A Secretaria da Educação paulista culpa os diretores pelo fiasco em Serra Negra

Infelizmente, perdeu-se a oportunidade de dizer em alto e bom som a Doria que arriscar a saúde de 4 mil servidores e sua comunidade é vileza

Ao vivo, Rossieli Soares defende o cumprimento de protocolos sanitários e é desmentido pelas imagens da aglomeração de diretores escolares promovida pela Seduc-SP. Minutos antes, no centro do palco, o secretário da educação discursava sem máscara para uma audiência superior a 4 mil pessoas. Créditos: Reprodução

Ao vivo, Rossieli Soares defende o cumprimento de protocolos sanitários e é desmentido pelas imagens da aglomeração de diretores escolares promovida pela Seduc-SP. Minutos antes, no centro do palco, o secretário da educação discursava sem máscara para uma audiência superior a 4 mil pessoas. Créditos: Reprodução

Educação,Opinião

Entre 30 de setembro e 1º de outubro, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) realizou um evento presencial para mais de 4 mil pessoas – diretores de escolas, coordenadores de núcleo pedagógico e dirigentes regionais de ensino da rede estadual na cidade de Serra Negra. Na semana que antecedeu o encontro, diretores escolares que protestaram contra a irresponsabilidade sanitária de organizar um evento dessas dimensões — e foram lembrados por seus superiores de que a presença era obrigatória. Quem faltasse teria os dias de trabalho descontados, ficaria “marcado” na diretoria regional de ensino etc. etc.

O resultado óbvio dessa pressão foi a adesão – com presença maciça ao evento – da categoria. Seja pessoalmente, seja representados por vice-diretores.

Na véspera da viagem, gestores escolares relataram crises de ansiedade , já que sofrem na pele o pouco caso da Seduc-SP em relação à segurança sanitária. Uma vez em Serra Negra, a ansiedade só aumentou. As primeiras imagens do evento a circular nos grupos de WhatsApp eram chocantes. Milhares de pessoas sentadas, sem o mínimo distanciamento. Outras centenas permaneceram em pé, coladas umas às outras na marquise principal ou no fundo do centro de convenções. Várias pessoas da audiência foram flagradas com a máscara no queixo ou com o nariz para fora. O próprio secretário da educação, Rossieli Soares da Silva, anfitrião dessa micareta, discursou sem máscara no palco.

Em nota, a Seduc-SP disse que “para melhorar a comunicação, o secretário ficou parte do tempo em que se apresentou sem máscara, mas ainda assim mantendo o distanciamento dos demais presentes no palco e do público em geral. Voltando a recolocá-la ao término de sua apresentação”. Mais pragmática, a avaliação de um dos diretores presentes é que o secretário resolveu tirar a máscara para sair bem nas fotos.

A Seduc também declarou que, para diminuir a lotação da sala principal, iria redistribuir os participantes para outros auditórios. Eles poderiam assistir a todas as apresentações pela TV (ironicamente, como se estivessem em suas casas). A ‘redistribuição’ consistiu na transferência de 400 pessoas para um segundo auditório, no mesmo centro de convenções. A operação não surtiu efeito, pois na sala principal os participantes estavam, mais uma vez, aglomerados. Os diretores reconhecem que, pelo menos, houve uma orientação mais detalhada sobre protocolos sanitários antes do início das atividades do segundo dia do evento.

Com o beneplácito do chefe João Doria e sem controle externo a seus arroubos, Rossieli concluiu que não havia impedimento em aglomerar milhares de pessoas em um ambiente fechado e a centenas de quilômetros de seus respectivos postos de trabalho. Mas por que um secretário de Educação que se vende como gestor faria algo tão irresponsável? A resposta é tão simples quanto infeliz: porque nós permitimos.

