Precisamos mais do que nunca da ajuda dos super-heróis

Lutem como uma garota, dois garotos e uma trans. Lutem como eles, Marielle, Edward, Julian e Chelsea

Precisamos mais do que nunca da ajuda dos super-heróis

Opinião

Vivemos numa era em que os heróis continuam sendo supernecessários.

Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange, preso na semana passada, no Reino Unido, desvelaram as múltiplas formas de dominação do império, de maneira irrefutável, evidente, documental. Para isso, decodificaram comunicações oficiais e oficiosas dos governos e dos políticos que compõem o diretório imperialista internacional, deixando patentes as relações promíscuas entre governos e empresas que os manipulam, para a exploração sem limites socioeconômicos, ambientais, éticos ou morais da imensa população mundial.

A vergonhosa prisão de Assange, confinado durante mais de sete anos na Embaixada do Equador em Londres, não poderia ser mais deletéria para a democracia, a liberdade de imprensa e as relações internacionais.

Para a América Latina e o Caribe, simboliza de forma ainda mais patente o retorno da região ao período colonial. Com efeito, o instituto do asilo diplomático é criação regional, advindo do processo de descolonização no século XIX. Com a prisão de Assange na Embaixada do Equador, o princípio foi violado, como jamais fora antes, gerando três grandes vítimas: o próprio Assange, toda a jurisprudência de asilo da região e, principalmente, o Brasil, o maior país da região. Descemos mais um degrau na ignominia.

Tristemente, cabe recordar o ditado italiano: “Non abbiamo ancora toccato il fondo.”

Terça-feira, 16 de abril, o atual governo anunciou a saída do país da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL). Na semana passada, extinguiu as principais instâncias de participação na formulação, execução, monitoramento e avaliação das políticas públicas, justamente quando a Campanha da Fraternidade insta os cristãos a refletirem sobre elas. Entramos na Semana Santa como o Cristo a caminho do Gólgota.

Entretanto, a vida não se extingue pela força do mal. À ressureição do Cristo no Ocidente correspondem os princípios do Yin (escuro) e do Yang (claro) no taoísmo e no confucionismo: nas trevas já se encontra o princípio luminoso e vice-versa. Complementando essa sabedoria, o Tai Chi Chuan, autodefesa chinesa, ensina que, ao nos defendermos, devemos aproveitar a própria força do agressor em nosso favor.

De fato, se olharmos atentamente, perceberemos que o fascio local indica, com as ações negativas que toma, o mapa da vitória: a participação popular.

 

Com efeito, ao prestarmos atenção ao primeiro projeto de lei veementemente combatido pelo PSDB no segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff, em 2015, veremos que tratava justamente da regulamentação da participação popular no âmbito do governo federal.

A pergunta, portanto, retorna ao campo democrático: queremos um poder horizontal, participativo, dialógico? A julgar pela dificuldade em conseguir a sustentabilidade do projeto democrático no Brasil, como tristemente demonstram os golpes de 54, 64 e 16, a resposta não é simples. Basta ver como o Brasil, criador há 30 anos do mundialmente emulado orçamento participativo, não conseguiu sua discussão, transposição e implementação nos âmbitos estadual e federal. Foi mais fácil transpor todo um rio…

No entanto, o próprio presidente Lula sempre enfatizou que para se conhecer um governo o melhor indicador é o orçamento, a forma de alocação dos recursos pela sociedade e pelos dirigentes, mais diretamente responsáveis: “Diga-me com quem andas e te direi quem és.” Se privilegias os ricos, tua ideologia e teu governo são excludentes; ao contrário, se promoves os mais pobres, são includentes, como diria Paulo Freire.

 

Il en découle, na metáfora hídrica francesa, que a sociedade, como um todo, não reagiu ao golpe porque, como na maioria dos países, perdeu confiança nos políticos, que fora do poder pregam uma coisa, mas, uma vez empossados, podem agir de forma diversa.

Como retomar a confiança da população?

Começar por apresentar modelos de participação popular pode ser um bom caminho: da saúde, à educação, cultura e política externa, defesa e banco central (comitê de política financeira, principalmente).

Quantos partidos têm coragem disso? Indaguem. Votem neles.

Lembrem-se de que os nossos super-heróis Snowden, Manning e Assange estão literalmente dando a vida pela nossa cidadania, como fez o Cristo, na acepção das três religiões abraâmicas, não apenas o cristianismo – uma das três, ao lado do judaísmo e do islamismo.

Por fim lutem como uma garota, dois garotos e uma trans. Lutem como eles, Marielle, Edward, Julian e Chelsea.

Feliz Páscoa a todas e todos.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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