Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

Um retrato do cirismo

O repúdio a Bolsonaro é alto, parte dos ciristas votou em Lula no passado e considera que o ex-presidente fará um governo melhor. Essa franja do eleitorado vai decidir se a eleição terá um ou dois turnos

Lula e Ciro Gomes. Fotos: Ricardo Stuckert e Miguel Schincariol/AFP
Lula e Ciro Gomes. Fotos: Ricardo Stuckert e Miguel Schincariol/AFP
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Os eleitores que pensam em votar em Ciro Gomes têm importância central no desfecho da eleição. Sempre se soube, mas parece que alguns só agora se deram conta desse fato.

Estava claro desde o efetivo começo do processo eleitoral, quando Lula recuperou seus direitos políticos, que iríamos para uma eleição polarizada entre ele e o capitão, na qual outras candidaturas teriam papel, no máximo, coadjuvante. Nasceram e permaneceram tão pequenas que houve quem quisesse fazer um truque, somando quantas conseguisse, para ver se, juntas, alcançavam porte respeitável. Por motivos óbvios não funcionou e a tal “terceira via” caminha para entrar na nossa história política como um rodapé cômico.

O eleitorado de Ciro faz pouca diferença no resultado da eleição. De acordo com as pesquisas mais confiáveis, a vantagem de Lula nos cenários de voto no primeiro turno é alta e consistente. Em nenhuma eleição moderna houve uma candidatura que se mantivesse com tamanha superioridade numérica durante tanto tempo. Tampouco houve quem tivesse mais intenções de voto que ele, a esta altura do processo. O eleitorado cirista, sozinho, não explica ou altera essa realidade.

No único cenário relevante de segundo turno, de enfrentamento entre ­Lula e o capitão, as pesquisas indicam que ­Lula vence mesmo se a totalidade daqueles que pretendem votar em Ciro optasse por Bolsonaro. É simples aritmética: na média das pesquisas presenciais publicadas, ­Lula tem, hoje, em cenário de primeiro turno, 49% dos votos válidos, ficando Bolsonaro com 34%. O voto em Ciro, de 8%, mesmo se migrasse integralmente para o capitão, não impediria a vitória do petista.

Excluída essa hipótese, que não tem sustentação em qualquer pesquisa, há uma dimensão em que o voto cirista é importante. Não é o único, mas é um dos principais caminhos para que a eleição presidencial se resolva sem o segundo turno. Em outras palavras, o voto, no dia 2 de outubro, de quem pretende escolher Ciro não muda o favoritismo de Lula. Mas pode antecipar sua vitória e definir logo a eleição.

Conhecemos, por meio das pesquisas, o perfil do eleitorado de Ciro e algumas de suas características. De acordo com o mais recente levantamento do ­Datafolha, é um pouco mais masculino que a média, com uma proporção de gente de mais idade também acima da média. A tendência não é forte, mas o voto em Ciro sobe à medida em que aumentam a escolaridade e a renda. Em termos regionais, quase 60% de seu eleitorado está no Sudeste.

Entre os ciristas, o repúdio a Bolsonaro é elevado: apenas 8% avaliam positivamente o governo, contra 23% no conjunto. Dizem não gostar de Bolsonaro quase 80% dos eleitores do pedetista.

Lula já recebeu, ao menos uma vez, o voto de 60% da parcela que pretende votar em Ciro, o que é compreensível por sua concentração na idade mais elevada. Entre os que não votaram, apenas um terço afirma que não o fez por rejeição a Lula ou ao PT.

Contrariando seu candidato, metade dos ciristas gosta de Lula: 51% contra 43%, que dizem não gostar. Suas expectativas são positivas: 41% imaginam que o ex-presidente fará um governo melhor que os anteriores, enquanto apenas 20% acreditam que será pior. Em relação ao governo do capitão, 53% supõem que ­Lula fará um governo melhor. Por essas razões, 50% dos que pretendem votar em Ciro vão votar em Lula no segundo turno.

A proporção de ciristas decididos por Ciro é a mais baixa entre todos os principais candidatos, de acordo com pesquisa recente do MDA. Entre eleitores de ­Lula, 78% estão decididos, muito perto do que acontece com aqueles de Bolsonaro, com 82%. Quanto a Ciro, a taxa é de 51%.

Tudo considerado, há uma metade da intenção de voto em Ciro que não está decidida por ele e provém de eleitores que gostam de Lula, esperam que faça um bom governo, já votaram antes no petista e pretendem votar nele no segundo turno. Convencê-las a antecipar seu voto para o primeiro turno depende da compreensão do que pensam e querem para o Brasil, e da capacidade de estabelecer um diálogo com elas e eles. Algo que nada tem a ver com a ideia de “voto útil”. Ao contrário. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1209 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Um retrato do cirismo”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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