‘Foram porque quiseram’

Um diretor que chegou ao evento já durante a fala de abertura do secretário notou que quem estava no fundo não conseguia ouvir nada do que se falava no palco. Arrependido de ter viajado quase 170 km, ele deixou o centro de convenções com outros colegas. Quem permaneceu conta que não havia água para os participantes e que muita gente estava assustada por conta da aglomeração.

Durante a manhã do dia 30, houve crises de choro e postagens indignadas de diretores em redes sociais. Até a Udemo, sindicato de diretores escolares que não prima pelo enfrentamento aos desmandos do PSDB paulista, condenou o evento.

Não demorou até que as imagens da multidão amontoada começassem a pipocar na imprensa. O telejornal vespertino da EPTV, afiliada da Globo sediada em Campinas, fez uma cobertura ao vivo de 15 minutos. A reportagem entrevistou três participantes – incluindo dois dirigentes regionais de ensino, diretamente subordinados ao secretário –, que ressaltaram a importância daquele encontro com o secretário ser feito “com segurança”. Já os diretores e dirigentes assustados com a aglomeração “preferiram não gravar entrevista”.

Se 15 minutos de cobertura televisiva negativa, meia dúzia de críticas na imprensa escrita e um pouco de frege nas redes sociais já fizeram perder estribeiras, imaginem o que aconteceria se a maior parte dos diretores abandonasse o centro de convenções

Uma lei da mordaça informal vigora há tempos na rede estadual de São Paulo: espera-se que servidores do Estado ajam como lacaios da dinastia tucana. Tacitamente, todos sabem que só fala em público quem é capacho ou quer agradar o poder. Vozes críticas são cada vez mais raras.

Em entrevista gravada naquele dia, Henrique Pimentel, jovem chefe de gabinete da Seduc-SP recrutado nas fileiras da Fundação Lemann, comemorou na EPTV a possibilidade de voltarmos a organizar eventos de grande porte com toda a segurança. As platitudes ditas por ele contrastavam com as imagens de pessoas aglomeradas dentro e fora do centro de convenções. Ainda que participantes com febre tenham sido impedidos de entrar, reunir uma amostra de 4 mil pessoas que convivem diariamente com outras centenas de milhares nas escolas, num momento em que a média diária de casos de Covid-19 no estado de São Paulo é de 1,4 mil é receita para o desastre.

Ainda que a cobertura televisiva camarada com o governo paulista tenha tentado dourar a pílula, o absurdo era patente. Depois de alguns minutos, Rossieli Soares foi entrevistado ao vivo. O cenário escolhido foi um pequeno barranco ao lado do centro de convenções, longe das centenas de pessoas que, preferindo não aglomerar do lado de dentro, acabaram se aglomerando do lado de fora.

A não ser pela parcela da audiência que beija a mão de todo e qualquer governo de plantão, a avaliação dos diretores é que nem para comício eleitoral o evento serviu

De máscara, microfone na mão, o secretário da Educação estava visivelmente contrariado. E já iniciou dizendo que o evento era “opcional: a pessoa poderia optar por vir ou não” e passou a listar os protocolos sanitários locais: álcool em gel, máscaras, distanciamento. Antes que o repórter conseguisse questionar o secretário sobre as imagens de pessoas inquestionavelmente aglomeradas, sem qualquer distanciamento, Rossieli fez uma alusão estapafúrdia a aglomerações em praias e manifestações. Insolente, voltou a carga contra os sindicatos que, “hipócritas”, organizam protestos de rua, abrem suas colônias de férias, mas atacam a atividade de formação promovida pela Seduc-SP.

O secretário é um especialista nesse tipo de falácia dispersiva, em que desfere ataques pessoais para fugir do assunto. Enquanto isso, imagens da aglomeração reprisadas em loop o desmentiam. Repórter e apresentador agradeceram os “esclarecimentos” do secretário, que aproveitou para falar sobre os projetos do governo e o Novo Ensino Médio, pretenso motivo para a realização do evento.

