O governo paulista convoca aglomeração de professores na ‘Cidade da Saúde’

O secretário da Educação acena à extrema-direita e obriga 4 mil profissionais da educação a frequentarem seu palanque eleitoral

Créditos: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Créditos: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Educação,Opinião

“É com muita alegria”, começou, já estranhamente, o e-mail da Diretoria de Ensino de Mogi das Cruzes que anunciava a mais nova empreitada da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo: um evento sobre as ações do Novo Ensino Médio (NEM) com a presença obrigatória de “diretores e diretoras de todas as escolas de ensino médio” da rede estadual. “Todas as escolas de ensino médio” significa, em números atualizados do Censo Escolar 2020 (Inep), 3.866 unidades escolares.

Entre os dias 30 de setembro e 1º de outubro,

 

Custeados pelo governo paulista, milhares gestores, dirigentes de ensino, diretores dos núcleos – mais de quatro mil pessoas –, se reúnem hoje em um centro de convenções na bucólica cidade de Serra Negra/SP. Segundo a prefeitura, o “agradável clima de montanha, aliado às fontes de águas minerais com poderes terapêuticos e sua rica beleza natural”, deram a Serra Negra a alcunha de “Cidade da Saúde”.

A fim de proteger a saúde dos participantes, o governo restringiu o comparecimento de servidores que não tenham tomado pelo menos uma dose da vacina contra a Covid-19. As diretorias de ensino ficam responsáveis por “garantir que apenas os servidores que cumpram este critério embarquem para o evento”. Os servidores que desejarem ter o transporte financiado pela Seduc-SP “deverão priorizar linhas de ônibus diretas para a rodoviária de Serra Negra”, advertem os organizadores. Dentro da cidade, o transporte entre os hotéis e o centro de convenções será realizado por ônibus fretados.

Os rigorosíssimos padrões de segurança sanitária da Seduc-SP serão garantidos, ademais, pelos “demais protocolos a serem adotados”, também elencados no convite:

  • Não comparecer ao evento caso apresente algum dos sintomas a seguir: febre (mesmo que referida), calafrios, dor de garganta, dor de cabeça, tosse, coriza, diarreia, distúrbios olfativos ou distúrbios gustativos;
  • Não comparecer ao evento se residir ou tiver tido contato próximo com alguém sob suspeita ou confirmado para Covid-19;
  • Leve sua garrafa de água de uso individual;
  • Uso correto e constante de máscara;
  • Higienizar as mãos com álcool em gel 70%;
  • Haverá aferição de temperatura antes da entrada na unidade;
  • Não promover aglomerações, sob hipótese alguma.

No dia 2 de outubro, os milhares de profissionais da educação que durante os dois dias anteriores não aglomeraram e seguiram todos os protocolos sanitários da Seduc-SP, voltarão a seus postos de trabalho em escolas por todo o estado. Nestas, também seguirão todos os rigorosíssimos protocolos sanitários e não se aglomerarão com coordenadores, professores, funcionários e estudantes em salas mal ventiladas. Profissionais da educação e estudantes, por sua vez, também seguirão minuciosamente todos os protocolos sanitários com relação aos seus pares e às suas famílias.

Na visão do governo de São Paulo, basta seguir os protocolos listados no e-mail da Seduc-SP que nada poderá dar errado.

 

#Rossieli

Em entrevista publicada em julho pela revista Oeste, uma publicação alinhada a ideias de extrema-direita, o secretário de Educação paulista Rossieli Soares atribuiu a baixa adesão às atividades escolares presenciais à grande quantidade de fake news produzidas por “especialistas” (as aspas são dele) e disseminadas por parte da imprensa.

O secretário insistiu na afirmação de que os indicadores de transmissão em municípios que não reabriram escolas são “iguais ou maiores” dos que retomaram as aulas. Para não dizer que isso é rigorosamente falso, digo apenas que os dados oficiais do governo paulista não permitem chegar a essa conclusão.

Ainda mais descabida, por impossível de demonstrar, é a sua afirmação que “os casos de contaminação envolvendo professores, alunos e funcionários não aconteceram dentro da escola, mas em casa, restaurantes, festas de família”.

