Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

Vocês já viram como a Valéria estaciona o carro dela?

Passou pela minha cabeça a dúvida: onde será que eles viram a Valéria estacionando o carro? No pátio da firma?

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
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Eu descia a Rua Roma quando passei em frente a um Bar e Lanches, onde um grupo de cinco operários da Enel conversavam animadamente, enquanto tomavam um café com leite, acompanhado de pão de queijo, ali mesmo, de pé na calçada.

Não eram ainda sete horas da manhã, eu passeava com o Canela e eles ali, se preparando para tentar colocar uma ordem naquele amontoado de fios, fios embolados que passam por cima das nossas cabeças.

O Canela parou para fazer xixi no poste bem em frente ao Bar e Lanches, foi quando ouvi o que eles conversavam. Uma frase soou clara naquela manhã no bairro da Lapa.

– Vocês já viram como a Valéria estaciona o carro dela?

O mundo está mudando rapidamente. As mulheres não votavam, hoje votam, elas não podiam sentar num bar e tomar uma cerveja, hoje podem. Como podem trabalhar, ir ao campo de futebol, chamar o juiz de filho da puta, podem dizer não e podem dirigir. Graças à luta delas.

Mas ainda existem aqueles que, com toda certeza do mundo, acham que lugar de mulher é pilotando fogão, em casa cuidando dos filhos, acham que elas não entendem nada de futebol e que não sabem dirigir, quanto mais estacionar um automóvel.

Os operários da Enel davam gargalhadas, pareciam íntimos empurrando um ao outro, tirando sarro do santista. Riram alto e cada um queria dar sua opinião quando surgiu o assunto do carro da Valéria.

Passou pela minha cabeça a dúvida: onde será que eles viram a Valéria estacionando o carro? No pátio da firma?

Todos eles, trajando macacão cinza, tinham cara de gente boa, mas tinham certeza de que Valéria não sabia estacionar o carro simplesmente pelo fato de ser mulher.

Quantos e quantos taxistas não vi silenciar diante de uma burrada de um homem no trânsito, mas abrir um sorriso largo quando via que era mulher?

– Só podia ser mulher!… eles falam de boca cheia.

Talvez a Valéria seja mesmo uma roda dura, daquelas que quando estacionam, a gente abre a porta e pensa: vou pedir um Uber pra ir até a calçada. Mas estacionar errado não é coisa de mulher, é coisa também de homem que não saber estacionar direito.

Aqui em casa quem dirige – e dirige bem – é a minha mulher. Eu sou uma negação. Não dirijo, nunca soube dirigir. Sou muito, muito, mas muito pior que a Valéria.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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