O protesto não será noticiado

Por que a mídia brasileira minimizou as manifestações que a imprensa internacional cobriu diligentemente?

A cobertura foi esparsa, especialmente se for levada em conta a dimensão das manifestações (Foto: Nelson Almeida/AFP)

A cobertura foi esparsa, especialmente se for levada em conta a dimensão das manifestações (Foto: Nelson Almeida/AFP)

Glenn Greenwald,Opinião

Um estranho espetáculo midiático deu-se no último sábado 29. No País todo, vários protestos contra o governo Bolsonaro e em favor das vacinas receberam ampla cobertura na imprensa internacional. Entretanto, esses protestos foram virtualmente ignorados por alguns dos principais veículos brasileiros de comunicação.

“Dezenas de milhares de brasileiros saem às ruas para exigir o ­impeachment de Bolsonaro”, noticiou o diário britânico The Guardian, em reportagem assinada pelo correspondente Tom Phillips, no que se tornou a notícia mais lida do dia no site. “Oponentes do presidente Jair Bolsonaro realizaram os maiores protestos desde o início da pandemia”, foi a manchete de The New York Times em um longo artigo assinado pelo chefe da sucursal brasileira, Ernesto Londoño, e pela repórter Flávia Milhorance. “As manifestações de sábado aumentaram ainda mais a pressão sobre Bolsonaro, enquanto o Senado brasileiro conduz um inquérito sobre as ações do governo na pandemia e a demora no programa de vacinação”, registrou a BBC.

Leitores e espectadores de alguns dos principais jornais e redes de notícias brasileiros, por outro lado, mal ficaram sabendo que esses protestos aconteceram. A cobertura foi esparsa, especialmente se for levada em conta a dimensão das manifestações – bastante grandes e significativas – e o fato de que esses mesmos veículos ativamente promoveram e cobriram exaustivamente os protestos contra o governo Dilma Rousseff em 2016.

Mas por quê? O que explica esse comportamento? Esses veículos não são pró-Bolsonaro. Foram publicadas nesses meios de comunicação várias reportagens expondo malfeitos do governo, assim como se podem ler nas colunas de opinião inúmeras críticas ao presidente e seu governo. Por que o apagão na cobertura? Parte se explica pelo desdém, nutrido há décadas, em relação aos movimentos de esquerda e protestos de rua. Esses veículos amaram os protestos anti-Dilma de 2016 porque se alinhavam à sua ideologia, mas passaram décadas desprezando – e muitas vezes demonizando – manifestações similares organizadas pela esquerda, por movimentos sociais e sindicatos. Esse viés está institucionalizado no DNA desses meios de comunicação e, certamente, foi um dos fatores que os levaram a minimizar a importância desses protestos e evitar qualquer cobertura que pudesse fortalecê-los.

Um fator mais importante é, porém, a ideologia desses veículos. Ainda que sejam definitivamente anti-Bolsonaro, eles sempre foram – e continuam a ser – veementemente antipetistas e antilulistas. Devido à percepção de que esses protestos se originaram nesse campo, os meios de comunicação os viram como um movimento adversário, e não quiseram “dar ibope”.

A ideologia desses veículos – e de seus chefes e donos – sempre foi, e continua a ser, o centro-direita pró-establishment. Seu maior sonho é o retorno de uma figura tucana, nos moldes de Fernando Henrique Cardoso, ao poder. Geraldo Alckmin, José Serra, Aécio Neves, são estes que eles querem. E por isso seguem na busca desesperada por uma terceira via imaginária que possa evitar um segundo turno entre Lula e Bolsonaro.

Ou seja, a recusa – ou a relutância, a depender do veículo – em cobrir esses protestos não se deu por esses veículos serem pró-Bolsonaro, mas porque o fanatismo antipetista que os anima há tanto tempo – e, claramente, seu amor pelo establishment tucano – os deixa extremamente relutantes em fazer qualquer tipo de cobertura que possa ser lida como benéfica a Lula e ao PT. Como sempre, esses veículos não são movidos pelos princípios de neutralidade jornalística que tanto dizem defender, mas pelo ativismo ideológico a que sempre serviram. É por isso que aqueles que buscam uma cobertura jornalística clara e genuína precisaram recorrer às poucas exceções entre os veículos brasileiros – a Folha de S.Paulo, esta revista, veículos independentes – ou a meios internacionais, seja os que publicam no Brasil (como o El País), seja os que reportam do exterior (The Guardian, BBC, New York Times).

Publicado na edição nº 1160 de CartaCapital, em 3 de junho de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Colunista de CartaCapital

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