Em outra parte do centro de convenções, uma diretora que publicou postagem crítica ao evento no Facebook foi repreendida por seu dirigente regional e por um alto funcionário do gabinete da Seduc-SP. Em conversa reservada, os superiores se disseram surpresos com a atitude da diretora, que, segundo eles, teve a opção de não viajar a Serra Negra. Chocada, a diretora os confrontou com o fato: a convocação publicada no Diário Oficial – que tornava, portanto, obrigatória a presença no evento. A fim de encerrar a questão, o representante do gabinete ofereceu um carro oficial para que a diretora concursada fosse embora dali. Ela argumentou que aquela não era uma questão de desconforto individual, mas de saúde coletiva: se a Seduc-SP disponibilizasse carro oficial para levar embora todas as pessoas que estavam ali a contragosto, ela também iria.

Em público e em privado, a repercussão negativa do evento na imprensa foi rapidamente contornada pela Seduc-SP, que colocou a culpa da aglomeração nos milhares de diretores que viajaram de seus municípios para Serra Negra por livre e espontânea vontade. Não teriam entendido – vejam só! – o significado do verbo “convocar” no gerúndio e em letras capitais estampado na Portaria do Chefe do Gabinete publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo (25 set. 2021). Além de inteiramente responsáveis pela aglomeração, Rossieli deu a entender que os milhares de diretores arrastados a Serra Negra pela Seduc-SP também não sabem ler.

 

Convocação de diretores publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, 25 set. 2021 (Poder Executivo, Seção I, p. 55).

Nos movimentados perfis do secretário nas redes sociais, não se viu uma mísera foto do evento. O máximo que a sua equipe conseguiu fazer foi arregimentar uma pequena camarilha para elogiar o “Ensino Médio de São Paulo”, em vídeo gravado no centro de convenções (do lado de fora) e divulgado dois dias depois, quando o burburinho na imprensa já havia cessado.

“Autonomia” segundo a Seduc-SP

A não ser pela parcela da audiência que beija a mão de todo e qualquer governo de plantão, a avaliação dos diretores é que nem para comício eleitoral o evento serviu, já que nada se disse sobre a carreira, os salários e as condições de trabalho dos educadores. Foi mais um evento de coaching empresarial, que, como tantos outros já realizados pela Seduc-SP, poderia ser feito a distância e sem dispêndio de tanto dinheiro público.

Os participantes receberam uma ajuda de custo para pagar a diária do hotel e o transporte até Serra Negra. Também receberam vouchers de alimentação de pouco mais de 30 reais, que davam direito a escolher um entre dois pratos em restaurantes naquela cidade. Para usufruir dos vouchers, diretores hospedados em Águas de Lindoia precisavam viajar 20 km até os restaurantes em Serra Negra.

Alojadas em quartos de hotel duplos ou triplos, as pessoas desembolsaram cerca de 200 reais cada nos hotéis de Serra Negra e Águas de Lindoia, preço equivalente às reservas feitas online. A julgar pela baixa execução orçamentária da Seduc-SP com políticas emergenciais e reformas de prédios escolares, deve estar sobrando recursos para tamanha dissipação no Circuito das Águas paulista. Supondo que cada participante tenha recebido, digamos, 360 reais e mais três vouchers de R$ 31,50 para alimentação – o que parece ser uma boa estimativa, com base no que diversos diretores receberam –, o evento teria custado aos cofres públicos, somente com essas despesas 1,8 milhões.

Somando-se a isso o transporte fretado, a contratação de equipes e o aluguel de espaços e equipamentos, o evento de formação de lideranças empresariais do sr. Rossieli Soares da Silva, além de ter colocado milhares de diretores escolares em risco sanitário, custou ao contribuinte paulista montante superior a R$ 2 milhões. Seriam estas demonstrações da eficiência e da gestão profissional do governo paulista?

