Vladimir Safatle

Filósofo, psicanalista, professor da USP, músico e ativista

Colunas

O silêncio da mídia diante do descaso dos Bolsonaro com a saúde é espantoso

Após o desastre na pandemia e a vexatória campanha por um detergente vetado pela Anvisa, Flávio anuncia o presidente da Conib para a Saúde, caso seja eleito

O silêncio da mídia diante do descaso dos Bolsonaro com a saúde é espantoso
O silêncio da mídia diante do descaso dos Bolsonaro com a saúde é espantoso
Flávio Bolsonaro apresentou Claudio Lottenberg como seu ministro da Saúde - Fotos: Redes Sociais/Vittor Sales e Divulgaçao/Conib
Apoie Siga-nos no

Há alguns meses, hostes de apoiadores de Flávio Bolsonaro resolveram infernizar a vida da Anvisa devido a uma decisão técnica de limitar a comercialização do detergente Ypê por risco à saúde pública. Foram dias de campanhas em redes insuflada pela lógica conspiratória a mais irresponsável. Uma atitude que lembrou os piores momentos da pandemia.

O País contabilizou mais de 700 mil mortes por ter um governo negligente, anti-vacina e incapaz de operar com um mínimo de prudência diante da maior crise sanitária que o mundo conheceu em um século. Graças ao trabalho dedicado do governo Bolsonaro para semear o caos, o Brasil entrou para a história como a pior gestão sanitária da pandemia, tendo 3% da população mundial e algo em torno de 10% das vítimas.

No entanto, a campanha eleitoral começou, Bolsonaro filho é um candidato competitivo e atitudes como essa de seus apoiadores, nunca desautorizada pelo próprio, não foram até agora cobradas em entrevistas, falas, editoriais ou o que quer que seja. O fato faz lembrar a tese do historiador Johann Chapoutout sobre a ascensão do nazismo em um belo livro, Os irresponsáveis (Da Vinci, 2026). Ela consiste em lembrar o quanto o acordo de liberais e conservadores, com sua indiferença, sua naturalização do intolerável e alianças tácitas, foi fundamental para a ascensão fascista.

Há dias, Flávio Bolsonaro colocou de novo a saúde pública no centro da discussão. Dessa vez, para anunciar o nome de seu futuro Ministro da Saúde, Claudio Lottenberg. Seu nome foi anunciado como um médico do Hospital Albert Einstein, mas a instituição fez questão de se silenciar sobre o fato de o referido ser ninguém menos que o presidente da Conib, entidade de que deveria representar os interesses de todos os judeus brasileiros, independente de orientação política. Bem, esse senhor passou a história recente ocupando generosos espaços na mídia para “denunciar” o governo federal pela solidariedade com a causa palestina e sua oposição ao genocídio.

Oscar de cinismo

De fato, toda essa história é de um cinismo que merecia o Oscar. Alguém com interesses evidentes contrários ao governo atual, a ponto de ter sido um dos primeiros nomes a ser indicado como ministro de um possível governo da oposição de extrema-direita, passou anos utilizando seu cargo para tentar desmoralizar e desacreditar a politica externa brasileira. Todos nós já entendemos que para ser ministro dos Bolsonaros é necessário ter provado sua indiferença a genocídios. Mas que esse tipo de operação não tenha sido objeto de indignação é o que realmente impressiona.

Da mesma forma, há semanas o Brasil foi mais uma vez objeto de punições tarifárias dos EUA, que tem feito isso até com aliados naturais como o Canadá. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, teve participação de fundamental nessa política de desestabilização nacional. Mais uma vez, nenhuma responsabilidade é diretamente associada ao candidato.

De todos os silenciamentos tácitos, esse é o mais terrível. Vemos claramente como o Brasil se tornou um dos principais problemas que o expansionismo imperial norte-americano tem diante de si. Com o projeto de redividir o mundo em zonas de influência entre as potências atômicas, os EUA veem a América Latina como sua zona de direito.

O único país que atrapalha esse projeto é o Brasil, única economia que consegue ter autonomia relativa em relação às pressões norte-americanas. Diante desse horizonte, Bolsonaro filho não sonha em ser presidente do Brasil. Ele sonha em ser administrador de colônia.

O governo procura usar o discurso da soberania nacional, o carro-chefe da campanha presidencial de Lula 4. Infelizmente, ele tem efeito limitado. Conhecemos setores significativos da população brasileira que sonham mesmo em se tornar uma espécie de 51º estado dos EUA. Em um fenômeno de “identificação com o agressor”, eles acreditam que se serem fiéis servidores do mais forte, receberão algo em troca.

Isso não é apenas uma característica de elites entreguistas, mas há setores significativos das populações mais pobres que vão desde dar nomes ingleses a seus filhos até sonhar imigrar aos EUA. Essa identificação com o agressor funcionou, por exemplo, para consolidar votos da extrema-direita na Colômbia. Lembro disso apenas para insistir o quanto está em jogo essa campanha que inicia agora e o quanto o silêncio não cabe.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo