Educação

Os vampiros da Conferência Nacional de Educação

Estamos numa sinuca de bico: como falar dos nossos adversários da extrema-direita sem ‘fazer o jogo deles’?

O movimento “Escola Sem Partido“ difunde a delirante tese de que os estabelecimentos regulares de ensino promovem “doutrinação marxista“. (FOTO: Redes Sociais )
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Esta semana começou com o The Intercept Brasil noticiando uma mobilização da direita em torno da Conferência Nacional de Educação (Conae). A denominada “força-tarefa” consiste em uma série de grupos do WhatsApp formados para organizar uma ação conjunta para, em tese, incidir politicamente e pautar os debates educacionais da Conae, cuja etapa nacional começará no próximo dia 28 de janeiro.

Um artigo publicado nesta CartaCapital já explicou que a Conae é fruto de um longo processo de acúmulo de debates em etapas municipais e estaduais, de modo que já não há espaço, a esta altura, de acolher participantes que já não estejam envolvidos com a construção da conferência. O regimento se encarrega do resto, pois proíbe falas e intervenções de pessoas não inscritas.

Sendo assim, faz mesmo sentido nos questionarmos se essa “força-tarefa” merece a atenção que vem recebendo. Parte da repercussão segue a linha da manchete do Intercept, e difunde um medo extremo de que a Conae será tomada pelos reacionários, mas isso definitivamente não procede. Outra parte, porém, defende que esse medo é uma tentativa de esvaziar aquilo que importa na Conae, que falar do assunto é fortalecer a direita e que não há perigo à vista.

Essas críticas são perigosas, porque indicam que o nosso campo aparentemente ainda não conseguiu se libertar dos afetos que as mídias digitais deliberadamente provocam e nem ler os movimentos da extrema-direita na chave de como ela age.

Durante o governo Bolsonaro, dezenas de pesquisadores participaram da cena pública analisando o papel das mídias digitais para a ascensão da extrema-direita. Diversos estudos mostraram como fomos colonizados pelo ritmo de urgência e de crise criado pelas timelines das redes sociais. Isso atinge a nossa atenção, a nossa capacidade de concentração, a nossa compreensão acerca do que significam as notícias que lemos. Infelizmente, a extrema-direita se apropriou dessas possibilidades das redes e as têm usado sistematicamente a seu favor.

Num mundo onde a atenção tornou-se um bem fundamental, o que realmente significa a “força-tarefa” bolsonarista sobre a Conae? Lendo a notícia friamente, superando o susto, resistindo à sensação de urgência que ela busca nos provocar e lembrando como funciona a dinâmica de um evento como a Conae, podemos diferenciar o que é informação relevante e o que é ruído sensacionalista: qualquer “invasão” da Conae ou “colonização” dela pela direita é ruído.

A informação relevante, porém, é que – sim – existem um ou mais grupos organizados na direita reacionária que consideram a Conae (um evento fundamental ao campo de defesa do direito à educação) suficientemente relevante para ser utilizada como gatilho de organização, impulsionadora de agendas e mobilização de sua militância.

Esses grupos certamente não participarão dos colóquios e dos espaços de discussão da conferência, pois isso os obrigaria a discutir argumentos na esfera pública em um espaço que não conseguiriam controlar (o cercadinho de Jair Bolsonaro na saída do Alvorada deixou isso bem claro ao longo dos anos). Então, o que na Conae interessa de fato à extrema-direita? O histórico desses setores nas vésperas de períodos eleitorais anteriores sugere que este é um primeiro movimento para elevar a temperatura do debate público e produzir a matéria-prima para extrair e explorar o pânico moral que os sustenta politicamente.

A extrema-direita vinha escolhendo alvos mais fáceis para caricaturar e atacar com seu discurso de ódio, a exemplo da educação em gênero e sexualidade. A opção pela Conae, em um momento-chave de conflito e discussão no campo educacional sobre os rumos da educação brasileira, denota uma vontade e uma organização da extrema-direita para vampirizar a energia política que o campo popular vai gerando e acumulando ao longo do complexo processo da conferência.

Uso o termo “vampirizar” porque me refiro a uma energia que é sugada desde fora. A posição externa, aliás, é importante para que a extrema-direita consiga produzir o discurso de que somos nós os “inimigos das famílias”. Essa usurpação de energia política é feita capturando-se a atenção que é viabilizada pelas redes. No limite, a Conae, em vez de lidar com os conflitos que têm aparecido durante sua construção, que precisam ser enfrentados pelo bem da educação brasileira, passaria a defender a sua própria existência e legitimidade enquanto espaço de formulação política na educação. Isso significa que um agente externo (a tal “força-tarefa” bolsonarista) poderia pautar a Conae sem sequer participar dela oficialmente.

Os/as parlamentares e influenciadores/as que produzem pânico moral para ganhar engajamento nas redes sabem ler muito bem o ritmo do medo e do ódio na sociedade. Sabem também que podem usar a Conae para criar uma imagem de ódio do campo popular – “veja o que estão defendendo para os nossos filhos”, “estão todos organizados contra nós” –, gerando um ciclo de afetos raivosos contra as esquerdas que eles alimentarão diligentemente ao longo de 2024. É a mesma lógica que foi utilizada pelo ex-presidente para manter a sua base aquecida e ativada, “em ritmo de eleição”, durante todo o seu mandato.

De forma mais geral, essa vampirização de um evento referencial do campo popular é também um pretexto para ativar um ciclo de geração e alimentação de pânico moral contra educadoras e educadores que passa pelo Congresso Nacional, que discutirá o novo PNE ao longo do ano, e deságua na eleição de candidaturas reacionárias para prefeituras e câmaras municipais. Assim, a energia política da Conae vai sendo desviada para fazer girar a máquina de uma extrema-direita que precisa estar atiçada e raivosa para cativar o eleitorado.

Ao fim e ao cabo, somos colocados numa sinuca de bico. Como falar dos nossos adversários sem “entrar no jogo deles”? Esta não é uma oposição real e incontornável. Na realidade, podemos nos livrar da sinuca se formos capazes de ler as mobilizações da extrema-direita não na chave do medo incapacitante que eles tentam nos impingir, mas como chamados para a ação. E, ao pensarmos em quais ações são necessárias, saber que a Conae se tornou um ativo para a extrema-direita é um excelente subsídio para antecipar os movimentos de nossos adversários e delinearmos estratégias de luta e atuação política conjunta.

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