Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

Para que haja paz duradoura, os interesses das partes precisam ser contemplados

A diplomacia e a defesa são temas por demasiado importantes para serem tratados exclusivamente por diplomatas e militares

 Zelensky e Putin. Fotos: JACK GUEZ, Sergei SUPINSKY, Sergei GUNEYEV / AFP / SPUTNIK
Zelensky e Putin. Fotos: JACK GUEZ, Sergei SUPINSKY, Sergei GUNEYEV / AFP / SPUTNIK
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“Coragem é a resistência ao medo, o domínio sobre o medo, não a ausência do medo.”
Mark Twain.

Escrever sobre a guerra é um dos trabalhos mais difíceis e tristes.

Começar com truismos pode aplainar a escarpa desoladora: para que haja paz duradoura, os interesses das partes precisam ser contemplados (como tem enfatizado a diplomacia do Vaticano); a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) deveria ter deixado de existir (em simetria com o desaparecimento do Pacto de Varsóvia); a diplomacia e a defesa são temas por demasiado importantes para serem tratados exclusivamente por diplomatas e militares.

Com efeito, o mundo tem-se politizado, rapidamente.

Como símbolo do zeitgeist, o filme “Mães paralelas”, de Pedro Almodóvar. Pela primeira vez, o diretor espanhol trata tema político de forma central. Imperdível.

O título da película induziu-me associação com os dramas da Ucrânia e do Brasil.

Lá, uma guerra clássica, de agressão, preventiva na concepção de Moscou.

Aqui, uma guerra híbrida, não menos agressiva.

Em ambos os países, os conflitos atuais iniciaram-se com golpes de estado: 2014, em Kiev; 2016, em Brasília.

Deles, resultaram desgovernos ilegais e ilegítimos, com centenas de milhares de mortos, no caso do Brasil (só na pandemia, mais de 600 mil vidas foram perdidas pela incúria do desgovernante e seus generais); além das dezenas de milhões em insegurança alimentar; habitacional (com as consequentes tragédias em Francisco Morato e Petrópolis); índices inauditos de violência no campo e contra indígenas; destruição do meio ambiente e do patrimônio público, comprometendo esta e as gerações futuras, inclusive mediante congelamento dos investimentos governamentais em saúde e educação por duas décadas (PEC 95).

Ao lado disso, os diretos trabalhistas foram barbaramente precarizados, assim como os previdenciários, colocando os idosos em situação de risco social grave – e não apenas eles, uma vez que muitos são arrimo de família.

Outro laço trágico a nos atar ambos os segundos maiores países dos respectivos continentes: cá como lá, o golpe foi gerado pelo chamado “Ocidente”, que se traduz em Estados Unidos da América à frente da horda da ilegalidade, provando a Europa, hoje como ontem, ser incapaz de autogoverno (sim, justamente ela que isso presumira de nós latino-americanos, africanos, árabes e orientais), como os trágicos acontecimentos na Ucrânia, mais uma vez, evidenciam.

Para dimensionar a guerra híbrida, recorro a CartaCapital e suas excelentes matérias.

Em “Floresta sitiada”, matéria de Ana Flávia Gussen, somos informados que o desmatamento da Amazônia aumentou 418% em comparação com janeiro do ano passado. A mesma Amazônia registrou 77% dos assassinatos no campo em 2021, segundo relata a articulista, com base nos dados da Comissão Pastoral da Terra, sendo evidente a relação entre o desmatamento e descontrole socioeconômico da região. No Brasil, teriam sido 23,9 mortes violentas intencionais a cada 100 mil habitantes; na Amazônia, a chacina montou a 29,6 homicídios por 100 mil.

A jornalista complementa: “Para agravar ainda mais o cenário, o governo federal liberou a posse de verdadeiros arsenais para alguns setores da sociedade. Dados da Polícia Federal revelam uma explosão de registros de novas armas entre 2020 e 2021 na Amazônia. Apenas em Mato Grosso, foram incorporadas 23 mil novas armas no ano passado. No Pará, 14,3 mil. Em Rondônia, 12,6 mil;…para citar um exemplo, um sargento da PM de Roraima foi preso em flagrante pela Polícia Rodoviária Federal escoltando um carregamento ilegal de 7 toneladas de cassiterita em Boa Vista…O estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou ainda para o fortalecimento das milícias, sobretudo na região metropolitana de Belém. ‘Lá, temos quatro tipos de milícias: a do transporte alternativo, a do contrabando, a do tráfico e a da segurança privada’ [dados de Aila Colares, do Fórum]…O governo Bolsonaro gastou 584,5 milhões de reais nas Operações de Garantia da Lei e da Ordem na Amazônia, e não conseguiu reduzir a violência nem os crimes ambientais. Tampouco foi capaz de retomar territórios controlados pelas facções na floresta.” O especialista do Fórum Aiala Colares conclui, na matéria: “A despeito da riqueza natural, a região está mergulhada na desigualdade e na pobreza.”

O futuro? No mesmo número de CartaCapital, Maurício Thuswohl noticia: “A pauta de Bolsonaro enviada ao Congresso é uma típica pauta do fim do mundo. Desde o PL que libera veneno para o prato dos brasileiros, passando por grilagem e garimpo em terras indígenas até a liberação para mortes indiscriminadas por policiais…’, afirma o deputado federal Alessandro Molon, do PSB, líder da oposição na Câmara…Somente no ano passado, foram concedidas 562 novas licenças para agrotóxicos químicos ou biológicos. O projeto [PL do Veneno] tira o poder da Anvisa e do Ibama sobre esses venenos e, alerta a oposição, deve aumentar os riscos à saúde trazidos por algumas culturas onde ainda estão em uso substâncias proibidas há anos nos EUA e União Europeia…Há ainda na lista do governo o PL 490, ou ‘PL do Marco Temporal’, que estabelece como Terras Indígenas apenas aquelas que estavam em posse dos índios no momento da promulgação da Constituição de 1988, além de proibir a expansão das mesmas e flexibilizar o contato com os povos isolados. Existe também o PL 191, que permite a mineração em Terras Indígenas…”.

Não mais guerras, deve ser a conclusão possível. Não mais impérios, não mais golpes, não mais alianças militares espúrias. Não há mal sem raízes; as plantas más, a partir delas devem ser extirpadas. Pelos frutos, podemos distinguir as boas das más árvores, já dissera aquele judeu-palestino nascido há mais de dois mil anos atrás.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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