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O PT e o dilema do prisioneiro

Opinião,Política

Uma pergunta vem mobilizando corações e mentes desde pelo menos o impeachment de Dilma Roussef: Lula será mesmo candidato a presidente?

Se até o último dia 5 de agosto a incerteza das pretensões da manutenção da candidatura de Lula ainda era a tônica nos debates e sondagens, na quarta-feira 15 o PT extinguiu tal indefinição se submetendo aos riscos intrínsecos à escolha de registrar a candidatura puro-sangue Lula-Haddad.

Certamente o tempo dos analistas políticos, as prosas etílicas e as conversas matinais Brasil afora tiveram a questão reformulada para: permitirão que Lula seja candidato?

Podemos enxergar tal cenário a partir da alegoria do dilema do prisioneiro em uma literalidade impensável alguns anos atrás, onde dois presos podem ter recompensas ou castigos a depender das escolhas de um e de outro. A coincidência vinda da metáfora e presente na vida política eleitoral é que um dos atores realmente está preso, mas o outro ator, capaz de estabelecer a interação apregoada pelo dilema, não.

O dilema do prisioneiro é um problema da teorias dos jogos que faz referência entra cooperar e trair.
Nele, é suposto que cada jogador, de forma independente, quer aumentar ao máximo a sua própria vantagem sem prejudicar o outro jogador.

Estamos nos referindo ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e em específico a Rosa Weber que assumiu a presidência da corte eleitoral até 2020 tendo em vista que parte de suas funções será lidar com os processos decorrentes do pleito que se avizinha.

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O dilema do prisioneiro tem como premissa fundamental a restrição ao acesso a informações relevantes para a tomada de decisão, como em um jogo de azar. Portanto, está, sim, imbuída de riscos, mas não apenas. A conquista da vantagem é possível a partir do momento que um dos jogadores é capaz de introduzir incerteza aos demais competidores, dado que ações individuais podem afetar a todos.

Vamos nos ater aos dados objetivos presentes na decisão do PT de protocolar a chapa puro sangue Lula-Haddad. Ao seu lado está o favoritismo presente nas pesquisas eleitorais, já que Lula mantém uma consistente intencionalidade de votos em torno de 30%, o que o coloca no segundo turno de uma eleição fragmentada. É difícil desprezar tal potencial. Assim, há a emergência de uma interação estratégica baseada no controle do tempo.

Do lado do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), que deverá dar a cartada final, a vantagem está na definição da temporalidade dos julgamentos. Cobranças de imparcialidade e cumprimento dos ritos judiciais pelos favoráveis à manutenção da chapa, e de celeridade por parte dos competidores e outras esferas da sociedade como o fantasmagórico mercado, são as jogadas permitidas. De toda forma, o PT fica em desvantagem se, como tudo indica, Lula for declarado inelegível com base na Lei da Ficha Limpa.

Mas como estamos falando de uma interdependência a mútua, o tempo também pode ser uma vantagem para a chapa, excluindo o dado de a prisão é um fato inalterável a curto prazo, portanto uma informação disponível a todos.

Entre pedidos de cassação de candidaturas, contestação, produção de provas e defesa, o processo pode se estender até o dia 17 de setembro, data em que ainda é possível indicar outro concorrente, já pactuada na chapa triplex Lula sai entra Haddad e Manuela d’Ávila, do PCdoB.

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Nesse meio tempo, a estratégia de mimetizar Haddad a Lula no horário gratuito de propaganda eleitoral na rádio e na TV e nas peças veiculadas nas redes sociais dão o tom da jogada, mas acrescentamos também a possibilidade, ainda não descartada, de a foto de Lula aparecer na urna eletrônica.

Contudo, como os jogadores fazem as suas escolhas em situações de interação estratégica, o tempo em que Haddad ficará ausente dos debates e sabatinas e, consequentemente, de toda a discussão do dia seguinte e dos inúmeros memes produzidos instantaneamente nas redes sociais, nos parece um ponto negativo para alguém tão pouco conhecido pela população.

Dizem por aí que Manuela d’Ávila também é desconhecida – será mesmo? Presença cativa na internet, a integrante do trio não aparenta ser menos conhecida do que Ana Amélia, general Mourão ou Eduardo Jorge.

Se o controle dos processos judiciais é extremamente limitado ao jogador, ele vai ter que usar as armas, ou as qualificações que possui, e de forma tática tomar decisões com as informações que tem, prevendo as possíveis reações dos demais competidores. Esse é o pressuposto de uma ação racional, usar os meios adequados (e dentro das regras) para se chegar a determinados fins, a vitória na partida ou a vitória nas urnas.

Fica então a pergunta: é viável abandonar o capital político que Lula pode acrescentar estando na chapa com Haddad considerando a lealdade partidária, o carisma de sua liderança e uma imagem altamente fixada no imaginário dos eleitores?

Acrescentamos ainda: como os competidores decidirão enfrentar Lula? Como um opositor, como uma ideia ou apenas ignorando-o? E qual será a reação dos seus cativos eleitores?

Escolhas certamente permeada de riscos, que são inerentes ao jogo, pois fora isso há a cooperação como um ponto de equilíbrio onde todos perdem e ganham um pouco. No caso dos prisioneiros de nossa metáfora o dilema é o seguinte: se os dois negarem a culpa a pena é pequena; se ambos se acusarem a pena é mediana; se um confessa e outro se cala, o silencioso cumpre uma pena alta enquanto o acusador é libertado, e vice-versa (sendo esse o ponto de equilíbrio).

Mas o fato é que em uma eleição não há dois vencedores, ou mesmo não é possível escolher uma derrota menor: só a perda de um pode desaguar em ganho para o outro. E para o prisioneiro materializado em Lula a campanha começou faz tempo e faz tempo que ele não deixa de ser assunto.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-SP; professora da Fesp-SP; Pesquisadora do Núcleo de Estudo em Arte, Mídia e Política da PUC-SP e do Grupo de Pesquisa "Comunicação e Sociedade do Espetáculo" da Cásper Líbero; e editora da Revista Aurora.

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