Opinião
Venezuela, petróleo e o domínio do dólar
O país sul-americano mostra que a riqueza em recursos naturais não garante desenvolvimento
Desde o início do século XX, a Venezuela ocupa uma posição singular: trata-se de um país periférico que detém um dos recursos estratégicos centrais do capitalismo moderno. O petróleo moldou sua economia, sua sociedade e seu Estado. Produziu urbanização acelerada, longos períodos de renda elevada e uma aparência de prosperidade que, por décadas, sustentou a ilusão de que o país havia superado o subdesenvolvimento, mas não a profunda desigualdade. Essa prosperidade, contudo, nunca se traduziu em transformação estrutural duradoura.
Com o tempo, a renda petroleira passou a cumprir funções que extrapolavam a esfera produtiva. Ela financiava importações, sustentava padrões de consumo de economias desenvolvidas, condicionava a política fiscal e, sobretudo, reduzia a necessidade de pactos sociais baseados na produção e na tributação. O Estado tornou-se dependente da renda externa; a sociedade, dependente do Estado; e a economia, vulnerável aos ciclos internacionais de preços do petróleo.
Esse ponto é decisivo. Quando uma economia se organiza em torno de divisas, o conflito não é apenas sobre eficiência ou escolhas de política econômica. Ele se desloca para a dimensão monetária do modelo de transações comerciais e a moeda de referência. E, desde os anos 1970, essa referência tem nome: o dólar.
Após o colapso do padrão ouro-dólar e a crise do petróleo de 1973, a hegemonia norte-americana não se sustentou apenas por confiança de mercado ou competitividade tecnológica e econômica. Ela foi reorganizada por meio de um arranjo político-financeiro que articulou segurança militar, petróleo e sistema monetário internacional. A partir de então, o comércio internacional de petróleo passou a operar referenciado ao dólar, e os excedentes gerados pelos países exportadores foram, em larga medida, reciclados nos mercados financeiros dominados pelos Estados Unidos. Esse mecanismo, conhecido como reciclagem dos petrodólares, tornou-se um dos pilares silenciosos da ordem monetária internacional.
Não se trata de um acordo formal que obrigue todos os países a vender petróleo exclusivamente em dólar. O poder do petrodólar reside menos em cláusulas jurídicas do que em um padrão de prática consolidado, a partir de um acordo dos EUA e Arábia Saudita, em 1974, em troca de apoio militar e acesso a armas de alta tecnologia. O petróleo é precificado em dólar; os superávits são acumulados em dólar; e os ativos considerados seguros e líquidos continuam sendo, majoritariamente, denominados nessa moeda. Isto permite ao dólar aprofundar seu papel de instrumento de poder, claro desde a recusa dos EUA em aceitar a proposta de Keynes, da criação do Bancor. A hegemonia do dólar permite aos EUA a organizar fluxos financeiros, impor sanções e definir quem pode – ou não – operar plenamente no sistema internacional.
É nesse ponto que a Venezuela deixa de ser apenas um caso de rebeldia geopolítica e se converte em problema sistêmico. Quando o país buscou alternativas ao circuito tradicional – seja ao tentar operar parte de suas transações em outras moedas, como o yuan e sinalizar distanciamento do sistema financeiro dolarizado – não apenas questionou a ordem vigente. Mas criou algo potencialmente mais perigoso: um precedente. Em sistemas de poder altamente hierarquizados, precedentes importam. Eles sugerem caminhos possíveis, estimulam imitações e introduzem incerteza onde antes havia previsibilidade.
A reação a esse tipo de movimento raramente é imediata ou frontal. Durante anos, a disciplina sobre a Venezuela foi exercida sobretudo por meios financeiros: sanções, bloqueios, restrições ao comércio, isolamento monetário e exclusão dos sistemas internacionais de pagamento. Esses instrumentos não tinham apenas um objetivo punitivo e de isolamento da Venezuela. Eles funcionavam como mecanismos de pressão, reafirmando os limites da soberania econômica em uma ordem geopolítica profundamente assimétrica.
Em janeiro de 2026, essa lógica alcançou um novo patamar. A intervenção militar direta dos Estados Unidos em território venezuelano – com ataques a instalações estratégicas, incursões armadas em Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa – marcou uma ruptura histórica. Não se tratou de uma ação multilateral, nem de uma operação respaldada por organismos internacionais. Foi uma demonstração explícita de poder, realizada à margem do direito internacional e das próprias normas institucionais norte-americanas.
O episódio recolocou a América Latina em um cenário que muitos julgavam superado: o de zona de segurança direta, na qual a soberania dos Estados é condicionada aos interesses estratégicos dos EUA. A retórica de combate ao narcotráfico ou de defesa da democracia funcionou como cobertura discursiva para uma mensagem mais profunda: há limites claros para a autonomia política e econômica em regiões consideradas vitais para os interesses da principal potência global.
Nada disso afasta os problemas internos da Venezuela, estruturais e políticos. A dependência extrema do petróleo, a vulnerabilidade institucional e a incapacidade de construir uma base produtiva diversificada são fatos incontornáveis. Eles explicam a vulnerabilidade do Estado venezuelano. Mas não explicam, por si sós, a escalada da reação externa. O que transforma fragilidade em estrangulamento é o choque entre um país estruturalmente vulnerável e uma ordem internacional que não tolera alternativas fora de seus marcos fundamentais, sobretudo quando essas experimentações tocam no núcleo monetário e energético do sistema.
A Venezuela contemporânea é menos uma anomalia do capitalismo global e mais uma revelação de seu funcionamento real. Ela mostra que riqueza em recursos naturais não garante desenvolvimento e que a soberania política é aceita apenas enquanto não ameaça os pilares financeiros e estratégicos da ordem vigente. Quando essa fronteira é cruzada, a resposta deixa de ser econômica, passa a ser política e, no limite, assume forma militar.
A trajetória da Venezuela revela a armadilha de uma economia baseada no ciclo das commodities, incapaz de realizar uma transformação produtiva e de distribuir renda nos momentos de bonança. De outro, expõe a natureza hierárquica da ordem internacional contemporânea, na qual a moeda, longe de ser neutra, funciona como instrumento de poder, articulado ao controle da energia e à capacidade de coerção.
Essas duas dimensões analíticas associadas, respectivamente, às reflexões de Celso Furtado, em Ensaios sobre a Venezuela -Subdesenvolvimento com Abundância de Divisas; e José Luís Fiori, em Poder e dinheiro, uma economia política da globalização, ajudam a compreender por que a Venezuela não é apenas um caso de interesses pontuais e de oportunismo de um político sob pressão de escândalos escabrosos, como é Trump, mas um episódio revelador dos limites reais da soberania periférica no século XXI.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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