Psicodelicamente
Psicodelicamente
‘A maior invenção do século 20 foi o LSD’, diz Antonio Peticov
Psicodélicos e contracultura atravessam a trajetória do artista plástico que, aos 80 anos, ganha a maior retrospectiva de sua carreira no Centro Cultural São Paulo
Antonio Peticov é uma daquelas figuras raras que ainda atendem telefone. WhatsApp não adianta. E-mail tampouco. Redes sociais, esqueça. Tem que ligar. E ele atende. Foi assim que combinamos uma conversa em sua casa-ateliê, no Pacaembu, zona oeste da capital paulista. Aos 80 anos, acaba de ganhar a maior retrospectiva de sua carreira. “Peticov – A Exposição”, em cartaz até 2 de agosto no Centro Cultural São Paulo, reúne mais de 400 obras produzidas ao longo de seis décadas.
Há artistas cuja obra não se separa da vida. Peticov é um deles. Sua trajetória atravessa um tempo em que a expansão da consciência era vista como uma mistura de ameaça e delito. Falar de sua arte é falar de repressão, prisão, exílio e de uma geração que acreditou ser possível transformar a si mesma, e talvez o mundo, por meio de experiências capazes de mudar profundamente a percepção da realidade. Nessa caminhada, conviveu com a contracultura, experimentou substâncias psicodélicas, enfrentou a ditadura, e transformou tudo em matéria-prima.
Aos 23 anos, tornou-se o primeiro preso por LSD no Brasil. Passou dois meses e meio no Carandiru, foi torturado e, mesmo assim, manteve uma produção intensa: traduziu dois livros, pintou três telas e fez 24 desenhos. Ainda sobrou tempo para ensinar os outros presos a jogar batalha naval. Décadas depois, Peticov não fala da prisão como um trauma.
Filho de pastor, criado num ambiente que descreve como protegido e inocente, foi na prisão que teve o primeiro contato com as contradições mais duras da vida brasileira. “A prisão foi muito boa”, afirma. “Conheci a vida como ela é.” Parte desse material produzido no cárcere foi preservada e pode ser vista na retrospectiva em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Entre elas uma intitulada, não por acaso, “LSD”.
‘Turn on, tune in, drop out’
Depois de sair da prisão, Peticov seguiu a máxima de Timothy Leary, de quem se tornaria amigo anos depois, sintetizada na frase que virou mantra da contracultura: “Turn on, tune in, drop out” (“se ligue, se sintonize e caia fora”). Sintonizado ele já estava. Só faltava cair fora. Foi o que fez. Com sua pequena “fortuna” de 275 dólares e uma bolsinha de roupa, deixou o Brasil. Passou por Londres, onde conviveu com a diáspora tropicalista. Depois seguiu para a Itália. Pretendia ficar um mês. Ficou 14 anos.
Entre São Paulo, Londres, Milão e outros tantos lugares, construiu uma obra que transita entre geometria, ciência, filosofia e uma espiritualidade atravessada por Jung, arquétipos e expansão da consciência. “A experiência psicodélica é uma grande viagem interior”, resume. “O ácido abre o coração. A maior invenção do século 20 foi o LSD.”
Passadas mais de cinco décadas, Peticov encara com ironia o fato de ter entrado para a história como o primeiro preso por LSD do Brasil. “Tenho um cartão-postal escrito: ‘Time is the best dealer’. O tempo é o melhor juiz”, diz. A percepção sobre o episódio mudou radicalmente ao longo dos anos. “Quando fui preso, era visto como bandido, destruidor de lares. Hoje as pessoas olham para essa história de outra forma.”
Peticov rejeita a imagem de traficante. Diz que fazia parte de uma geração que acreditava estar compartilhando uma descoberta transformadora. “Quando você se maravilha com os efeitos do ácido, quer que as pessoas que ama também conheçam aquilo. Você acaba virando uma espécie de divulgador, de pregador.”
Ao lembrar a prisão, reconhece a ingenuidade da juventude. Tinha 23 anos e não imaginava que o que fazia pudesse levá-lo para trás das grades. “Eu realmente não achava que estava cometendo crime nenhum. Na minha cabeça, estava divulgando algo que considerava importante.”
