O olavismo, a ascensão e a queda do bolsonarismo

Olavo de Carvalho é exemplo de como parece ultrapassado tentar conferir o mínimo de racionalidade ao debate político

O olavismo, a ascensão e a queda do bolsonarismo

Justiça,Opinião

Denis Russo Burgierman, repórter da revista Época, matriculou-se durante três meses no Curso On-Line de Filosofia de Olavo de Carvalho, considerado guru da turma que chegou ao Planalto em 2019. Seu longo relato exposto na revista deixa claro como o auto-denominado filósofo dedica suas aulas muito mais a xingar desafetos e a rebater as críticas que lhe são feitas do que a falar sobre filosofia (até então nenhuma novidade para quem o acompanha nas redes sociais).

“Filosofia, porra!”, celebrou um de seus alunos ao perceber que a aula de 12 de janeiro começou abordando os sofistas. Estava cansado, muito certamente, das sucessivas exposições sobre política e mídia que acabavam terminando em ataques pessoais. Para Olavo, animar seu séquito de olavetes com teorias conspiracionistas, vulgatas anti-esquerda e ofensas infantis contra críticos tem inquestionável prioridade sobre Sócrates, Platão e Aristóteles.

Em uma das aulas, Olavo afirma que não há nada a comemorar com o fim da Idade Média e o surgimento da modernidade. Nada mais próximo do bolsonarismo que o elogio ao obscurantismo e a negação ao racionalismo cientificista moderno, como já apontamos em outro momento.

Dentre os delírios olavianos, por exemplo, encontra-se o de que fumar não faz mal à saúde – embora ele próprio esteja pedindo dinheiro na internet para pagar uma cirurgia de urgência que retirou um tumor de sua traqueia – e o de que a Pepsi utiliza células de fetos abortados para adoçar refrigerantes, este já considerado um clássico.

Em outra aula, afirmou que não dá opiniões sobre a questão da Terra plana porque não a estudou, reclamando que, em razão disso, “milhares de idiotas universitários (perdoem o pleonasmo) concluíram que sou adepto da Terra plana”. Em 2017, escreveu que tinha dúvidas acerca não só acerca da esfericidade do planeta, mas também do geocentrismo e do evolucionismo.

Olavo talvez seja a síntese de como ficou démodé qualquer tentativa de dar alguma racionalidade ao debate público. Nossa política externa, por exemplo, tornou-se uma mistura de subserviência canina aos EUA com teorias delirantes que giram em torno de conceitos esdrúxulos como “globalismo” e “climatismo”.

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No MEC, o ministro colocou como seu principal objetivo o combate ao marxismo, usando esse espantalho para ignorar situações concretas como os preocupantes índices de analfabetismo e de evasão escolar. Não é à toa que ambos são acólitos do olavismo, ungidos ao primeiro escalão da burocracia estatal pelas mãos do próprio guru.

Olavo não faz questão de esconder a natureza de suas táticas de disputa da hegemonia cultural, conceito gramsciano profundamente presente em suas exposições. “É aí que está o erro do pessoal conservador: imaginar que existe uma luta de ideias e que temos de derrotar o marxismo. Temos de derrotar é os marxistas”, disse, emendando para que seus alunos “não puxem discussão de ideias. Investiguem alguma sacanagem do sujeito e destrua-o”. O próprio Olavo reconhece que “nós não discutimos para provar que o adversário está errado. Discutimos para destruí-lo socialmente, psicologicamente, economicamente”.

Abundam sinais de que seus ensinamentos vêm de fato sendo levados a sério.

Recentemente, o submundo bolsonarista das redes foi reativado para defender a reforma da previdência e espalhar mentiras sobre aqueles que os seguidores do clã consideram inimigos. Foi a vez do STF entrar na reta dos homicidas de reputações, o que levou seu presidente, Dias Toffoli, a abrir uma investigação para identificar o foco da propagação de fake news contra os ministros da corte, as mesmas que contribuíram para a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Não seria surpresa se Olavo considerasse o STF um puxadinho do Soviete Supremo.

Se é a razão moderna que é a declarada inimiga do olavismo e do bolsonarismo, a amplitude de seus adversários não deveria se limitar à esquerda (embora, com certa honestidade intelectual, costumem classificar de esquerdistas e afins todos que não estejam ao seu lado). No meio do caminho está também quem não se considera desse campo mas, também, não concorda com o projeto obscurantista de Olavo e com o programa ultraliberal de Paulo Guedes, que se ampara da mesma forma em premissas não menos fantasiosas que as apregoadas pelo Bruxo de Virgínia[1].

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Olavo de Carvalho, o “Bruxo de Virgínia”. Foto: Vivi Zanatta/Folhapress

“Bruxo de Virgínia” é a maneira com que o ex-trotskista Demétrio Magnoli costuma se referir a Olavo. Em artigo publicado em 23 de março na Folha de S. Paulo, ele, uma figura do campo conservador, sintetizou de forma admirável a utopia olaviana ao observar que o ex-astrólogo pretende a volta a um “passado mítico de soberanias estatais absolutas, hierarquias patriarcais fundadas na tradição e respeito às liberdades naturais do colono armado”, ou, em resumo, à “fusão do conservadorismo romântico europeu com o nativismo individualista americano”. Falsear a realidade por meio da simplificação obtusa de suas representações é apenas estratégia, como ele mesmo deixa claro ao tanger seus alunos contra os marxistas.

A tentativa de negar a complexidade do mundo por meio de exposições que, embora estruturalmente sofisticadas, contêm ideias simples é um dos estratagemas identificados por Burgierman em seu diário. Faz parte, assim, ver seus adversários como esquerdistas, globalistas e abortistas mal-intencionados.

Os recentes ataques ao general Mourão indicam que o olavismo passou a considerá-lo um sócio do clube, racha que se tornou ainda mais explícito com a declaração do general Santos Cruz, ministro da Secretaria de Governo, de que o guru da seita é um desequilibrado. A arenga com a ala militar do governo acaba deixando claro que, embora o olavismo tenha contribuído para que Bolsonaro chegasse onde está, pode contribuir também para que caia.

Foto: Fernando Souza/AFP


[1] Sobre o Bruxo de Virgínia: https://www.justificando.com/2018/09/24/os-delirios-autoritarios-de-paulo-guedes/

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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