A exemplo de Jair Bolsonaro, negacionista-mor da nação, Rossieli Soares chama de espalhadores de fake news os críticos que apontam os disparates e cobram fundamento científico nas decisões do governo que ele representa.

Ex-ministro da Educação de Michel Temer, o atual secretário de João Doria tem plena noção de que “evidência”, nas políticas públicas baseadas em evidências, não pode ser mera declaração de boas intenções, e mesmo assim faz o uso mais rasteiro possível do discurso evidenciário: evidência boa é aquela que interessa aos seus projetos eleitorais pessoais. A controvérsia e o dissenso, na sua visão autoritária, bem que poderiam ser obliteradas do debate público.

Operador da poderosa máquina de propaganda do governo de São Paulo, Rossieli tenta, mas – tal como Bolsonaro – não consegue fazer as críticas desaparecerem e nem convencer a população de que as escolas estaduais paulistas sejam ambientes seguros para a saúde de estudantes semivacinados.

Quem ocupa tamanho espaço midiático – a ponto de despachar quase que diariamente nos telejornais da TV Globo – deveria ter vergonha de depositar a culpa de sua própria incompetência nas escassas intervenções críticas de pesquisadores e jornalistas. Ou de transferir a responsabilidade para os prefeitos, que, engajados nas eleições municipais em 2020, teriam – de acordo com Rossieli – , politizado o tema e impedido o retorno presencial às escolas. O secretário da educação condena nos outros aquilo que ele mesmo pratica, uma vez que está em plena campanha para as eleições do ano que vem (o que ele nega, obviamente).

Já não é de hoje que Rossieli Soares usa seus perfis pessoais para a divulgação de atividades institucionais da Seduc-SP, acompanhando as postagens com a hashtag “#rossieli”, que desde o ano passado substitui “#educação”. Ao longo de 2020, fotografias de crianças e adolescentes felizes nas escolas tornaram-se corriqueiras nas redes sociais pessoais do secretário. De uns tempos para cá, além disso, Rossieli vem aumentando a frequência de publicação de vídeos curtos ao estilo TikTok, em que adianta novidades da pasta que comanda, elogia educadores e estudantes das escolas que visita e mostra um pouco de sua vida doméstica como pai do Arthur, esposo da Meg, tocador de violão e pai de dois pets – o golden retriever Harley e a sorridente american bully Yuki. No Instagram, o secretário da educação que mantém um funesto souvenir exposto em seu gabinete – uma porta crivada de balas, recordação do brutal massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil (Suzano/SP, março de 2019) – é um sujeito simpático, divertido e cheio de boletos a pagar.

 

 

“Um bando de tiozões entra num bar…”

Poucos dias depois da entrevista à revista Oeste, Rossieli Soares participou (no dia 20 de julho) do programa de rádio Turma do Ratinho. Foi recebido pelo apresentador que dá nome ao programa (e também é dono da Massa FM, que transmite a atração para diversos estados do país).

A estrutura do programa é simples: fala-se boçalidades, aplaude-se Jair Bolsonaro e faz-se da tragédia humana motivo de galhofa. As boas novas das safras agrícolas e dos projetos do governo federal são intercaladas com notícias como a do homem que, de posse de uma imagem encontrada na internet, rifou entre os amigos um encontro sexual com a mulher da fotografia e acabou preso. Todos riem. Alguns dos ‘tiozões’ da roda são, na verdade, jovens. A única mulher do grupo deixa o estúdio antes da chegada do convidado, que ocupa o lugar dela junto aos outros seis homens sem máscaras. Quando chega, Rossieli usa máscara, mas logo a retira para se integrar à “turma” do Ratinho no pequeno estúdio.

O anfitrião inicia uma fala tortuosa sobre a importância da educação e da ciência no país. Rossieli entra na conversa para dizer que é necessário “incentivar as crianças a serem mais cientistas, a gostarem mais de matemática”. Ratinho prossegue com uma análise um tanto singular sobre o sistema universitário brasileiro:

Ratinho: Os nórdicos são mais práticos. (…) Aqui nós temos filosofia, aqui nós temos poesia. Nós somos poéticos. A universidade, ao invés de nós preferirmos na época, quando começou a universidade [no Brasil], ao invés de nós preferirmos a universidade inglesa, nós preferimos a universidade francesa. Então teve um período do Brasil que francês era tudo. E o francês, ele é poético, ele gosta de poesia, ele é latino. (ênfases do apresentador)

[voz de fundo]: Ele é esquerdista também.

