Os Correios estão no corredor da morte das privatizações

A onda de privatizações obedece à lógica patrimonialista e rentista do moderno capital financeiro

Correios (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Correios (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

Opinião

Depois da Eletrobras, os Correios são lançados no corredor (da morte?) das privatizações. Nos meios de comunicação, a propaganda oficial celebra a mudança de controle da esfera pública para os poderes privados como uma conquista da eficiência.

Por essas e outras, na abertura da coluna, apresento um “causo” (assim diria o saudoso comediante Mazzaropi) ocorrido nas salas acarpetadas da Faria Lima. Um proficiente gestor financeiro foi convidado pela diretoria de um grande banco de investimentos para apresentar sugestões de projetos.

Sem hesitar, o gestor-convidado sacou dos embornais de sua sabedoria um elenco parrudo de empreendimentos novos. O diretor de negócios do banco atalhou: “Queremos apenas adquirir ativos existentes, nada de projetos novos”.

 

 

 

Aí está escancarado o Espírito Patrimonialista do capitalismo financeirizado. A expressão “financeirizado” incomoda à esquerda e à direita. Os da esquerda imaginam que o capitalismo se dedica, sobretudo, à produção de mercadorias ao explorar a força de trabalho e os bancos existem para financiar os negócios produtivistas. A turma da direita se aborrece ao constatar que o capitalismo financeiro é acusado de promover péssima alocação de recursos.

Já aborreci os leitores de CartaCapital ao escrever neste espaço que, entre outras proezas, a financeirização rentista exercita seus propósitos ao se beneficiar de um ativo existente, criado com dinheiro público, gerador de renda monopolista. A onda de privatizações obedece à lógica patrimonialista e rentista do moderno capital financeiro, em seu furor de aquisições de ativos existentes. Nada tem a ver com a qualidade dos serviços prestados, mesmo porque os exemplos são péssimos. Em geral, no mundo, a qualidade dos serviços declinou, acompanhando o aumento de tarifas e a deterioração dos trabalhos de manutenção.

A decepção popular com as experiências de privatização contamina gregos e troianos, países ditos adiantados e outros nem tanto. A experiência privatista revela suas entranhas: os capitais desejam ardentemente adquirir empresas produtoras de serviços públicos, primeiro para realizar formidáveis ganhos de capital no momento das aquisições, depois para abocanhar a renda monopolista.

Também relatei nesta coluna que, na Era Thatcher, a Inglaterra privatizou o abastecimento de água e os transportes interurbanos. Num e noutro caso as tarifas subiram muito rapidamente. Em algumas cidades inglesas, as tarifas de água tornaram-se abusivas. O serviço? Uma droga. Os lucros, naturalmente, aumentaram de forma explosiva.

Os privatistas, com a maior cara de pau, usam a evolução da rentabilidade para mostrar a maior eficiência da empresa privada. Eficiência privada, ineficiência social. No caso dos ônibus interurbanos, além da brutal elevação de tarifas, os concessionários privados simplesmente fecharam as linhas menos rentáveis, deixando muitos ingleses sem transporte.

O economista e jornalista Will Hutton, em seu livro A Situação em Que nos Encontramos, descreve com requintes de crueldade a condição do consumidor inglês de serviços públicos submetido aos caprichos e arbitrariedades dos controladores e administradores dos monopólios naturais, como transporte público e abastecimento de água. Só não reclamam, é claro, os possuidores de ações dessas empresas, que celebram os preços de seus ativos subindo sem descanso. É a farra do bode.

Imaginam os crédulos do mercado que a vida poderia estar melhor se os gordos benefícios fossem utilizados para sustentar um programa de investimentos destinados a garantir a melhora dos serviços. Nada disso. Os resultados vão forrar os bolsos dos acionistas, sob a forma de recompra de ações e distribuição de dividendos. Enquanto isso, os consumidores se lascam.

Recentemente, economistas do ­Progressive Economic Forum organizaram a coletânea The Return of the State. Os artigos concentram as atenções no declínio da qualidade dos serviços públicos depois da onda de privatizações iniciada na Era Thatcher. Will Hutton acusa não só as malfadadas privatizações dos serviços públicos, mas aponta a “privatização do privado” como o motor da acumulação de riqueza no capitalismo contemporâneo. A “privatização do privado” tornou-se uma das forças motrizes do capitalismo britânico. O propósito das empresas é extrair valor em vez de criar valor, o que impulsiona a submissão dos trabalhadores aos contratos de curto prazo ou zero-hora, enriquecendo enormemente os sócios e diretores de empresas.

Os fundos de Private Equity atuam diretamente para impor estratégias de extração de valor em todos os negócios britânicos. Os gestores não podem fazer outra coisa senão executar os mandos dos fundos financeiros.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1170 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE AGOSTO DE 2021.
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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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