O interesse pelos estados alterados de percepção começou muito antes da prisão e até do LSD. Teve maconha, conversas com artistas e professores e toda a efervescência cultural de uma São Paulo que começava a absorver os ventos da contracultura internacional.
Uma das primeiras pessoas a lhe falar sobre experiências psicodélicas foi uma professora de história. Mais tarde, ouviu relatos de artistas como Wesley Duke Lee e Mário Gruber, que participavam de pesquisas com LSD. A curiosidade foi plantada. Quando finalmente experimentou a substância, em 1968, sentiu que havia encontrado algo que mudaria sua forma de perceber o mundo, e a arte.
Mudança radical e exílio em Londres
Segundo Peticov, o LSD provocou uma virada em sua produção artística, até então marcada por composições geométricas rígidas e uma busca formal mais controlada. A partir das experiências psicodélicas, surgiram colagens, figuras e referências mais livres.
O artista descreve essa transformação não como ruptura estética, mas como ampliação do olhar. “Meu trabalho é muito baseado na intuição, é uma coisa basicamente psicodélica”, afirma. “O ácido abriu possibilidades que eu não enxergava antes.”
O LSD transformou sua pintura, Londres ampliou o horizonte. A cidade reunia artistas, músicos, escritores e exilados de diferentes partes do mundo, atraídos pela ebulição contracultural do início dos anos 1970.
Logo nos primeiros dias na Inglaterra, Peticov descobriu que Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros brasileiros haviam partido para o Festival da Ilha de Wight, um dos maiores encontros da contracultura mundial. Sem saber onde ficava o local, seguiu as instruções que recebeu: bastava acompanhar a multidão.
Ao chegar, encontrou cerca de 700 mil pessoas espalhadas pelos campos ingleses. Exausto da viagem, adormeceu entre barracas. Ao despertar, ouviu alguém gritar seu sobrenome. Era uma conhecida brasileira que o levou até o grupo de exilados e artistas ligados à Tropicália.
Graças a uma sequência improvável de coincidências, ganhou acesso aos bastidores do festival, onde conheceu figuras importantes da contracultura brasileira. Durante dias, circulou por um universo que reunia música, arte, psicodelia e experimentação comportamental numa escala difícil de imaginar hoje.
Experiências psicodélicas
Ao contrário do que muitos imaginam, Peticov não se tornou um entusiasta de qualquer experiência psicodélica. Demonstra respeito pelas tradições indígenas e pelas plantas de uso ritual, mas prefere caminhos mais rápidos e urbanizados. “Nasci e cresci na cidade. Não sou índio”, resume. “Tenho um amor enorme pela cultura indígena, mas não gosto de nenhuma droga psicodélica natural, porque teria que pagar um pedágio que não quero.”
“Eu gosto de andar de bicicleta, mas para ir para Nova York prefiro ir de avião”. Para ele, experiências longas como as proporcionadas pela ayahuasca exigem um investimento de tempo desnecessário. “Em vez de ficar seis ou sete horas, prefiro fumar DMT.” Segundo ele, trata-se de uma viagem relâmpago. “Em dez ou quinze minutos você vai lá e volta carregado com a mala cheia. Porque a gente faz essas viagens para buscar alguma coisa.”
E rápido aqui não significa fácil. Peticov recorda que a primeira experiência com DMT foi assustadora. Como tantas outras passagens de sua trajetória, porém, ela acabaria se transformando em reflexão, arte e autoconhecimento.
Ele conta uma história que ajuda a entender sua forma de enxergar essas experiências. Na primeira vez que visitou Bali, na Indonésia, se assustou com duas enormes estátuas de aparência monstruosa posicionadas na entrada do aeroporto. A reação inicial foi de estranhamento. Só depois descobriu que aquelas figuras estavam ali para afastar maus espíritos. “Eu pensei: que recepção é essa? Depois entendi que aqueles monstros estavam me protegendo.”
Para Peticov, os monstros que aparecem em sonhos ou experiências psicodélicas nem sempre são ameaças. Muitas vezes carregam algo que precisa ser compreendido.“Tenho que tê-los como aliados”, diz. A lógica, sugere, vale tanto para uma viagem psicodélica quanto para a vida cotidiana.
