Por que paralisar a pós-graduação no dia 26 de outubro?

Defendemos o reajuste de bolsas de estudo e a criação de políticas públicas que ofereçam perspectivas aos jovens doutores no Brasil

Por que paralisar a pós-graduação no dia 26 de outubro?

Opinião

É evidente o desmonte da ciência no Brasil. Acompanhamos sucessivos e crescentes cortes de recursos. O último, da ordem de 630 milhões de verbas oriundas do Finep (cujo investimento em ciência é obrigatório) provocou grande revolta na comunidade científica. E, logicamente, mais impactos negativos sobre o desenvolvimento da pesquisa científica no País.

Os impactos desse processo são diversos. A paralisia de pesquisas de alta relevância e a redução da capacidade de fomento do CNPq reflete na importação de insumos para realização de pesquisas e na concessão de bolsas para mestrandos, doutorandos e doutores formados que não encontram emprego no mercado.

Dentre as muitas consequências negativas, gostaria de me ater aos impactos na pós-graduação. A pós-graduação é o locus principal de formação de capital humano altamente qualificado no País. Na economia do conhecimento, os cérebros e mentes – ou seja, pessoas muito bem formadas, capazes de produzir transformações e inovações necessários ao aumento de produtividade – são os principais ativos de qualquer nação.

 

Dito de outra forma, assim como o carvão foi combustível da revolução industrial no XVIII e XIX, o petróleo no século XX, são os talentos os motores do desenvolvimento neste século XXI.

Para o Brasil ter capacidade de desenvolver sua economia e gerar empregos nessa quadra, é preciso investir na formação de um grande número de pessoas, da educação básica à pós-graduação, e valorizar aqueles que escolheram a pesquisa como profissão. Por isso, defendemos a valorização da carreira científica no Brasil, desde a formação na pós-graduação.

As bolsas de estudo se encontram há 8 anos sem reajuste e perderam 60% do seu poder de compra. Elas não são benesse, e sim a remuneração desse trabalho tão importante para a nação. Desempregados ou subempregados, os jovens doutores têm dois caminhos diante dessa crise: abandonar da carreira científica ou aprofundar a fuga de cérebros.

Não bastasse tudo isso, ainda enfrentamos a interrupção do sistema de avaliação da pós-graduação, que é realizada pela Capes, em função de decisão judicial, o que pode levar à desregulamentação dos cursos e um colapso do sistema.

Por tudo isso, convocamos a paralisação nacional da pós-graduação para o próximo dia 26 de outubro. Essa realidade precisa ser discutida e soluções urgentes devem ser apresentadas. Defendemos que os recursos do FNDCT sejam investidos no reajuste de bolsas de estudo e na criação de políticas públicas que ofereçam perspectivas aos jovens doutores no Brasil. Defendemos ainda a imediata retomada do sistema de avaliação quadrienal da Capes.

Da reversão desse processo de sabotagem e desmonte, depende a autonomia tecnológica do Brasil e a superação da grave crise econômica e social que vivemos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Presidente da Associação Nacional dos Pós-Graduandos, a ANPG

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