Milton Rondó

[email protected]

Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

O racismo estrutural e o preconceito como origens da barbárie

A repetição da mentira de que os males da sociedade vinham das pessoas diversas levou parte daquela mesma sociedade a não buscar as raízes do engano

Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Foto: MAURO PIMENTEL / AFP
Apoie Siga-nos no

“Seja severo ao julgar a si mesmo e gentil ao julgar os outros. Assim, você não terá inimigos.”
Sabedoria chinesa.

O provérbio aplica-se tanto a indivíduos quanto a coletividades.

Entretanto, não exime a busca das raízes mais profundas dos males da sociedade atual; em primeiro lugar, o desrespeito de uma parte das forças militares a todo e qualquer direito humano.

O recente assassinato de Genivaldo pela Polícia Rodoviária Federal, em uma câmara de gás improvisada, em Sergipe, inclui-se na extensa lista de violações dos direitos humanos a que o País assiste atônito e na qual se inclui a chacina da Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, ocorrida também na semana passada, em que 23 jovens foram trucidados pela polícia carioca.

As origens dessa barbárie não estão longe do racismo estrutural e do preconceito com pobres e doentes mentais.

Vale lembrar que, coincidentemente, as primeiras execuções feitas pelo nazismo foram de doentes mentais, também em câmaras de gás móveis, lá, disfarçadas de ambulâncias.

A repetição da mentira de que os males da sociedade vinham das pessoas diversas levou parte daquela mesma sociedade a não buscar as raízes do engano.

Em A dama dourada (editora José Olympio), Anne-Marie O’Connor cita, de forma apropriada, Einstein: “Qualquer absurdo pode se tornar importante, desde que milhões de pessoas acreditem nele.”

Infelizmente, esse axioma foi confirmado quando grande parte da população brasileira apoiou o golpe de 2016, que levou à eleição do genocida, ocupante do Palácio do Planalto.

A extrema-direita utiliza métodos muito similares em quaisquer latitudes ou longitudes. Por isso, faz-se necessário estudar a história do fascismo e do nazismo, para melhor compreendermos a atualidade brasileira.

Naquela mesma obra, a autora narra sobre a sorte da judia Berta Zuckerkandl: “Muitos amigos de Berta, como era o caso de Felix Salten, já haviam fugido da Áustria. Ele sabia muito bem que homens capazes de queimar exemplares de Bambi em praça pública estavam prontos para fazer coisas muito piores. Berta havia buscado refúgio no sanatório, juntamente com seu amigo Egon Friedell. Ele andava perturbado e, nos passeios que fazia pelo parque em companhia de Berta, de vez em quando se surpreendia falando mal de si mesmo…Friedell sentia-se culpado. Mesmo intelectuais adversários do nazismo, como ele próprio, tinham jogado fora um precioso tempo no mundo da cultura; tinham deixado para os políticos, que haviam preparado aquele presente fratricida [a invasão da Áustria pela extrema-direita] o ‘sórdido’ negócio de governar. ‘Nós temos de pagar pelos pecados que cometemos’, ele repetia o tempo todo aos ouvidos de Berta.”

Com efeito, uma das técnicas da extrema-direita é demonizar a política, de sorte a deixar o campo desimpedido para seus jogos de espoliação dos bens coletivos e individuais, a própria vida, em primeiro lugar.

Tudo o que é público – sejam cargos eletivos ou empresas estatais – torna-se vilão, espaço em que a “meritocracia” seria violentada; a justiça violada pelo compadrio; e a cultura “popular” desidratada por uma outra cultura, que é estigmatizada, uma vez que inacessível aos inimigos dos livros, dos filmes, do teatro etc.

Em Essa dama bate bué! (editora Todavia), Yara Nakahanda Monteiro percorre outro caminho, de redenção, sobre as possibilidades e os limites das palavras, trajeto permite extrapolação para a linguagem ou as linguagens da literatura, do cinema ou dos palcos: “Desengane-se quem acredita que, pelo verbo, tudo se explica melhor. Muitas vezes, tem-se o entendimento sem se fruir das palavras…não há certeza: no tempo de paz, não deviam existir as desgraças do tempo da guerra.”

Como transmitir conhecimento? Como construir juntos sabedoria? Como encontrar uma linguagem comum que permita compartilhar análises, projetos e sonhos?

Eduardo Galeano recorda-nos em Os filhos dos dias (editora L&PM) a sabedoria dos nativos das fontes do rio Orinoco: “Para ver os mundos do mundo, mude seus olhos. Para que os pássaros escutem o seu canto, mude a sua garganta. Isso dizem, isso sabem, os antigos sábios nascidos nas fontes do rio Orinoco.”

Rompendo parâmetros tão profundos quanto os da linguagem, Lina – uma biografia (editora Todavia), de Francesco Perrota-Bosch, traz a reflexão da arquiteto (aprendemos na biografia que ela preferia o título no masculino) Lina Bo Bardi: “Mas o tempo linear é uma invenção do Ocidente, o tempo não é linear, é um maravilhoso emaranhado onde, a qualquer instante, podem ser escolhidos pontos e inventadas soluções, sem começo nem fim.”

Isso vale para o bem e, infelizmente, também para o mal, ainda que tenhamos certeza da vitória do primeiro sobre o segundo, pois a biografia nos esclarece os alicerces da fé que guardava: “…na sua concepção, a filosofia era um campo mais para generalistas que para especialistas. Lina definia o filósofo como um técnico cuja ‘especialização é pensar’ e, portanto, disse que ‘cada homem é nesse sentido filósofo, se não for patologicamente idiota.”

Como vemos, Lina também reconhece os limites do bem: fascistas, nazistas, ambas as categorias patologicamente idiotas, não conseguem pensar, exprimir ou buscar algo que seja próximo ao bem comum; só partilham a divisão, a exclusão, o desejo infantil de dominação. Por isso, precisam ser vencidos nas urnas e nas ruas.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

Milton Rondó
Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Tags: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.