Os dois mitos dos militares 

Há alguma correspondência mínima entre os militares brasileiros e uma imagem de virtude, de observância à Constituição?

O presidente Jair Bolsonaro ao lado de Edson Leal Pujol, então comandante do Exército. Foto: Marcos Corrêa/PR

O presidente Jair Bolsonaro ao lado de Edson Leal Pujol, então comandante do Exército. Foto: Marcos Corrêa/PR

Opinião

Depois da “democracia racial”, o maior mito da opinião pública brasileira (principalmente em sua modalidade “publicada”), e a tal da imagem das Forças Armadas e do Exército brasileiros. E faço questão de não qualificar o substantivo porque quando falam dessa tal imagem, os sentidos positivos de virtude  e responsabilidade já estão embutidos. 

Após o embarque dos militares no governo Bolsonaro, desde a campanha, virou moda no jornalismo e na esfera pública ampliada dizer que essa tragédia que nos desgoverna pode implicar num desgaste da imagem das Forças Armadas. Eu pergunto: de onde, exatamente, saiu essa ideia? Há alguma correspondência mínima e lógica entre os militares brasileiros e uma imagem de virtude, de observância aos preceitos, deveres e obrigações constitucionais das Forças Armadas? 

Sequer precisamos lembrar que esses militares foram responsáveis por mais de 20 anos de um regime ditatorial. Apenas na Nova República já é possível constatar o tamanho da falácia desta ideia.

Por mais que tenham passado um tempinho de ressaca após o fim da ditadura, os militares sempre viveram à espreita dos centros de poder e com o mesmo desejo de tutelar a política e a democracia brasileiras: de José Sarney a Dilma Rousseff — ainda que tenham, por pouco tempo, engolido a ideia de perderem o comando do Ministério da Justiça para ministros civis. 

Bastou que os governos petistas esboçassem alguma intenção de reparar danos e promover justiça aos perseguidos e torturados pelos militares durante a ditadura para que as Forças Armadas, principalmente o Exército, guardassem o disfarce da obediência à Constituição e à democracia.

Mais do que isso: bastou que alguma transparência fosse produzida sobre as atrocidades que cometeram nesse período para que os gordos orçamentos destinados pelos governos petistas deixassem de ser um farto agrado que abafasse o sentimento antipetista aflorasse. Falo, obviamente, da Comissão da Verdade. 

Os militares brasileiros não aguentaram ficar formalmente fora da política nem por oito mandatos, contando aquele conferido por eleição indireta. Voltaram à política, por meio do voto –  ainda que não se possa dizer que por via das regras plenas do jogo democrático – com um presidente e vice-presidente que idolatram torturador, enaltecem a ditadura militar e se aliam ao ultracorsevadorismo e fantasmagorias persecutórias e conspiratórias de Olavo de Carvalho. O próprio Carlos Brilhante Ustra, ídolo do presidente e do vice-presidente, é um sujeito que já pregava os ensinamentos de Olavo de Carvalho antes de Olavo de Carvalho deixar a poligamia islâmica e a astrologia para dar cursos a militares. Busquem pela história do projeto Orvil.

Antes que Jair Bolsonaro se elegesse, os militares já estavam na ativa, operando nos bastidores e em público para atacar a democracia. O tweet de Eduardo Villas-Bôas que, publicamente, deu uma única escolha ao Supremo Tribunal Federal acerca do pedido de Habeas Corpus do ex-presidente Lula é demonstrativo não apenas de um ato individual, mas corporativo. Sabemos, por meio do próprio general em entrevista dada a Celso Castro, que o ultimato dado à Suprema Corte foi uma articulação da Alta Cúpula do Exército. Não é à toa que Jair Bolsonaro, já empossado presidente, sem qualquer pudor, credita a Villas-Bôas, publicamente, o mérito por sua eleição. Com ajuda, obviamente, de Sergio Moro e de William Bonner que leu, ao fim do JN e na véspera do julgamento, o famigerado tweet

Villas Bôas: posts antes de HC de Lula tiveram participação do Exército

Não faz muito que um ministro general desse governo publicou um carta ameaçando a democracia ao insinuar que conflitos institucionais poderiam surgir por conta do fato das instituições, simplesmente, estarem fazendo o que o Estado de Direito espera delas. São muitos os exemplos que podem ser arrolados para que acabemos, de vez, com um outra falácia: a de que apenas as baixas patentes seriam golpistas e bolsonaristas. Todos os exemplos dados até aqui, e podemos incluir outros tantos, a exemplo de Eduardo Pazuello, são de militares de altas patentes e estrelas na farda. 

O recente episódio do Exército desistindo de aplicar, devidamente, uma punição ao ex-ministro da saúde militar é consoante com o que estou defendendo aqui: os militares brasileiros não são distinguem de Jair Bolsonaro em termos de mentalidade e compromisso com a democracia. Alguém pode tentar pincelar exceções e vai achar. Achando, confirma a regra. E temos, obviamente, não apenas essa disposição antidemocrática e proto-fascista já nem tão latente nas Forças Armadas, mas também nas polícias militares, civis e federal. Lembram-se da PF retirando cartazes antifascistas nas universidades e conduzindo coercitivamente professores e reitora da UFMG envolvidos em um projeto de memória dos tempos de ditadura? Pois é. 

Marcos Nobre, que considero um dos grandes especialistas no que convencionamos chamar de bolsonarismo como movimento político e social, trouxe dados, nesta semana, que dão conta de que na maior parte dos estados brasileiros, governadores já não têm mais o comando sobre as suas polícias que, por sua vez, estão seguindo a cartilha antibolsonarista. O mito da virtude democrática e constitucional dos militares persiste na opinião pública enquanto os militares, mais uma vez, vão construindo um enredo de detonação do que ainda nos resta de democracia. 

Enquanto isso, nos distraímos pensando nas eleições de 2022 que, ao que tudo indica, não será decidida nas urnas. Não sei se há ainda algo que se possa fazer quanto ao iminente levante de um movimento fascista e armado já não mais disfarçado. Mas, se há, precisa ser feito para ontem. O tempo urge. A democracia respira com ajuda de aparelhos de instituições que, definitivamente, não estão funcionando há um bom tempo. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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