Quantos de nós damos conta do desastre socioambiental que vivemos?

'Se entendermos onde está a verdade, toda a desordem se transformará em ordem, harmonia, fraternidade', escreve Milton Rondó

Foto: Sergio Lima / AFP

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Opinião

“Um soldado não é obrigado a obedecer uma ordem que vai contra a lei de Deus. Uma lei imoral ninguém deve respeita-la. É hora de retornar à vossa consciência e de obedecer à vossa consciência ao invés da ordem do pecado. Em nome de Deus, em nome desse povo sofrido, cujos lamentos sobem até o céu e são cada dia mais fortes, eu vos imploro, eu vos ordeno, em nome de Deus: parai com a repressão.”
São Oscar Romero.

O trecho acima é da homilia proferida por Dom Oscar Romero, canonizado pelo Papa Francisco, na véspera do assassinato dele, em 24 de abril de 1980.

Os sermões dominicais de Dom Oscar, então Arcebispo de São Salvador, eram repercutidos pela imprensa mundial e, por isso, muito aguardados, todos os domingos.

Aquela passagem, iluminada, é, provavelmente, uma das mais importantes páginas da história sobre o dever de resistir: o direito à desobediência civil e militar.

Para a maioria dos historiadores, a exortação de São Oscar, profética, fora o gatilho para o ódio assassino das oligarquias salvadorenhas, que não podiam suportar a justiça, a paz e a democracia, naquele martirizado pequeno país.

A semelhança entre os países latino-americanos – e não apenas – torna-a onisciente e onipresente, podendo servir para a atualidade brasileira, cuja ordem democrática foi gravemente maculada pelo golpe de estado de 2016, farsa que o Supremo Tribunal Federal reconheceu na semana passada, a qual engendrou a destruição do país e sua atuação internacional em benefício da justiça, da paz e da democracia.

Leonardo Boff, em Brasil, concluir a refundação ou prolongar a dependência, aduz: “Isso me remete a um bispo franciscano do século XIII da Inglaterra, que recusando os altos impostos cobrados pelo Papa, respondeu: “Non accepto, recuso et rebello” (Não aceito, me recuso e me rebelo). E o Papa retrocedeu. Não poderia ocorrer algo semelhante entre nós?”

A recusa do atual presidente da Câmara em dar seguimento aos mais de 100 pedidos de impedimento do genocida não deveria ser enfrentada dessa forma? Qual a alternativa?

Na mesma obra, citando Karl Marx, Boff recorda: “Para cada problema há sempre uma solução.”

Sempre em busca das raízes dos problemas, Boff, no livro em apreço, vai à gênese do Brasil: “Ocupada a terra, para cá foram trazidas matrizes (cana-de-açúcar e depois café) – tecnologias modernas para a época -, capitais e escravos africanos. Todos eram considerados ‘peças’ a serem compradas no mercado e como carvão a ser consumido nos engenhos de açúcar. Com razão afirma Luiz Gonzaga de Souza Lima: ‘o resultado foi o surgimento de uma formação social original e desconhecida pela humanidade até aquele momento, criada unicamente para servir à economia. No Brasil nasceu o que se pode chamar ‘formação social empresarial’ (A refundação do Brasil – Rumo a uma civilização biocentrada, 2011).”

Boff acrescenta: “Com a independência política do Brasil, não se conseguiu diluir o caráter dependente e associado que resulta da natureza empresarial de nossa conformação social. A tendência do capital mundial global ainda hoje é tentar transformar nosso eventual futuro em nosso conhecido passado. O propósito é nos recolonizar. Ao Brasil, cabe ser o grande fornecedor de commodities para o mercado mundial, sem ou com parca tecnologia e valor agregado…Pois é esse o projeto daqueles que deram o golpe parlamentar, jurídico e midiático de 2016, com uma agenda regressiva e antinacional, truncando um projeto de autonomia e soberania face às forças de dominação mundial. Eles aceitam esse papel subalterno e secundário do projeto-mundo, hegemonizado pelos Estados Unidos e seus aliados do Norte. O resultado desse tiro no pé foi expresso pelo ministro do STF, Luís Roberto Barroso: ‘Eis um cenário de devastação do Brasil.”

Mas como Boff também recorda naquela obra, ao citar Goethe: “Só vemos o que entendemos, e o que não entendemos deixamos de ver”.

A formação, portanto, deve ser o objetivo último das forças progressistas, para que todos possamos ver, julgar e agir.

Na Cúpula do Clima, na semana passada, o Brasil colheu mais vexames: o próprio anfitrião, o presidente dos EUA e a vice saíram da sala, poupando-se de ouvir as mentiras do genocida que, no dia seguinte, reduziu ainda mais os recursos para a proteção da Amazônia. Como já dissera Abraham Lincoln, não se pode enganar todos todo o tempo…

Quantos de nós, aqui no Brasil, nos damos conta do desastre socioambiental que já vivemos e que boa parte da humanidade atribui, com razão, ao genocida?

A propósito, a obra de Boff igualmente recorda: “Vários cientistas, especialmente o Prêmio Nobel de Química, Paul Creutzen, deram-se conta das mudanças profundas ocorridas na base físico-química da Terra, e cunharam a expressão antropoceno como uma nova era geológica, na qual o ser humano seria o agente da desestabilização planetária.”

Se entendermos onde está a verdade, toda a desordem se transformará em ordem, harmonia, fraternidade.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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