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Os áudios de Flávio Bolsonaro e a extinção do primeiro turno
Por mais que hoje pareça difícil superar os danos do caso Vorcaro, a família Bolsonaro já demonstrou que seu capital eleitoral tem grande resiliência a escândalos de corrupção
Um leitor pouco atento ao calendário eleitoral brasileiro poderia concluir, pela leitura dos jornais das últimas semanas, que estamos às vésperas do segundo turno. Em postura pouco usual, manchetes e colunas passaram a praticamente ignorar os dados do primeiro turno e concentraram sua atenção em um hipotético segundo momento eleitoral. Seja por ansiedade, seja pelo interesse em produzir um fato consumado, a sensação é de uma eleição já consolidada — algo dificílimo de ocorrer tantos meses antes do pleito e que ignora um fato óbvio: o segundo turno depende profundamente do desenrolar do primeiro. Antes que a campanha atinja sua intensidade plena, é muito difícil prever o desempenho dos candidatos e sua interação no contexto eleitoral.
Os áudios de Flávio Bolsonaro desorganizaram a dinâmica da eleição e, sobretudo, da direita, mas, como efeito colateral, também deixaram um pouco ridícula a cobertura prévia das pesquisas e das eleições. Alguns podem criticar a pouca generosidade do colunista: afinal, um evento dessa magnitude, tão didático sobre as relações entre a família Bolsonaro e o ecossistema do Master, não seria esperado. Penso de modo um pouco diverso.
Por um lado, a história das eleições brasileiras no pós-1989 é cheia de reviravoltas nessa altura da disputa, com exemplos como a implosão da candidatura de Roseana Sarney em 2002, ou mesmo a rápida ascensão de Fernando Henrique Cardoso, em 1994. Cenários pré-eleitorais estão entre os arranjos mais precários e instáveis da política, o que dificulta muito a medição precisa das pesquisas de opinião. Como a maior parte do eleitorado está pouco atenta à disputa, preferências aparentemente sólidas e certezas bem consolidadas podem se revelar frágeis.
A atual conjuntura carrega incertezas ainda maiores, produzidas pela rapidez das redes e pelo aumento das intervenções da Polícia Federal e do Judiciário. Com o novo tempo das redes, o temor não é mais a última capa da Veja, como era até 2014, mas o WhatsApp do dia da eleição. Há indícios, nas últimas disputas, da influência de eventos ocorridos na data ou na véspera do pleito, como a divulgação do laudo falso por Pablo Marçal contra Boulos, em 2024.
O padrão recente de atuação da Polícia Federal e do Judiciário, que atingiu um ápice na Lava Jato, introduz uma instabilidade profunda na cena política. Em momentos diversos, atores de perfis distintos foram, com maior ou menor amparo legal, alvos de processos que determinaram de forma decisiva o cenário político. Trata-se de sintoma de causas diversas, que tanto expõe certa hipertrofia do Judiciário quanto revela, como no caso Master, contatos profundos entre a política institucional e certo crime organizado. Estamos, de todo modo, diante de um elemento de grande incerteza nos rumos da disputa.
Ao lado das causas mais amplas da instabilidade, há que se considerar o papel do protagonista do atual escândalo, Flávio Bolsonaro. Em parte por herança do pai e dos irmãos, em parte por mérito próprio, o senador já esteve envolvido em diversas acusações de corrupção, da apropriação de verbas parlamentares, a “rachadinha”, à suspeita de proximidade com milicianos, como Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega, entre outros. Por sua trajetória pregressa, o envolvimento com escândalos e personagens do mundo do crime, como Vorcaro, parece menos uma excepcionalidade do que um padrão. Mais surpreendente e reveladora, talvez, seja a surpresa de muitos.
É prudente, porém, resistir agora à tentação de replicar postura semelhante com vaticínio oposto. Do mesmo modo que era delirante cravar uma vitória iminente do filho de Bolsonaro após a rejeição de Jorge Messias e algumas rodadas de pesquisas, é no mínimo imprudente decretar o fim da candidatura do amigo de Vorcaro, ou uma vitória certa de Lula. O caminho até a eleição é cheio de acidentes e imprevistos, sobretudo no cenário contemporâneo acima esboçado.
Por mais que hoje pareça difícil superar os danos do caso Vorcaro, a família Bolsonaro já demonstrou que seu capital eleitoral tem grande resiliência a escândalos de corrupção, como os casos das joias, das vacinas, da proximidade com as milícias, entre tantos outros. Se o mais provável é que apenas a base mais ferrenha do bolsonarismo mantenha seu apoio ao filho do ex-presidente, nada impede que uma percepção de corrupção generalizada, já esboçada por parte da mídia, ajude a reduzir os prejuízos do candidato. Por suas últimas declarações, essa será sua estratégia de defesa.
Quanto a Lula, é certo que o naufrágio do Bolsonaro da vez o favorece, ainda mais com Tarcísio fora da disputa. Não será simples reorganizar o campo e os palanques, estaduais e nacional, em tão pouco tempo. Sua rejeição, porém, continua alta, tanto entre parte da população quanto, sobretudo, em amplos setores da elite política e econômica. Mesmo que tenha aumentado muito suas chance de vitória com os últimos eventos, ainda é possível a construção de uma candidatura alternativa que tome o antipetismo como principal combustível.
O enredo da eleição testemunhou eventos marcantes nos últimos dias, mas ainda não é possível ter certeza sobre seu epílogo.
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