Pedro Paulo Zahluth Bastos

ppzbastos@gmail.com

Professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, onde coordena o Núcleo de História Econômica e é pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (Cecon) e do Transforma

Opinião

O retorno do imperialismo nu e cru

O que está em jogo determinará se o século XXI será marcado pelo ressurgimento do imperialismo militar predatório ou pela consolidação de uma ordem genuinamente multipolar

O retorno do imperialismo nu e cru
O retorno do imperialismo nu e cru
Maduro foi levado aos EUA vendado. Ele ficou preso em Nova York, onde também será levado ao tribunal. Foto: HANDOUT / US President Donald Trump's TRUTH Social account / AFP
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A intervenção militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, culminando no sequestro de Nicolás Maduro em 3 de janeiro de 2026, vem sendo preparada há muito tempo. Em artigo publicado nesta CartaCapital em fevereiro de 2019, argumentei que Trump revelava com franqueza inédita os verdadeiros objetivos do imperialismo estadunidense: não a defesa da democracia ou dos direitos humanos, mas o controle sobre recursos com valor estratégico e econômico.

Em abril de 2025, na reunião “IV Dilemmas of Humanity” em São Paulo, defendi que Trump escolheria a Venezuela como seu primeiro alvo militar no Hemisfério Ocidental, na primeira intervenção militar direta na América do Sul na história. A argumentação era simples: ataques ao Canadá ou à Groenlândia seriam incomparavelmente mais arriscados; a Venezuela oferecia justificativas palatáveis à base MAGA (imigração e narcotráfico) enquanto garantia acesso a vastas reservas de petróleo e minerais críticos para a disputa tecnológica com a China.

A Estratégia de Segurança Nacional (NSS) publicada em 04 de dezembro de 2025 formalizou esta estratégia hemisférica, centrada em “fortalecer cadeias de suprimento críticas… reduzir dependências e aumentar a resiliência econômica americana… enquanto dificulta que competidores não-hemisféricos aumentem sua influência na região”. Este documento consagra a “Doutrina Donroe”, uma versão explicitamente transacional e coercitiva do pan-americanismo que subordina a América Latina aos imperativos de segurança e acumulação de capital dos Estados Unidos.

A intervenção militar representa a securitização de recursos estratégicos no contexto da rivalidade sino-americana e da tentativa de reestruturar cadeias produtivas globais segundo linhas geopolíticas. Trata-se de um precedente perigoso que coloca em risco a soberania regional, começando com Cuba, Nicarágua e Colômbia.

A lógica geoeconômica da escolha venezuelana

A Venezuela foi escolhida por oferecer convergência ideal entre oportunidade geoeconômica e viabilidade política. O país detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e vastos depósitos de minerais críticos essenciais às tecnologias de energia limpa e defesa.

Esta franqueza quanto aos objetivos materiais conecta-se à estratégia de friendshoring/nearshoring da Estratégia de Segurança Nacional 2025. O documento almeja reorganizar as redes produtivas hemisféricas a partir de lealdades geopolíticas. O duplo propósito para a América Latina fica evidente: assegurar que recursos minerais estratégicos (lítio, cobre, terras raras) e infraestruturas críticas (portos, telecomunicações, energia) fiquem sob controle de Washington; e encadear as manufaturas latino-americanas em circuitos que bloqueiem qualquer participação ou influência chinesa.

A oferta de María Corina Machado a Donald Trump Jr. ilustra perfeitamente esta dinâmica: 1,7 trilhão de dólares em ativos venezuelanos para corporações estadunidenses em troca de mudança de regime. O arranjo não difere das concessões petroleiras do imperialismo clássico do início do século XX.

Nos ramos em que a reindustrialização por onshoring nos EUA não for viável, Washington proporá promover elos manufatureiros latino-americanos em cadeias estratégicas – semicondutores, baterias, farmacêuticos – mas estritamente dentro de estruturas que excluam investimento, tecnologia ou acesso a mercados chineses. Trata-se de segmentar geograficamente as redes produtivas segundo critérios de alinhamento político, estabelecendo cadeias de suprimento excludentes que privilegiam lealdade a Washington em vez de eficiência ou competitividade.

A dimensão simbólica também é crucial: a Venezuela preenche o papel de inimigo que ameaça o “modo de vida tradicional americano” através de imigração e narcotráfico, mobilizando preconceitos arraigados da base trumpista.

Desmontando as justificativas oficiais

As três narrativas mobilizadas para legitimar a intervenção – defesa da democracia, combate ao narcotráfico e intervenção humanitária – desmoronam sob escrutínio mínimo.

O argumento democrático é insustentável vindo de Trump, que ridicularizou publicamente o uso da “defesa da democracia” como justificativa para intervenções imperiais. Seu histórico confirma o cinismo: alianças com ditaduras do Golfo Pérsico e apoio ao golpismo de Bolsonaro. O problema nunca é a ausência de democracia, mas a falta de alinhamento com Washington.

O argumento antidrogas revela-se fraudulento quando Trump perdoa Juan Orlando Hernández, ex-presidente hondurenho condenado nos EUA por narcotráfico em escala industrial. O narcotráfico serve como narrativa conveniente contra adversários; torna-se irrelevante quando o réu é aliado estratégico.

A justificativa humanitária é obscena vinda de uma administração que apoia o genocídio israelense em Gaza – onde mais de 60 mil civis palestinos, incluindo 18 mil crianças, foram mortos. Ademais, bombardeios e bloqueio naval dos EUA contra a Venezuela agravaram o sofrimento da população que supostamente pretendiam aliviar.

