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O jogo da segurança
Flávio Bolsonaro escolheu o campo. Resta saber se Lula vai entrar na disputa
Na quinta-feira 28, dois homens olharam para a mesma notícia e calcularam jogadas opostas. Em Washington, Flávio Bolsonaro posava para a foto que vinha caçando havia meses. Em Brasília, Lula reunia ministros, montava um grupo de trabalho, calculava os próximos passos. O Departamento de Estado dos EUA acabara de colocar PCC e CV na mesma lista do Hamas e do Hezbollah. Um sorria. O outro convocava reunião. Os dois sabiam que o placar não estava no comunicado de Marco Rubio, estava no porvir.
O que Flávio fez tem pouco a ver com combater facção. Tem a ver com voltar ao centro do jogo. Desde o tarifaço do ano passado, a família carregava um peso: o pai preso, o irmão morando na Flórida, e um agro que, depois de apanhar da tarifa imposta por Washington, preferiu manter distância do sobrenome que ajudou a provocá-la. Some a isso o caso Vorcaro pegando fogo nas páginas dos jornais.
A foto na Casa Branca é um gesto de reposicionamento. No meio do escândalo do Banco Master, Flávio achou uma pauta promissora e plantou a bandeira nela: a única agenda em que a esquerda gagueja desde sempre: segurança pública. Pegou um momento difícil e saiu dele com a imagem de quem entrega.
O lance de Flávio não foi marcar gol. Foi escolher o estádio. Quem decide isso começa em vantagem, porque joga em casa. A direita passa o ano tentando arrastar a eleição para o terreno dela. Não a economia, que melhorou e tira votos dela. Não o emprego, que voltou. O medo. A esquina mal iluminada. O filho que sai e a mãe que não respira até ele voltar. Segurança é o gramado onde a direita joga de meia inteira, com torcida e mando de campo.
O governo respondeu com soberania, e fez bem. O discurso está correto, e mais que isso, é necessário: nenhum país sério aceita que decisão sobre o seu território seja assinada do lado de fora. Mas a soberania, sozinha, é defesa que segura o ataque sem chegar à frente. O eleitor que sente medo não quer aula de direito internacional. Quer dormir sabendo que o filho voltou para casa. Juntamente com o discurso, precisa vir o resultado que o brasileiro veja, em português, com sotaque nosso.
Esse filme já passou no continente, e tem dois finais. Claudia Sheinbaum, no México, segurou a pressão de Trump com firmeza, recusou qualquer intervenção em solo mexicano, e ainda assim entregou: mandou quase 30 nomes do narcotráfico para os EUA, cooperou nos termos dela, sem subordinação. Manteve a soberania na voz e o resultado na mão. Gustavo Petro, na Colômbia, apostou quase tudo no discurso, transformou o confronto com Washington em bandeira e fez da soberania a sua plataforma. Segue impopular. A diferença entre os dois não foi quem estava mais “certo”. Foi quem colocou a entrega ao lado da razão.
É por isso que chama atenção o tom de comemoração de parte da esquerda diante do suposto “tiro no pé” de Flávio Bolsonaro. Há um campo político que tem o melhor argumento e se convence de que basta tê-lo. O País já viu esse roteiro antes: um lado com toda a razão de mérito assistindo o adversário converter essa razão em derrota de imagem. Ter razão não é ganhar. No Brasil, quase nunca foi.
E o relógio corre. Começa a Copa, o País vira o rosto para a televisão, a política entra num recesso de atenção que vai durar até agosto. O homem jovem, principalmente, troca o noticiário pela Seleção Brasileira e só volta a pensar em voto lá na frente. Quando o eleitor voltar a olhar, a pergunta que tiver sobrado na mesa decide muita coisa. Há um ano, a conversa era sobre o custo de vida, terreno em que o governo tem o que mostrar: a inflação cedeu, o emprego voltou. Mas a direita não quer essa pergunta. Quer a outra.
Se sobrar o medo, ela ganhou o sorteio do campo antes do apito. Porque eleição não se decide só por quem o eleitor prefere. Se decide por qual pergunta ele está respondendo quando fecha a cortina da cabine. E trocar a pergunta vale mais do que trocar a resposta.
Lula tem o jogo nas mãos, e é exatamente por isso que não pode entregar o campo. Fugir do tema da segurança seria deixar a bola com o adversário no melhor setor em que joga, a segurança pública. O caminho para a reeleição é o contrário: entrar nesse campo com a camisa do Estado.
A Polícia Federal que prende o bandido de colarinho branco, a inteligência que rastreia e sufoca o dinheiro do crime, a cooperação internacional que persegue o ativo lavado lá fora. O Estado que asfixia a facção pelo andar de cima, enquanto a polícia da esquina cuida do andar de baixo. Soberania na voz, resultado na mão. Porque, no fim, não ganha quem joga melhor. Ganha quem escolhe onde se joga. E esse apito, por enquanto, está na boca da oposição. •
Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O jogo da segurança’
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