O que quer Bolsonaro ao trazer a Copa América para o Brasil

Desde os anos 1930 até recentemente, os Mundiais de futebol e as Olimpíadas serviram aos apetites dos políticos autoritários

Foto: Carl DE SOUZA / AFP

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Opinião

No conturbado horizonte político de Jair Bolsonaro, a Copa América despontou como uma nesga de esperança para “salvar a bola em cima da linha”, como diz a linguagem popular. Acho que a redonda ultrapassou a linha fatal em mais de meio metro. Como não me aconselho com o pastor Malafaia, posso estar enganado. Essa nem o VAR conserta.

Na posteridade das trapalhadas planaltinas, Argentina e Colômbia devolveram à Conmebol as honras de sediar a competição. Obedecendo à rapidez de suas genuflexões, o presidente da CBF, Rogério Cabloco, tratou de oferecer ao Brasil de Bolsonaro a oportunidade de receber as seleções nacionais da América do Sul. Jogo feito. O presidente convocou alguns ministros para organizar o torneio, com data marcada para o pontapé inicial em 13 de junho do corrente ano. Depois da avalanche de reprovações e críticas, o chefe da Casa Civil, general Ramos, lançou dúvidas sobre a realização do evento esportivo, até Bolsonaro confirmar: haverá, sim, Copa América em terras brasileiras.

 

 

O episódio sugere considerações a respeito das relações entre os esportes de massa, o futebol em particular, e as políticas manipuladoras que frequentam os gabinetes de regimes autoritários e totalitários.

Em artigo escrito no livro National Identity and Global Sports, Robert Gordon e John London apresentam a interpretação dos propósitos e movimentos do fascismo italiano na Copa do Mundo de 1934, a segunda na história da Fifa. A Itália venceu, uma vitória que proporcionou as condições, quatro anos depois, para uma defesa bem-sucedida do título em Paris.

Essas vitórias coincidiram com uma fase importante na história do regime fascista. As conquistas no ludopédio mundial caminharam lado a lado com a guerra na Abissínia, o envolvimento na Guerra Civil Espanhola, a formação do Eixo com a Alemanha nazista e a aprovação de leis raciais antissemitas.

Para os apressadinhos, cumpre advertir que não se trata de atribuir as vitórias do time italiano a manipulações de resultados ou favorecimentos no campo. As equipes italianas de 1934 e 1938 dispunham de qualidade individual e coletiva para abocanhar os títulos.

A questão é outra. Durante esse período, atingiu-se o auge nas políticas sociais totalitárias do regime, incluindo a exploração da mídia de massa. Nesse movimento, o esporte foi amplamente utilizado como meio de penetração capilar e controle da sociedade italiana. Examinando o Mundial de 1934 e sua encenação midiática, Gordon e London colocam o evento “na rota da fabricação de consenso e da construção de uma religião cívica e nacionalista através de rituais como o esporte e mitos do italiano forte, heroico e puro”.

Antes das finais da Copa do Mundo de 1938, rumores sussurravam que Mussolini teria enviado um telegrama para a equipe italiana proclamando: Vincere o morire! (Vencer ou morrer). As Olimpíadas de 1936 são outro caso crucial para o estudo do esporte moderno em suas relações com a política autoritária ou totalitária. Primeiro, o megaevento foi utilizado explicitamente para a celebração de um regime político. Em segundo lugar, os nazistas mobilizaram uma máquina de propaganda de sofisticação sem precedentes para a documentação do evento.

Desde os anos 1930 até recentemente, os Campeonatos Mundiais de Futebol e as Olimpíadas serviram aos apetites dos sistemas políticos autoritários. Hitler tratou de transformar as Olimpíadas de 1936 em celebração da superioridade da raça ariana e do Reich de Mil Anos. Não contava com o talento de Jesse Owens, o incrível atleta negro americano que simbolizou a vitória sobre o racismo e seus ideólogos.

O modelo não sucumbiu à passagem das décadas. Na gestão do brasileiro João Havelange, a Fifa “modernizou-se”, virou máquina prepotente de fazer “caixa” à custa dos adeptos do esporte mais popular do mundo. Entre outras proezas e façanhas, a entidade de Havelange foi cúmplice dos ditadores argentinos na Copa de 1978, marcada pelo vergonhoso desempenho do Peru no jogo contra os donos da casa.

Theodor Adorno, ao investigar as origens psicossociais do nazismo e outros totalitarismos, concluiu que tanto o nazismo quanto a indústria cultural trabalham em um nível psicológico profundo, reforçando o narcisismo que ele alegou ser sintomático nos indivíduos que habitam os escaninhos da sociedade capitalista de massa. Sem autonomia suficiente do ego, os narcisistas são virtualmente indefesos contra as técnicas de persuasão da indústria cultural.

PUBLICADO NA EDIÇÃO N° 1160 DE CARTACAPITAL, EM 3 DE MAIO DE 2021.
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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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