Racializando o Setembro Amarelo: saúde mental em tempos de Bolsonaro

Não dá para discutir prevenção ao suicídio sem passar por uma crítica urgente ao governo que tem promovido ataques às nossas vidas

Racializando o Setembro Amarelo: saúde mental em tempos de Bolsonaro

Frente Ampla,Opinião

Estamos começando mais um “Setembro Amarelo”, um mês para nos debruçarmos de maneira profunda sobre temáticas fundamentais como saúde mental e a prevenção ao suicídio. É uma oportunidade para estabelecermos pontes e construirmos agendas coletivas para enfrentar questões que muitas vezes são silenciadas e invisibilizadas, mas que precisam ser discutidas às claras.

 

 

O mundo tem enfrentado cenários muito difíceis de crise, mas o Brasil, infelizmente, tem estado na vanguarda da catástrofe. Se o planeta todo enfrenta até hoje a pandemia da Covid-19, que impôs mudanças radicais nas nossas vidas e vitimou mais de 4,5 milhões de pessoas, nosso país tem sofrido nas mãos de uma péssima gestão, que nega a ciência, aposta em charlatanismos e deixa a população a própria sorte.

Os impactos da Covid-19 agravaram ainda mais um cenário de crise econômica e social que vínhamos enfrentando: o desemprego bateu índices recordes, ultrapassando a marca de 14,5 milhões de pessoas sem trabalho, o Brasil retornou ao Mapa da Fome e os preços nos mercados estão impraticáveis.

Mas por que falar disso tudo? Ora, quando falamos em saúde mental precisamos pensar nas condições materiais em que a população brasileira vive. Não adianta sugerir soluções que não tenham em vista os problemas reais do povo. Como manter uma saúde mental em dia sem comida na mesa? Sem emprego? Não dá para dissociar as coisas.

Ao mesmo tempo, temos que ter sempre em mente que além de classe social, o problema tem cor! Dados do Ministério da Saúde para o ano de 2019 apontam que a juventude negra, entre 10 e 29 anos, é o grupo que mais tem cometido suicídios no Brasil. A cada dez jovens nessa faixa etária que tiram a própria vida, seis são negros. Isso é grave e trágico!

O racismo estrutural é um gerador histórico de desigualdades e nessa discussão sobre saúde mental não seria diferente: os jovens negros são os que mais experimentam os processos de marginalização e criminalização na própria pele, e isso impacta diretamente o psicológico dos nossos meninos e meninas. E isso parte do próprio governo! Não faz muito tempo que o Presidente da Fundação Palmares disse que é “ridículo” negros terem orgulho do próprio cabelo, deslegitimando o difícil processo de aceitação e empoderamento que atravessamos para nos curar do veneno do auto-ódio.

São inúmeras as histórias de jovens negros e negras que apesar da qualificação não conseguiram um emprego por causa da aparência. Também são inúmeras as histórias de pessoas negras perseguidas dentro de estabelecimentos porque são taxadas de “criminosos em potencial”. E quantos de nós, negros, não foram rejeitados afetivamente por sermos quem somos? Isso tudo tem impactos profundos na nossa saúde mental!

Por isso, faço um convite para que nesse Setembro Amarelo nós possamos racializar o debate. Precisamos construir propostas e políticas que deem conta das realidades dos trabalhadores e trabalhadoras do nosso país, mas também pensando especificamente o povo negro e a nossa juventude.

Não dá para discutir saúde mental e prevenção ao suicídio sem passar por uma crítica urgente ao governo Bolsonaro, que tem promovido ataques diários às nossas vidas. Não dá para não discutir o fato de que esse desgoverno tem sucateado o Sistema Único de Saúde (SUS) e a Política Nacional de Saúde Mental!

Estamos adoecendo tanto fisicamente quanto mentalmente e, para além de quaisquer questões individuais, esses problemas têm raízes também na nossa realidade concreta e nos retrocessos empreendidos por Bolsonaro e seus aliados. Tudo isso tem que estar na ordem do dia das nossas discussões, porque são essas as questões centrais que precisamos encarar para enfrentar o problema de frente.

A nossa luta hoje é contra os desmontes, os retrocessos e o caos promovido com Bolsonaro, que afetam a toda população, mas em especial aos trabalhadores, o povo negro e as minorias sociais que ele ataca diretamente todos os dias. Se vamos discutir saúde mental de maneira séria e responsável, sintonizada com o que ocorre no país, o grito de ordem principal tem que ser o FORA BOLSONARO!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Vereadora de Niterói, no Rio de Janeiro, e foi a primeira mulher negra eleita para a Câmara da cidade

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