Aldo Fornazieri

Doutor em Ciência Política pela USP. Foi Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), onde é professor. Autor de 'Liderança e Poder'

Opinião

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Protagonista improvável

Na largada da campanha, o TSE e seus ministros assumem o protagonismo diante das arruaças de Bolsonaro. O desafio da oposição é trazer o debate para os reais problemas enfrentados pelo povo

Foto: TSE
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A campanha eleitoral começou sem que candidato algum assumisse o protagonismo. Este papel coube ao Tribunal Superior Eleitoral e seus ministros, um que assumiu sua presidência e outro que a deixou. O TSE tornou-se baluarte da defesa da democracia e de seu principal meio constitutivo: as eleições. Alexandre de Moraes e Edson Fachin proferiram altivos pronunciamentos e adotaram medidas duras para salvaguardar o processo eleitoral. O TSE foi também o foco das cartas-manifestos e dos atos de 11 de agosto em defesa da democracia e do ­Estado de Direito.

Mesmo sendo um tribunal eleitoral, o TSE teve de ocupar um espaço político inusitado, assim como a concorrida posse de seu novo presidente. As constantes investidas de Bolsonaro e dos seus seguidores contra a Justiça Eleitoral, os ministros e as urnas eletrônicas e a ameaça de golpe impuseram esse caráter excepcional na atuação da Corte. A ­continuidade do protagonismo político do TSE dependerá da continuidade ou não da ação de Bolsonaro no processo de degradação e de ameaças à democracia.

A necessidade do Brasil, no entanto, é a de que o debate sobre seu futuro, por parte dos candidatos, se coloque no primeiro plano. O eleitorado precisa saber quais são os programas e as propostas dos candidatos, para onde eles pretendem conduzir o País. Bolsonaro vem dominando o debate público com suas arruaças. É preciso sair dessa armadilha e colocar no centro das discussões os problemas da sociedade e os rumos do Brasil.

A campanha começou com um claro quadro de polarização entre Lula e Bolsonaro. Mas somente daqui a 20 ou 25 dias se verão as reais tendências. As intenções de voto, até agora estagnadas, começarão a se movimentar. A campanha de Lula lutará para manter a vantagem e para tentar vencer no primeiro turno. A campanha de Bolsonaro lutará para prolongar a disputa. O mais provável é que haja segundo turno.

Ciro Gomes, Simone Tebet e os demais candidatos lutarão para crescer. Os dois primeiros terão mais chances. Mas tudo dependerá de suas capacidades, de suas propostas, de seus ardis e astúcia na condução de suas campanhas. Em se tratando de reeleição, o alvo principal deles deverá ou deveria ser Bolsonaro. Eles só crescerão se tiverem capacidade de desconstruir o atual governo e o candidato, apresentando-se como alternativas e propondo um governo também alternativo. Essa capacidade mensurará não só a possibilidade de atrair votos que iriam para Bolsonaro, mas também de atrair votos não definidos e de eleitores de Lula que não vislumbram outra possibilidade atrativa até agora.

Bolsonaro, num primeiro plano, deverá usar em sua campanha os benefícios dos pacotes de bondade que lhe foram confirmados pelo Congresso. Esse eixo deverá ser combinado com outros, com prioridade para: 1. Ataques a Lula e aos governos petistas, com foco nos escândalos. 2. Defesa de uma pauta moral e religiosa, visando criar a antinomia do “bem” contra o “mal”. 3. Estímulo a afetos, principalmente o do ódio aos inimigos, e à disseminação de fake news nos meios digitais. 4. Apropriação e exaltação dos valores que ele considera sinônimos de patriotismo. 5. Apropriação do valor da liberdade vinculado ao armamento, à segurança pública e ao combate ao comunismo e socialismo.

A campanha de Lula, como vem sendo sinalizado, deverá dar prioridade aos temas sociais e econômicos, com ênfase no combate à pobreza, à fome e ao desemprego. A defesa da democracia e a necessidade de reconstrução das políticas sociais públicas e de instrumentos de Estado, destruídos pelo atual governo, também deverão ocupar centralidade. As políticas de meio ambiente e de sustentabilidade deverão ganhar espaço maior em relação às campanhas petistas anteriores, vinculando-se a isto o caráter do próprio desenvolvimento do País.

A relação entre as campanhas petista e de Ciro está mal posta. Os petistas atacam Ciro e o pressionam para desistir, como se fossem donos do pedaço. Ciro, em contrapartida, ataca Lula. Quem ganha com isso é Bolsonaro. Em síntese, enquanto Lula tentará uma campanha crítico-propositiva, é certo que Bolsonaro procurará aumentar a rejeição de Lula para alcançar seus objetivos. A depender dos efeitos desses ataques, a campanha petista terá de não só se defender, mas de reagir atacando também. Será uma das campanhas mais emocionantes desde o fim da ditadura. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1222 DE CARTACAPITAL, EM 24 DE AGOSTO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Protagonista improvável”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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