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Reunião com Trump, Desenrola 2.0 e investigação sobre Ciro Nogueira dão fôlego ao governo
Mesmo após derrotas duras no Congresso, o Planalto encontrou brechas para reagir, impor agenda e colocar a extrema-direita na defensiva
Após a semana do fim do mundo, quando o Senado Federal rejeitou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal e o Congresso derrubou os vetos presidenciais ao PL da Dosimetria, o governo Lula contra-atacou em 3 frentes, mostrando que conserva força para ditar a agenda política e vencer as eleições.
A primeira frente foi a reunião presencial entre Lula e Donald Trump. A conversa durou mais de 3 horas e foi considerada uma vitória pela diplomacia brasileira. O presidente estadunidense tratou Lula com deferência e não preparou nenhuma armadilha para o brasileiro. Lula conquistou uma mesa de negociações sobre o tarifaço, que adia a adoção de novas tarifas por parte dos EUA e, com isso, protege os interesses da economia nacional.
Mais importante: temas sensíveis, como a classificação de organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas e a pressão sobre o Pix, ficaram fora da pauta. Caso Trump tivesse levado esses assuntos à mesa, a reunião poderia ter descambado para um impasse — e a narrativa bolsonarista sobre o suposto isolamento do Brasil diante dos Estados Unidos teria ganhado tração. O que ocorreu foi o contrário. Quem saiu isolada foi a extrema-direita.
Pesquisas com grupos focais realizadas pelo Observatório Político e Eleitoral nos dias seguintes ao encontro indicam que a postura de Lula como negociador foi percebida positivamente.
A segunda frente foi o lançamento do programa Desenrola 2.0, para renegociar as dívidas de parte da população. Pelo programa, as pessoas serão integralmente perdoadas das dívidas de até 100 reais e poderão negociar até 90% do total das pendências de maior valor. Ainda que o site para acessar o Novo Desenrola tenha apresentado problemas na primeira semana, nossas pesquisas focais indicam uma enorme aceitação da medida, com potencial de melhorar o humor do eleitorado.
Finalmente, a terceira frente foi a ação da Polícia Federal contra o senador e presidente do Progressistas, Ciro Nogueira, no âmbito das investigações sobre as fraudes do Banco Master. O parlamentar é um dos expoentes da extrema-direita, foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e foi reconhecido por Flávio Bolsonaro como um possível vice-presidente em sua chapa.
A PF investiga o pagamento de uma “mesada” por Daniel Vorcaro – banqueiro dono do Master e atualmente preso – a Ciro Nogueira, para que este representasse os interesses do banco no Congresso. O senador foi o autor de uma emenda que aumentava de 250 mil reais para 1 milhão de reais o valor de investimentos garantidos pelo Fundo Garantidor de Crédito, o que beneficiaria as operações fraudulentas de Vorcaro. Além disso, há a suspeita de que Ciro teria comprado um imóvel milionário com a ajuda do banqueiro.
A operação caiu como uma bomba nas articulações da extrema-direita, confirmando que este é o campo político com maior potencial de ser atingido pelo avanço das investigações sobre o Banco Master.
Parte do entorno de Flávio Bolsonaro avalia que a melhor estratégia para blindar o candidato é renunciar a uma aliança formal entre o PL, partido do filho de Bolsonaro, e a federação União Brasil e Progressistas. Há o temor de que também o presidente da UB, Antonio Rueda, seja alvo de operações da PF. Sem essa aliança, o filho de Bolsonaro perderá uma boa fatia do tempo de TV e rádio, além de facilitar a vida das dissidências destes partidos que preferem apoiar Lula em alguns estados.
As disputas internas da extrema-direita, aliás, mostram que o caminho até outubro está longe de ser favorável para Flávio Bolsonaro, apesar de sua consolidação nas pesquisas. A disputa pelo Senado em São Paulo entre Ricardo Salles e Eduardo Bolsonaro (este, como suplente) vem criando problemas para o bolsonarismo e abrindo a possibilidade de que a chapa lulista conquiste uma das vagas. Outro exemplo é o não engajamento de Michelle Bolsonaro na campanha do enteado.
O desafio do governo Lula nas próximas semanas será manter essa ofensiva de agenda política. Isso poderá ser alcançado por pelo menos dois caminhos: um é o anúncio de medidas de segurança pública. O combate à violência é um tema sensível para a população e no qual a esquerda apresenta dificuldades. Lula vem prometendo um pacote de investimentos de um bilhão de reais na área para ser anunciado nesta semana.
O outro caminho é pela agenda do fim da escala 6×1. A Câmara dos Deputados acelerou a tramitação e promete votar a PEC ainda em maio. O governo lançou uma peça publicitária defendendo a medida com enorme aceitação. Nas pesquisas do OPEL com grupos focais, as pessoas entrevistadas têm mencionado essa pauta de modo espontâneo, sem qualquer pergunta sobre o tema, o que indica alta capilaridade e organicidade do apoio popular à adoção de uma escala 5 x 2.
Flávio Bolsonaro segue sem se pronunciar sobre o tema, mas não terá como fugir quando a votação chegar ao plenário. Seu partido vem se posicionando contra, buscando ser coerente com uma agenda econômica ultraliberal da extrema-direita, mas parte da bancada votará a favor por pragmatismo eleitoral.
Outros temas podem cumprir o mesmo papel, tais como o PL que equipara racismo e misoginia e a agenda da Tarifa Zero. O mais importante, em todos esses casos e outros que possam surgir, é a mobilização das forças democráticas. Só assim será possível derrotar o bolsonarismo.
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