A operação militar e repercussões regionais

A escalada coercitiva seguiu roteiro previsível: intensificação de sanções, bloqueio naval, operações de forças especiais e CIA com setores da oposição e militares desertores, culminando no sequestro de Maduro em 3 de janeiro de 2026. Trump imitou o padrão de intervenção da Diplomacia do Dólar do início do século XX, como no bloqueio à Venezuela em 1902 que levou ao corolário Roosevelt à Doutrina Monroe.

As declarações de Trump foram sinceras: os EUA iriam “administrar o país” e usar receitas petrolíferas para “pagar a operação militar e reconstruir a Venezuela”. Não há dúvidas: controle direto sobre recursos estratégicos e reorganização do Estado venezuelano segundo interesses imperiais.

Cuba, Nicarágua e Colômbia são os alvos mais prováveis em seguida. Trump já os ameaçou, e o precedente venezuelano demonstra que não é retórica vazia. México, Brasil, Dinamarca (Groenlândia) e Canadá encontram-se em alerta mediato.

A América Latina não responde uniformemente. A Argentina de Milei oferece contraexemplo: alinhamento total recompensado com US$ 40 bilhões. Este padrão confirma a natureza transacional: países subordinados recebem apoio financeiro; resistentes enfrentam coerção crescente.

Contudo, a resistência equatoriana a bases militares estrangeiras, confirmada em referendo em novembro de 2025, demonstra que a imposição da vontade de Washington enfrenta obstáculos mesmo em países pequenos.

Brasil, China e os limites do unilateralismo coercitivo

A estratégia trumpista enfrenta limites estruturais significativos. Europa, Japão e Coreia do Sul cederam rapidamente devido à dependência militar dos EUA, sendo forçados a pagar tributo para manter o império americano. O Brasil manteve resistência relativamente bem-sucedida por vantagens específicas: a China consolidou-se como principal parceiro comercial; o Brasil acumulou reservas internacionais substanciais; a diplomacia brasileira cultivou relacionamentos através dos BRICS e outras plataformas do Sul Global.

A campanha de Lula pela desdolarização, intensificada após visita à China em abril de 2023, representa desafio direto ao controle estadunidense sobre o sistema monetário internacional. Propostas de liquidação bilateral em moedas nacionais, discussões sobre moeda comum dos BRICS e diversificação de reservas corroem gradualmente a capacidade de Washington de empregar sanções financeiras como arma geopolítica.

Os limites mais fundamentais da “Doutrina Donroe” transcendem qualquer país específico. Manter ocupações militares por períodos longos gera custos fiscais e políticos proibitivos, lição amarga do Iraque e Afeganistão. Sondagens mostravam que 55% dos estadunidenses rejeitavam a perspectiva de invadir a Venezuela.

Mais importante: os EUA são incapazes de apresentar propostas de desenvolvimento que rivalizem com as chinesas. Enquanto Washington condiciona acesso ao mercado à submissão política e brande sanções como ferramenta punitiva, Pequim disponibiliza infraestrutura concreta, crédito de longo prazo, compartilhamento de tecnologias e mercados em expansão, sem exigências políticas onerosas. Esta assimetria cria vantagem estrutural chinesa que tarifas punitivas e ameaças militares não neutralizam completamente.

O risco de blowback geopolítico é real: cada ação coercitiva dos EUA fortalece a narrativa chinesa de que Washington ameaça a soberania do Sul Global, impulsionando alinhamento mais estreito com Beijing. A invasão da Venezuela fornece evidência dramática, potencialmente acelerando a formação de blocos que a estratégia de Trump ostensivamente pretende prevenir.

Os dados estão lançados

A intervenção militar na Venezuela e o sequestro de Maduro constituem violação flagrante do direito internacional e da Carta da ONU. Independentemente de qualquer avaliação do governo venezuelano, o princípio da não-intervenção militar unilateral representa conquista civilizatória preparada desde Vestfália (1648) que não pode ser descartada sem consequências catastróficas.

O precedente é seríssimo. Se os EUA podem invadir país soberano e assumir controle sobre seus recursos com justificativas transparentemente fraudulentas, nenhum país está seguro sem forças armadas dissuasórias ou alianças militares fortes. A normalização de intervenções unilaterais destrói qualquer pretensão de sistema internacional baseado em regras. O imperador fica nu.

Paradoxalmente, a escalada militar revela mais fraqueza que força. Um hegemon confiante não precisa recorrer a invasões para assegurar acesso a recursos ou mercados. A disposição de empregar força direta reflete erosão de formas mais sutis de dominação.

O sequestro de Maduro enfraquece, mas não elimina o chavismo na Venezuela. Tampouco resolve contradições estruturais do declínio hegemônico dos EUA: não conseguem oferecer modelo de desenvolvimento atrativo; não possuem capacidade fiscal para Marshall Plan hemisférico; não podem reverter desindustrialização através de tarifas punitivas. O controle sobre petróleo venezuelano não restaura a centralidade dos EUA nas cadeias produtivas globais.

Alternativas à subordinação existem, mas exigem coordenação política e coragem estratégica. O fortalecimento de plataformas regionais (CELAC, UNASUL, BRICS) oferece espaços para resistência coletiva. Integração Sul-Sul reduz vulnerabilidade à coerção econômica. Diversificação de reservas e sistemas de pagamento alternativos minam o poder das sanções financeiras.

A lição fundamental: soberania isolada é vulnerável; apenas coordenação coletiva contrabalança o poder imperial. O desafio para governos progressistas na América Latina e no Sul Global é transformar indignação retórica em cooperação efetiva. O precedente foi estabelecido. O que está em jogo determinará se o século XXI será marcado pelo ressurgimento do imperialismo militar predatório ou pela consolidação de ordem internacional genuinamente multipolar.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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