Ratinho: Ele é mais esquerdista também. Enfim, nós teríamos que ser mais exatos.

O secretário se empolga com o ataque às ciências humanas iniciado por Ratinho. Diz que é por isso que a criança precisa aprender a gostar de matemática desde cedo: “é igual dar uma bola para a criança. Por que tem tanto atleta bom de futebol no país? Porque tem campo de futebol em qualquer buraco. Vai em qualquer buraco e você vai ver um campo de futebol”. Por “buraco”, Rossieli Soares provavelmente se refere às periferias, subúrbios e favelas onde vive parte considerável dos estudantes da rede de ensino administrada por ele. São essas crianças e adolescentes que, punidas por serem pobres, tiveram a matrícula cancelada pela Seduc-SP durante a pandemia.

Tentando avançar na crítica às esquerdas, um dos apresentadores pergunta ao secretário sobre as resistências encontradas para a retomada das atividades escolares presenciais em São Paulo: “Encontrei resistência… sindicato, todo mundo contra… a esquerda de forma geral muito contra a volta às aulas”. O “especialista” Ratinho intervém mais uma vez:

Ratinho: Desculpa eu falar, é só a minha opinião – ela não pode ser levada a sério por todo mundo, mas só por aqueles que pensam igual eu. Eu acho o seguinte: a esquerda nunca gostou de trabalhar mesmo, eles não querem voltar pra aula. Nunca gostaram de trabalhar. Povo da esquerda: vocês não gostam de trabalhar! Gostam de receber o salário no final do mês, o que é bem diferente de trabalhar.

O secretário registra que a maior parte dos professores da rede não é de esquerda e voltou às atividades escolares presenciais – donde se infere que ele concorda com o diagnóstico do apresentador de que as pessoas da esquerda não gostam de trabalhar. Ratinho arremata: “é uma minoria que faz o barulho”. Juntos, os dois passam a debochar dos sindicatos de professores, antes de um dos membros da confraria fazer uma referência jocosa a uma frase falsamente atribuída a Dilma Rousseff, que sugeria como solução para a retomada das aulas um rodízio nas escolas: professores num dia e estudantes no outro. A fake news em forma de piada provoca risos em Rossieli.

Uma pergunta do público estimula o secretário a falar sobre o ensino de educação financeira e empreendedorismo nas escolas – defesa compartilhada por todos na bancada. Agora é Rossieli quem alfineta “o povo mais à esquerda” que não gosta de falar de empreendedorismo na escola, para em seguida explicar que um professor com uma prática diferenciada em sala de aula também pode ser considerado um empreendedor. “Não tem necessariamente a ver com ganhar dinheiro”, acrescenta Ratinho. O secretário exalta o ensino escolar de habilidades como autocontrole, autogestão e resiliência, “porque senão o moleque desiste de primeira”; e de criatividade, “porque se você não tiver criatividade na vida, você tá lascado”. Estudante, para ele, é sempre no masculino e é sempre “moleque”.

A pergunta sobre a linguagem de gênero neutro é feita pelo tiozão-humorista Marcos Palácio, que interpreta “Pegador”, o personagem gay que é alvo de chacotas homofóbicas da turma do Ratinho. O secretário que, em 2019, recolheu materiais didáticos de ciências de estudantes do ensino fundamental para censurar debates de gênero, dessa vez consegue sair pela tangente. Responde que as mudanças na língua são fenômenos de longo prazo e que, por ora, a Seduc-SP está empenhada em ensinar a língua portuguesa padrão. Afinal, “o moleque sai da escola sem saber fazer um ofício dentro da norma culta”.

