O processo de recolonização do mundo avança

'Não foi outro o sentido do último golpe de estado no Brasil, o de 2016. O modelo brasileiro inspirava a libertação'

Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA

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Opinião

“A linguagem da verdade é sempre simples”.
Sêneca.

Na medida em que cresce o processo de recolonização do mundo, aumentam os ataques aos que se opõem e se evidenciam as estruturas de dominação, traduzidas, cada vez mais, em repressão pura e simples.

Não foi outro o sentido do último golpe de estado no Brasil, o de 2016. O modelo brasileiro inspirava a libertação e a política externa o traduzia. Dessa forma, o risco de rompimento das cadeias de dominação tornou-se insuportável para o império.

O mesmo cerco pode ser visto com relação à Bolívia, à Venezuela, à Nicarágua e à Cuba.

Isso não exime todos os mencionados de déficits de participação democrática, fatais, no caso brasileiro, e que se provaram inferiores aos processos participativos, ainda que defeituosos, nos outros quatro casos acima referidos.

Por outro lado, aumenta a dependência das oligarquias nacionais em relação às internacionais – por serem estas as fiadoras das rupturas institucionais que garantem a dominação às elites crioulas, incapazes de manter o poder sob o sufrágio universal. Por conseguinte, assistimos à transferência para os fiadores do Norte das cadeias de produção mais avançadas e rentáveis, resultando, nas periferias, em processo de desindustrialização e retorno às matrizes produtivas mais atrasadas, como o agronegócio e a exploração mineral, cujos preços se degradam a cada dia em relação aos produtos industrializados, que, por aquela dependência, resultam crescentemente importados.

Na tentativa, inútil, de compensar essa relação francamente desfavorável, o agro e as mineradoras avançam sobre as próprias áreas vitais para a sobrevivência da espécie: florestas, quilombos, reservas indígenas e agricultura familiar. Disso, resultam danos irreversíveis ao meio-ambiente: menos chuvas; mais desertificação; eventos climáticos extremos; menor controle de pragas e zoonoses – pelo aumento do desequilíbrio ecológico, tudo resultando em maior extinção de espécies e, consequentemente, menor controle de pragas por parte dos predadores naturais.

O núcleo da dominação desnuda-se, diante disso, pois a repressão não mais pode limitar-se à dominação ideológica e cultural da grande mídia, que vai-se tornando insuficiente para conter a conscientização da população, cada dia mais desesperada pelas condições subumanas a que é relegada. As revoltas na África do Sul são o exemplo mais patente desse desespero e de seu caráter caótico: por um lado, percebem o lawfare como instrumento de dominação (a prisão do ex-presidente Jacob Zuma foi o estopim da revolta); por outro, atacam diretamente os centros de consumo, dos quais compreendem que foram alijados.

Evidenciam-se, assim, como centros da dominação local, além da oligarquia midiática, as forças armadas, que se voltam à repressão interna; setores do judiciário; e as igrejas, sobretudo as neopentecostais, mas não apenas.

São esses setores que paulatinamente se substituem às oligarquias que perdem poder, como se pode notar pelas próprias benesses que passam a receber: aumentos desproporcionais de salários e outras prebendas; isenções de impostos e defesa de seus interesses particulares – como se fossem coletivos – por parte do estado.

A recente viagem à Angola do general e vice-presidente Hamilton Mourão, ilegítimo, assim como o titular, ambos “eleitos” graças à ilegal Lava Jato, como bem assinalou a advogada Valeska Martins, é simbólica.

Em incursão àquele país africano, Mourão teria defendido os interesses de uma igreja neopentecostal e da respectiva rede de TV, para isso, utilizando o capital diplomático do Brasil com aquele país, em apropriação indébita, portanto, do público pelo privado, postulando, como agente público, interesses particulares daquele setor oligárquico.

 

 

A propósito, noto a preferência de usar o termo “oligarquia” a “elite”, por acreditar que o último denota algum tipo de capital cultural, de que as oligarquias coloniais – a brasileira em primeiro lugar – estão desprovidas.

Em defesa dessa posição, menciono reportagem de CartaCapital, sobre o estudo Retratos da Leitura no Brasil (Editora Sextante), organizado por Zoara Failla. Após 8.076 entrevistas presenciais em todo o País, entre 2019 e 2020, o estudo concluiu que não estudantes leem mais do que estudantes e que as classes C e E leem mais do que as classes A e B. Entre os que ganham 1 e 2 salários mínimos, o índice de leitura chega a 50%. Já os que ganham mais de 10 salários mínimos são os que menos leem.

A esse respeito, vale citar Leôncio Basbaum, em História Sincera da República, em que reproduz entrevista, de 1967 – mas ainda atual – do Almirante Saldanha da Gama, à época ministro do Supremo Tribunal Militar, à revista Galera, dos alunos da Escola Naval, em que aquele militar diz, com surpreendente sinceridade: “O militar continua a interferir violentamente nos destinos da nação; ele está em toda parte, defendendo uma coisa que ele mesmo denomina de segurança nacional e que eu chamo de segurança interna. O militar não vive sua finalidade básica que é o preparo para a defesa externa do país. O inimigo do militar é a população civil; ele existe para ocupar o País; está em toda parte, menos no quartel, que é onde deveria estar, cumprindo sua finalidade.” Complementa o Almirante, de forma premonitória: “…o Brasil é um país totalmente despersonalizado sob o ponto de vista de relações entre nações. Ele não se preocupa em absoluto com seu prestígio, nem com seus interesses comerciais e econômicos. O militar brasileiro preocupa-se apenas com o que acontece dentro de suas fronteiras, ele deseja ter o seu prestígio assegurado pela interferência maior ou menor que possa ter na vida interna da nação. Ele é capaz até de permitir uma ocupação do país, contanto que continue a ser assegurado a ele o direito de dirigir e policiar internamente a nação.”

Por essas razões, nada há de estranhar sobre não haver qualquer menção à comemoração do bicentenário da independência do Brasil no ano que vem: colônias não comemoram independência, por suposto.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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