Busca espiritual
Para Peticov, os psicodélicos nunca estiveram dissociados de uma busca espiritual. Criado sob forte influência religiosa, passou boa parte da vida questionando dogmas e procurando outras formas de compreender a existência. “Custou muito me livrar deles”, diz.
Ao longo desse percurso, aproximou-se da ideia de que o sagrado não depende de intermediários nem de instituições. “A proposta da enteogenia é descobrir a tua divindade. A tua conexão direta com ela”. Vale explicar que o termo “enteógeno” é usado por alguns pesquisadores e praticantes para enfatizar a dimensão espiritual das experiências psicodélicas.
No caso de Peticov, uma investigação que acabou encontrando espaço também em sua produção artística. Muitas de suas obras exploram dualidades como dia e noite, consciente e inconsciente, humano e divino, sugerindo a possibilidade de diálogo entre mundos aparentemente opostos.
Curiosamente, Peticov afirma que suas experiências raramente foram marcadas por visões espetaculares ou visões. Ele se atenta aos insights. “Eu nunca tive experiências visuais. Era mais um ‘cair de fichas’. É para isso que serve.”
Embora rejeite a ideia de que essas experiências tenham transformado sua pintura por meio de efeitos visuais, reconhece que elas ajudaram a refinar seu olhar. “Aprendi a olhar e a ver”. Isso impactou parte de sua trajetória artística. Durante anos, desenvolveu projetos voltados justamente para aquilo que costuma passar despercebido. Um deles previa a instalação de cones de observação direcionados para detalhes urbanos ignorados pela maioria das pessoas ao longo do Minhocão, elevado que corta a região central de São Paulo. “Coisas do cotidiano que ninguém nota e que são lindas”, resume.
Arte e contracultura
A mesma curiosidade que o levou às experiências psicodélicas o aproximou de personagens centrais da contracultura brasileira. Ao longo da carreira, conviveu e trabalhou com nomes como Walter Franco, Itamar Assumpção, Antônio Bivar, Claudio Willer, José Agrippino de Paula, Rogério Sganzerla e Aguilar, entre outros. Também atuou como tradutor de Timothy Leary em algumas de suas visitas ao Brasil.
A passagem pela Europa ampliou ainda mais esse repertório. Entre revistas underground, festivais de rock e projetos artísticos independentes, Peticov mergulhou em uma cena cultural que considera decisiva para sua formação. “A Itália mudou a minha vida”, afirma.
Quando perguntado se considera sua obra psicodélica, não hesita. “Claro que sim”. Mas faz questão de explicar que seu trabalho segue um caminho diferente daquele normalmente associado ao imaginário psicodélico.
Enquanto boa parte da arte psicodélica clássica aposta em explosões cromáticas, distorções visuais e elementos próximos do surrealismo, ele identifica sua produção com algo mais próximo do realismo fantástico. “Eu raramente deformo uma figura”, explica. “Uso a figura normal, mas num contexto diferente”. Ou seja, a psicodelia está mais nas perguntas que as imagens podem provocar.
Hoje, Peticov continua defendendo a importância dessas experiências com a mesma convicção de quando era jovem. Mas faz questão de enfatizar que não se trata de uma aventura recreativa qualquer. “É um momento transcendental.”
Ele também cita os debates atuais sobre o tema, como pesquisa científica, redução de danos e políticas de drogas. Para ele, um dos principais problemas da proibição continua sendo a falta de controle sobre a qualidade das substâncias que circulam no mercado ilegal.
Ao mesmo tempo, vê com entusiasmo o renascimento dos estudos clínicos com psicodélicos. “Ninguém parou”, diz. “Hoje temos mais ferramentas. E agora a gente pode divulgar. Antes não podia.”
Talvez essa seja a maior mudança que testemunhou desde os tempos em que foi preso por distribuir LSD. O mundo mudou. A ciência avançou. Os psicodélicos voltaram aos laboratórios, universidades e hospitais. Peticov, por sua vez, segue interessado em expandir os limites da percepção, convencido de que as viagens mais importantes continuam acontecendo para dentro.
Serviço:
Peticov – A Exposição
Até 2 de agosto de 2026
Terça a domingo, das 10h às 20h
Fechado às segundas-feiras
Entrada gratuita
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