O Lula que enfrentará Bolsonaro precisa vestir o figurino centrista

Os eleitores 'centristas' vão decidir a eleição. Sem eles não há como derrotar o ex-capitão, escreve Esther Solano

Os ex-presidentes FHC e Lula. Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução Twitter

Os ex-presidentes FHC e Lula. Foto: Ricardo Stuckert/Reprodução Twitter

Opinião

Em meio a tanta tragédia, às vezes os números dão um pouco de esperança. Desta vez, a esperança chega por meio das pesquisas de intenção de voto para 2022. Segundo o relatório Exame-Idea de maio, com 1,2 mil entrevistados, Lula ganharia em todos os cenários de primeiro e segundo turno. Além do mais, a rejeição do ex-presidente está em 36%, enquanto o número daqueles que não votariam de jeito nenhum em Bolsonaro chega a 39%. Dados que aliviam, que oxigenam um pouco a atmosfera de fumaça densa do drama brasileiro.

A figura de Lula parece impor-se àquela de Bolsonaro, a primeira numa dinâmica de construção ascendente, a segunda em queda progressiva. Mas cuidado com a tentação de cair em ufanismos, com o ímpeto, mais do que compreensível, de nos precipitarmos a conclusões triunfalistas antes do tempo. Como em toda pesquisa, sempre há números que escondem interrogações: 46% dos eleitores ainda não sabem em quem votar. Na verdade, se a eleição fosse hoje, a dúvida ganharia, teríamos um segundo turno entre a indecisão e outro candidato. Metade dos brasileiros está confusa, perplexa, desconfiada. Busca ser seduzida, conquistada, mas só encontra abandono político.

O centro é que está indeciso, que vai definir, que precisa ser seduzido. Há como ganhar de Bolsonaro sem ir para o centro? Humildemente, acho que não.

Nas nossas pesquisas com bolsonaristas moderados, Camila Rocha e eu encontramos quatro elementos fundamentais de crítica a Bolsonaro que partem de sua base arrependida ou desiludida: ele é intolerante e autoritário, age de forma desumana na pandemia, o governo é instável e a gestão é caótica. Esses são os vetores principais para entender a frustração daqueles que votaram nele, mas hoje se sentem enraivecidos e ressentidos.

 

No lado oposto, temos a construção da imagem de Lula. Diante de um Bolsonaro que prefere o autoritarismo, o Lula do diálogo, perante um Bolsonaro que só chafurda no caos e na instabilidade, o Lula que governou o País com moderação, conciliação e crescimento. Na comparação com um Bolsonaro que ri dos mortos e nega a pandemia, o Lula que defende a vacina. Ainda falta muito tempo para a eleição e, no Brasil, mais do que em outros lugares, sabemos que em curtos espaços de tempo tempestades políticas podem arrasar tudo. A tendência é de que o cenário da pandemia melhore, pelo próprio desenrolar da vacinação, e que essa melhora favoreça o crescimento econômico mundial e nacional, oferecendo outra oportunidade a Bolsonaro.

O fato é que sua base tem, no entanto, se desintegrado. Os evangélicos não estão mais tão coesos a seu lado, os arrependidos se mostram irritados. Também é fato que as pesquisas indicam que a “terceira via” não terá vida fácil, está emperrada, não decola. Diante de um cenário ocupado por duas grandes forças subjetivas e políticas como o bolsonarismo e o lulismo, é difícil emergir com uma opção fora delas. Ciro Gomes que o diga. Pesquisa da consultoria Atlas feita apenas entre eleitores do Ceará, divulgada no dia 24 pelo jornal Valor Econômico, aponta Lula com 50,8%, enquanto Ciro aparece em empate técnico com o ex-capitão, na segunda posição, com 23,2% e 22,1%, respectivamente.

Muitos de nós temos críticas a Lula, ao PT, não poucas e não pouco importantes. Muitos de nós desejamos ar fresco no partido, mas os dados são claros: a eleição de 2022 passará forçosamente pelo ex-presidente. Candidato ou não, será uma figura imprescindível. Outros nomes, que hoje em dia reclamam da centralidade do ex-presidente, terão de se esforçar bastante se quiserem representar opções alternativas. Luciano Huck, João Doria, Ciro, Luiz Henrique Mandetta, Eduardo Leite, se quiserem ter chance, vão ter de acelerar muito, pois na frente tem gente grande.

Se Lula for o candidato escolhido para enfrentar o bolsonarismo, na minha modesta consideração, não tem como usar outro figurino a não ser o Lula do centro, um revival do Lula da conciliação, um déjà vu do Lula da concórdia. Sei que muitos gostariam de um Lula mais à esquerda, de um PT mais combativo na agenda ideológica, de uma proposta mais radical. Sim, eu também gostaria, mas dos 46% dos eleitores que estão à espera de serem conquistados, 60% avaliam o governo Bolsonaro como regular. O centro é que está indeciso, que vai definir, que precisa ser seduzido. O centro nos livrará de Bolsonaro. Há como ganhar de Bolsonaro sem ir para o centro? Humildemente, acho que não.

É isso, a foto de Lula com Fernando Henrique define o Lula que teremos, o Lula que é, o Lula que as pesquisas colocam hoje no primeiro lugar. Quem quiser outro Lula, não terá. Fico satisfeita que assim seja. Eu quero um Lula que dialogue com os bolsonaristas arrependidos e com aqueles que duvidam. Se é para ter um Lula candidato, que seja este.

Publicado na edição nº 1159 de CartaCapital, em 27 de maio de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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