Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

Primeiro turno

A vitória de Lula logo é mais do que uma escolha, é uma imposição da realidade

Foto: Douglas Magno / AFP
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Vocês sabem que nestas páginas tenho criticado várias vezes a campanha petista pelo fato de não mirar no centro o suficiente, pois é no centro que tudo vai ser decidido. Tenho falado o que os dados falam, tenho dito o que os eleitores dizem. Pesquisador é isso, um alto-falante da realidade. Ouvinte privilegiado. Tenho feito críticas a partir de dados porque quero que o Lula ganhe e quero contribuir para que o faça, inclusive, no primeiro turno.

Votar em Lula no primeiro turno, para mim, não é uma escolha, é uma imposição da realidade.

Mas existe debate ideológico entre tendências na esquerda. Meu amigo, os brasileiros estão passando fome. Vamos deixar o debate ideológico para amanhã. Vamos deixar as tendências para depois.

Mas há divergências dentro da esquerda. Que não haja. Quando o País está sendo destruído, essas divergências são mediocridades. A fome não pode ficar sem resposta. O sofrimento exige ação.

Ah, mas é que tem corrente interna. Vamos falar para a mãe que não consegue colocar comida na mesa para os filhos que a gente não consegue juntar correntes de partidos de esquerda?

Eu respeito quem pensa diferente, respeito quem vote em outras opções no primeiro turno, mas, para mim, não há dúvida. Correr o risco de Lula não ganhar é inimaginável. Simplesmente, não pode acontecer. Está fora de cogitação.

É o Brasil que está em jogo, minha vida, sua vida. É a vida que está em jogo. É continuar mergulhados no horror que está em jogo.

Então, se para pôr fim nesse horror, é melhor deixar as correntes partidárias, o debate entre nossas diferenças, para o dia 2 de janeiro de 2023, acho melhor, né? Ninguém vai morrer por deixar nossas divergências de lado. Mas brasileiros vão morrer se Bolsonaro ganhar.

Inclusive, às vezes, parece-me que, quando debatemos entre nós, não somos conscientes da gravidade do momento. Somos, sim, nas palavras, nas ideias, mas muitos de nós não sentimos o desespero na pele, no prato e isso nos faz defender posturas que parecem até ridículas, quando comparadas com o tamanho do horror que o Brasil enfrenta.

Não sei, para mim é tão óbvio, tão incontestável, que tenho até problemas para debater com aqueles para os quais o voto em Lula no primeiro turno não é tão evidente assim. Respeito essa escolha, mas, no fundo, sinto uma certa rejeição, me provoca uma certa antipatia. Enxergo, por trás desse suposto purismo, um distanciamento da realidade. Quem não passa fome, quem não tem sua vida colocada em risco, pode se dar ao luxo de ser puro neste momento. Mas o resto pode?

Talvez seja porque eu me dedico a pesquisar a opinião, a escutar. E talvez seja porque, durante esses meses, tive, nas entrevistas, várias mães chorando por não poder pagar as contas, vários jovens com sérios problemas de depressão ao não enxergar futuro nenhum para a vida deles, vários LGBTs com medo de serem espancados pelos próprios pais, “seguindo o exemplo de Bolsonaro”, várias mulheres com medo de serem espancadas pelos maridos, que “se tornaram mais agressivos desde que Bolsonaro ganhou”. Foram vários, mas se tivesse sido um seria muito.

Enfim, é isso, o País está gritando de dor e devemos responder ao grito. Um grito de dor tem de ser respondido de forma cortante, esmagadora, definitiva. Não dá para divagar, ficar “tretando” no Facebook diante de um grito de dor do tamanho de um país.

Para mim, é Lula no primeiro turno porque meu corpo dói diante da possibilidade de pensar num segundo turno apertado entre o ex-presidente e Bolsonaro, onde coloquemos o País em risco.

Diante da fome, não tem muito mais o que falar. Diante da dor, não tem muito mais especulação possível. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1209 DE CARTACAPITAL, EM 25 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Primeiro turno”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Esther Solano

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