Amarílis Costa

Advogada, doutoranda em Direitos Humanos na Faculdade de Direito USP, mestra em Ciências Humanas, pesquisadora do GEPPIS-EACH-USP, diretora executiva da Rede Liberdade.

Opinião

Quando questionar se torna crime

O Smart Sampa não apenas vigia, mas também define quem deve ser monitorado. E, como mostram estudos, os alvos são sempre os mesmos

Quando questionar se torna crime
Quando questionar se torna crime
central de monitoramento do Smart Sampa com câmeras inteligentes em operação 24h. Foto: Divulgação / Prefeitura de São Paulo
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A expansão do Smart Sampa, sob a justificativa de reforçar a segurança pública, revela algo mais profundo e preocupante. Esse modelo de hipervigilância não apenas atropela direitos fundamentais, mas também aprofunda desigualdades estruturais e expõe determinados grupos a uma vigilância seletiva e desigual. A Prefeitura de São Paulo implementou a tecnologia de reconhecimento facial sem qualquer transparência ou debate público, e seguiu a lógica de uma segurança espetacularizada que não se sustenta em dados concretos. Como toda ferramenta de controle social, o Smart Sampa não apenas vigia, mas também define quem deve ser monitorado. E, como mostram estudos, os alvos são sempre os mesmos.

O perfilamento racial e a criminalização da pobreza são subprodutos conhecidos dessas tecnologias. Estudos demonstram que sistemas de reconhecimento facial apresentam índices alarmantes de erro quando aplicados a pessoas negras, mulheres e transgênero. Ainda assim, a Prefeitura defende sua implementação sem qualquer critério de transparência e controle. O resultado é previsível: falsos positivos, prisões indevidas e um reforço institucionalizado à segregação racial. Nos últimos anos, cidades que adotaram sistemas similares ao Smart Sampa demonstraram ineficiência na redução da criminalidade e um impacto desproporcional sobre grupos racializados. Em 2019, uma pesquisa conduzida pela Rede de Observatórios da Segurança apontou que, na Bahia, durante o Carnaval, o reconhecimento facial gerou 903 alertas e resultou na prisão de apenas 15 pessoas. Dos presos, 90,5% eram negros, ponto que evidencia o viés racial da tecnologia.

A Defensoria Pública de São Paulo alertou para esses riscos e recomendou que a tecnologia não fosse utilizada no Carnaval.  A resposta veio em forma de retaliação: pedidos de afastamento contra as defensoras que assinaram o ofício, articulados por uma deputada estadual alinhada ao governo municipal. Trata-se de uma tentativa deliberada de silenciar quem ousa questionar a implementação de políticas de segurança que, no fundo, aprofundam desigualdades estruturais e restringem liberdades individuais.

A nota de apoio assinada por diversas organizações de direitos humanos, como a Rede Liberdade, reforça a gravidade da situação e a necessidade de resguardar a autonomia da Defensoria Pública. A Organização das Nações Unidas (ONU) já alertou que governos devem se abster de criminalizar defensores de direitos humanos. No entanto, o governo municipal e setores do legislativo paulistano preferem desviar o debate e atacar quem denuncia as violações.

É preciso superar a visão rasa que confunde vigilância com proteção. O Smart Sampa não combate a violência urbana nem promove segurança real. Em vez disso, institucionaliza a seletividade penal e reforça práticas historicamente violentas contra as periferias.

O que está em jogo não é apenas o direito à privacidade, mas a própria estrutura democrática. Permitiremos que a tecnologia seja usada para reforçar um Estado policialesco ou exigiremos transparência e respeito aos direitos fundamentais? O direito à liberdade não é negociável – e retroceder não é opção.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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