contracultura das décadas de 1960 e 1970 não é um exercício de nostalgia. O mundo que produziu os hippies, a psicodelia e as revoluções comportamentais estava longe de ser um paraíso. Havia guerras, racismo, perseguição política, violência de Estado e profundas desigualdades. Em confronto com esse mundo, parte daquela juventude questionou as regras e procurou outras formas de viver.

Hoje, em meio ao crescimento de movimentos de extrema direita, discursos autoritários, ataques a minorias e novas tentativas de controlar corpos, identidades e comportamentos, recuperar a história da contracultura significa lembrar que a cultura também é uma forma de resistência.

Nosso mundo também ficou menos colorido, inclusive de maneira literal. Os carros já circularam pelas ruas em uma variedade muito maior de cores. Casas, roupas, móveis e objetos aparecem cada vez mais dominados pelo branco, preto, cinza e bege. O minimalismo transformou a neutralidade em sinônimo de elegância: tudo limpo, discreto, organizado e controlado.

A psicodelia propunha o oposto.

Cor, excesso, mistura, experimentação. Roupas estampadas, cartazes delirantes, carros pintados, capas de discos explosivas. A semelhança visual com Yellow Submarine é irresistível: os Blue Meanies também começam seu domínio retirando a cor do mundo.

Revisitar a psicodelia em 2026 ultrapassa o interesse histórico e estético. A contracultura teve suas contradições, fracassos e ingenuidades, mas deixou uma rebeldia fundamental diante da ideia de que existe apenas uma maneira correta de viver.

Essa rebeldia atravessou a música, o cinema, as artes, as roupas, a sexualidade, a linguagem, os estados da consciência e o direito de existir fora dos modelos dominantes. Questionou governos, instituições e aquilo que a sociedade considerava normal, aceitável ou possível.

Quando forças políticas e culturais tentam novamente pintar o mundo em tons cada vez mais uniformes, é uma boa hora para lembrar que outras gerações enfrentaram seus próprios Blue Meanies.

Yellow Submarine carrega essa história de rebeldia. A contracultura não deve permanecer confinada a museus, camisetas vintage e à nostalgia de uma juventude que envelheceu. Sua provocação continua atual: que outros mundos ainda somos capazes de imaginar?

É por isso que o velho submarino amarelo continua navegando.

Contra o silêncio, música. Contra a uniformidade, diferença. Contra o cinza, cor.

E contra um mundo que insiste em se apresentar como inevitável, a velha e perigosa capacidade humana de imaginar outro.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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