Alberto Villas

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Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

O paciente

Já quase curado, não sai da sua cabeça a imagem de uma população doente, nas portas dos hospitais

Foto: Fiocruz/Reprodução
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Alguém deve estar perguntando onde foi parar o cronista que durante anos e anos ocupou este espaço aqui.

Ele não teve pernas para caminhar, mãos firmes para digitar, cabeça para pensar. Durante mais de dois anos, toda noite, por volta de oito e meia, ele se instalava no sofá cheio de almofadas e ficava, ansioso, esperando os números da Covid, ainda chamada de Covid-19.

Era sagrado. Toda noite, era uma surpresa. Duzentos mortos, trezentos, às vezes mais de mil. Sem sair de casa, nem mesmo no hall do apartamento, ele espiava a vida lá fora, a rua vazia, de tempos em tempos passava uma alma viva, máscara no rosto, indo não sabe pra onde.

Todo mundo tinha medo de abraçar, de beijar, de estender e apertar a mão. Assistia a tudo aquilo pela televisão, a agonia dos médicos, enfermeiros, técnicos, que não podiam abandonar o barco. Aquelas fotografias de valas e mais valas e os mortos sendo jogados lá dentro, era um horror para ele, que custava a dormir.

Ninguém se despedia de ninguém. Nada de uma última flor, cerimônia do adeus, um choro. Ninguém enxergava o futuro, os próximos dias, meses, anos. As escolas fechadas, os restaurantes, as academias. Não havia balada, não havia nada. O tempo foi passando e aquela agonia só aumentando. Ele nunca tinha visto de perto aquela agonia.

Semana passada, foi a um hospital, com todos os sintomas de dengue. Dor nos olhos, de cabeça, dor no corpo, amargor na boca, cansaço.

O primeiro susto foi ver a multidão na porta do hospital, como se fosse a saída de uma rave. Era uma fila para poder entrar no pronto-socorro. Todos com caras abatidas, cabisbaixos, retrato da dor.

O exame confirmou dengue, e ele voltou pra casa com o diagnóstico nas mãos e todas as instruções. Beber cinco litros de água por dia, um comprimido de doze em doze horas, um antialérgico para aliviar a coceira. A televisão fala do assunto, mostra as filas, aponta os números, chama a atenção para os cuidados.

A vacina, pouca, mas vacina, o governo a favor dessa vez. Já quase curado, não sai da sua cabeça a imagem de uma população doente, nas portas dos hospitais. Foi quando caiu a ficha. Dengue não é Covid, mas é dengue.

Será que ele vai assistir ao fim do mundo pela televisão?

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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