Ao mesmo tempo, a Seduc-SP segue inoperante no tocante às reformas dos prédios escolares. O governo se defende alegando que as escolas estão recebendo recursos descentralizados do PDDE Paulista, que aumenta a autonomia financeira das unidades escolares. Essa é mais uma forma de, a pretexto de louvar os valores da desburocratização, da agilidade e da autonomia para a compra de insumos e a contratação de pequenos serviços, desresponsabilizar o Estado pela licitação das obras de que as escolas também carecem. A tática é sempre a mesma: atropelar as comunidades escolares, colher os louros naquilo que interessa politicamente e transferir a culpa quando a repercussão midiática é ruim. Na dúvida, basta dizer que tudo o que está certo decorre de decisões centralizadas acertadas e tudo o que está errado decorre do excesso de autonomia de escolas e diretores escolares. Burros são os outros.

Ao vivo, Rossieli Soares defende o cumprimento de protocolos sanitários e é desmentido pelas imagens da aglomeração de diretores escolares promovida pela Seduc-SP. Minutos antes, no centro do palco, o secretário da educação discursava sem máscara para uma audiência superior a 4 mil pessoas.

 

Oportunidade perdida

A cena picaresca do secretário da Educação falando sobre protocolos sanitários enquanto as imagens o desmentiam ao vivo serve de aviso a quem, por medo, por sabujice ou, simplesmente, por ter se acostumado a obedecer, anula-se como educador e cumpre as ordens ilegais ou imprudentes da Seduc-SP. As causas dessa situação, como escrevi tempos atrás com Ana Corti, “não estão na conduta individual de diretores, tampouco numa suposta subserviência generalizada desses profissionais”.

A organização e a gestão praticadas pela Seduc-SP produziu, ao longo dos anos, um processo de centralização que retirou paulatinamente das unidades escolares as suas prerrogativas de planejamento administrativo e pedagógico, de realização de matrículas, de gestão orçamentária e de avaliação. Impedidos de exercitar o seu papel intelectual, “diretores e professores passaram a ser tratados como aqueles a quem cabe executar aquilo que a Seduc-SP planeja e manda”. Isso é agravado pelo fato de 36% dos diretores escolares do estado de São Paulo não serem concursados (em 2018, eram 1.824 profissionais), mas professores designados que dançam conforme a música para se conservarem no cargo de diretor – com salários iniciais em média 35% superiores que os salários iniciais dos professores (excluindo-se os adicionais).

Independentemente da posição política de cada um em relação ao governo paulista e seus “gestores”, os educadores que viajaram a Serra Negra foram todos desrespeitados: pela falta de segurança sanitária, pela precariedade das instalações, pelo medo da aglomeração, pelo baixo nível do conteúdo das apresentações, pelo tempo de trabalho perdido. Questionados pela imprensa por sua irresponsabilidade e hipocrisia, secretário e porta-vozes da Seduc-SP mentiram covardemente e culparam os próprios diretores pela aglomeração.

Diretores e diretoras escolares da rede estadual de São Paulo são muito mais numerosos do que os tecnocratas encastelados nos gabinetes da Seduc-SP e os puxa-sacos dependurados nas diretorias regionais de ensino. Se 15 minutos de cobertura televisiva negativa, meia dúzia de críticas na imprensa escrita e um pouco de frege nas redes sociais já fizeram perder as estribeiras, imaginem o que aconteceria se a maior parte dos diretores abandonasse o centro de convenções durante a palestra motivacional do secretário ou, simplesmente, ignorasse as ameaças dos dirigentes regionais e se recusasse a participar da patuscada em Serra Negra.

Infelizmente, perdeu-se a oportunidade de dizer em alto e bom som a João Doria que arriscar a saúde de 4 mil servidores públicos e de suas comunidades escolares é vileza que ameaça suas pretensões eleitorais. Num governo que reivindica responsabilidade sanitária para fazer palanque de oposição a Bolsonaro, a aglomeração financiada com recursos estaduais seria motivo de demissão sumária do secretário da educação. Não será o caso do governo Bolsodoria, que já prometeu um segundo comício – desta vez com diretores de escolas de ensino fundamental.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

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