Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

Questão de vida ou morte

Sei que, enquanto escrevo este artigo, há mulheres morrendo em abortos clandestinos. Mas podemos puxar esse debate após as eleições?

Ato a favor da descriminalização do aborto em Santiago, em janeiro de 2022. Foto: Claudio Reyes/AFP
Ato a favor da descriminalização do aborto em Santiago, em janeiro de 2022. Foto: Claudio Reyes/AFP
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Sou suspeita, feminista nas entranhas, e não há dúvida para mim: nosso corpo, nossa escolha. É uma questão de saúde pública. O aborto clandestino traduz-se em mulher pobre morta. Os direitos sexuais e reprodutivos também são direitos humanos. Sem mais.

O tema precisa ser refletido e falado em voz alta. Sou pesquisadora de opinião pública e há anos entrevisto bolsonaristas radicais e cidadãos que votaram em Bolsonaro por raiva, ressentimento ou frustração, mas hoje estão desiludidos. Com o primeiro tipo, o fascista, aquele que goza com o meu aniquilamento, aquele cujo tesão se mobiliza com a destruição do outro, com o racismo, com a misoginia, com a LGTBfobia, definitivamente não dá para conversar. Mas o outro eleitor, aquele brasileiro que já votou no PT, depois entrou no tsunami lavajatista, sentiu-se traído pelo petismo, decidiu votar no monstro porque pensava que ele representava a possibilidade de outro Brasil e agora considera desumano e incapaz de governar… Bem, este cogita votar em Lula de novo. Com o “BolsoLula”, como a gente o batizou, temos o dever de conversar, porque precisamos do voto dele. De cada um deles.

Esse personagem navega num conservadorismo eclético, às vezes mais progressista, às vezes mais moderado. A gente observa que, para muitos deles, a eleição deve tocar em assuntos concretos da segurança material, como o preço da gasolina, da carne, do botijão de gás. Mas, para outros tantos, esta eleição também será sobre a segurança existencial. Para muitos desses brasileiros, as pautas morais, como costumamos dizer com certo desprezo, são pautas de vida. Em um mundo complexo, acelerado e difícil de entender, em constante mudança, a segurança existencial não é um tema trivial. Muitos se sentem perdidos, deslocados, invisíveis, descartáveis.

Sentir-se pertencente ao mundo é básico para todos nós. Para quem se sente fora deste mundo, as pautas morais são, com frequência, as únicas raízes que têm para não perder o rumo. Dentro dessa âncora, a família está no centro, no coração. Mas tem mais do que isso. Bolsonaro escolheu a pauta sexual como uma de suas grandes forças motrizes eleitorais. Foi assim em 2018 e o será em 2022. Ele sabe que uma das suas grandes potências eleitorais se constrói na mobilização da moral tradicional e nada mais mobilizador do que a pauta conjunta da sexualidade, a infância e a família.

Esses temas estão turbinados nas redes bolsonaristas e, acreditem, entrarão com tudo na época eleitoral. Estou entrevistando evangélicos “BolsoLula” que votaram em Bolsonaro em 2018 por acreditar que ele seria representante da família, um homem de Deus, por medo do kit gay, mas que hoje sentem que o ex-capitão só se aproximou deles por uma jogada de marketing, por interesse puramente eleitoreiro. Eles vão de Lula pela memória, pelo legado, porque com ele viviam melhor, porque ele cuidava dos pobres, mas… E, como sempre digo, o diabo esconde-se atrás desses “mas”, muitos deles dizem nas entrevistas que estão de olho nas declarações de Lula sobre o tema da família. Estão inclinados a votar em Lula, mas não se trata de um voto convicto, decidido, é um voto “de olho”.

Muitos desses evangélicos vivem numa atmosfera religiosa e social daquelas que será protagonista de turbinar o debate moral bolsonarista. Nesse contexto, continuarão pensando em votar em Lula ou ficarão, de novo, seduzidos pela narrativa de um PT antifamília? Quero um Brasil onde toda mulher tenha direito de escolha, seja dona de seu corpo. Mas eu sei muito bem que, para esse Brasil existir, necessitamos ganhar esta eleição.

É uma questão de vida ou morte, mas 2022 tem de ser nosso. A eleição será decidida no boleto não pago, mas também na próxima mamadeira de piroca. Reflexão de quem pesquisa bolsonarismo há muito tempo: a pauta do aborto, dos direitos sexuais e reprodutivos pode nos fazer perder a eleição.

Sei que, enquanto escrevo este artigo, há mulheres morrendo em abortos clandestinos. Corremos o risco de elas morrerem ainda mais se Bolsonaro ganhar de novo. E, não, esta não é uma eleição ganha. Será voto a voto.

Vamos falar de aborto quando a gente ganhar a eleição? Sei, é um horror pedir isso, mas é que a gente luta contra um horror ainda maior.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1205 DE CARTACAPITAL, EM 27 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Questão de vida ou morte”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Esther Solano

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