Isso estimula a bancada a lançar uma sequência de impropérios contra a educação pública. Para Ratinho, o exemplo prático de que a escola pública brasileira seria, hoje, uma fábrica de ignorantes é o quadro televisivo “Bexigão do Ratinho”, no qual as participantes respondem perguntas sobre conhecimentos gerais enquanto uma bexiga vai sendo enchida (até estourar) sobre as suas cabeças. Ratinho mostra-se chocado pelo fato de as mulheres que frequentam o seu auditório não saberem qual é a capital do Amazonas e o coletivo de abelha, ou por confundirem Michel Temer com Michel Teló. Mas o funk tocado no intervalo do programa, ressalta um dos tiozões, “elas sabem de cor e salteado”! Com um misto de elitismo e machismo, a turma do Ratinho zomba das mulheres pobres que são, contraditoriamente, parte significativa do público que sustenta o império de comunicação de Carlos Massa.

O esposo da Meg continua sorrindo, e aproveita para agradar os reacionários da bancada e da audiência antes do final da entrevista. Diz que é preciso desmistificar o tema “meio politizado” das escolas cívico-militares. Ele e Ratinho, que é pai do governador do Paraná (outro entusiasta da militarização escolar) trocam os últimos afagos.

 

Sem limites

A desenvoltura do secretário da educação de São Paulo no bate-papo com a turma do Ratinho não é fruto de uma formidável habilidade como político, capaz de se amoldar e corresponder às expectativas do público a que se dirige. É fruto de crença mesmo. À revista Oeste, Rossieli Soares foi peremptório, quando perguntado sobre a sua relação com o sindicato dos professores: “simplesmente não existe”.

Sobre o retorno às atividades escolares presenciais, o secretário que fez uso político da depressão do filho adolescente para defender a retomada foi cristalino: “eles [o sindicato] são radicalmente contra e não aceitam negociar. Eu sou radicalmente a favor. E não aceito negociar. Enquanto nenhum dos lados ceder, e eu não vou ceder, não há o que negociar”. Aqui, Rossieli fala em nome da Seduc-SP em primeira pessoa. Poderia ter usado a hashtag.

Hoje, o membro mais ativo e espalhafatoso do governo Bolsodoria é ele, capaz de bancar a organização de um evento presencial para mais de 4 mil profissionais da educação sem medo das repercussões negativas. A falta de limites é facilitada pela falta de controles institucionais externos. Legislativo, Judiciário, Ministério Público, imprensa, sociedade civil – raras são as vezes em que os desmandos autoritários da Seduc-SP são frontalmente questionados e (ainda mais raramente) isso gera alguma consequência para seu titular.

Enquanto isso, diretoras que se recusam a aglomerar em Serra Negra são avisadas pelos dirigentes que a presença no evento é obrigatória. Quem não comparecer terá os dias de trabalho descontados. Não é convite, é convocação – diz em letras capitais a Portaria do Chefe de Gabinete da Seduc-SP (24 set. 2021) sobre o referido evento.

Uma diretora da zona leste de São Paulo vociferou contra a irresponsabilidade do evento no grupo de WhatsApp da diretoria de ensino, do qual fazem parte algumas dezenas de diretores, o dirigente regional e a sua assessoria. Temendo que o protesto estimulasse outros diretores a manifestar seu descontentamento, o dirigente silenciou o grupo. Ele sabe, afinal, que se os diretores das escolas sob a sua jurisdição boicotarem o evento da Seduc-SP é ele quem estará com a posição ameaçada. O secretário que ri da própria calvície e se diverte com o Harley e a Yuki não brinca em serviço quando o assunto é o cumprimento de suas ordens e a consecução de seus projetos políticos pessoais.

Ironicamente, a Seduc-SP realiza seus eventos no mesmo centro de convenções e na mesma Serra Negra onde a Apeoesp (o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) costuma realizar seus igualmente enormes congressos estaduais. Este ano não houve congresso da Apeoesp, mas todos os congressos sindicais de profissionais da educação realizados no país desde março de 2020 têm sido feitos em formato online, o que sem dúvida prejudica o trabalho de articulação política dessas organizações. Já o personalíssimo gestor da Seduc-SP, que debocha dos sindicatos com os seus amigos da turma do Ratinho, não abre mão de um bom palanque eleitoral com audiência cativa – e em plena pandemia – na “Cidade da Saúde”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

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