O jogo da representação: Doria, vacina e a questão racial

Nos mantenhamos atentos com quem brinca com a vida (e morte) da população negra, escreve Carolina Melo

Governador João Doria e enfermeira Mônica Calazans. Foto: Divulgação Governo do Estado

Governador João Doria e enfermeira Mônica Calazans. Foto: Divulgação Governo do Estado

Opinião

Recentemente, Monica Calazans – mulher negra e enfermeira – foi a primeira pessoa a receber a CoronaVac, desenvolvida pelo Instituto Butantan de São Paulo. Em meio à emoção de finalmente termos uma vacina e, ao mesmo tempo, uma mulher negra ser a primeira vacinada, algumas questões me chamaram atenção, e sobre elas irei discorrer ao longo desse artigo. Para isso usarei o conceito representação.

Vamos lá então: a cultura é o meio onde os significados são compartilhados, sendo o repositório-chave de valores e significados. A linguagem – palavras, sons, objetos, etc. – é o meio privilegiado pelo qual damos sentidos e onde o significado é produzido e intercambiado – os significados só podem ser intercambiados pelo acesso comum à linguagem. E a representação, propriamente dita, é principal aspecto dos processos culturais e prática de significado através da linguagem. Dessa maneira, compreender as representações é compreender a cultura e até a história de determinada população.

Dito isso, agora é necessário conhecer a família Costa Doria e o que ela já representou no Brasil: Fernão Vaz da Costa, filho da maior autoridade portuguesa de seu tempo (Cristóvão Costa), chegou ao Brasil em 1549, junto com Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do país. Clemenza Doria chegou alguns anos depois e, depois de alguns casamentos, casou-se com Fernão.

Durante o período colonial, alguns nomes desse clã se destacam: o mais famoso é Antônio de Sá Doria (1590-1663), vereador e juiz de Salvador e provavelmente o homem mais rico daquela época. Outro importante é Antônio Marcelino Costa Doria, tenente que teve inúmeros filhos ilegítimos de escravas negras, deixando-os na extrema pobreza depois de sua morte. A família era dona de inúmeros engenhos em Salvador, São Francisco do Conde, Sergipe e Itaparica. Inclusive, a avó de Doria, Maria Carolina Barbosa de Oliveira, era prima de Ruy Barbosa – ele ordenou que todos os registros da escravidão fossem queimados.

Na história mais recente, Antônio Moitinho Doria, foi um dos fundadores da OAB e seu pai, João Doria, foi conhecido por ser um excelente marqueteiro, sendo responsável inclusive pela criação do Dia dos Namorados no Brasil.

A família Costa Doria é tradicional e fez riqueza em cima, principalmente, da escravidão. Em 2016, Doria adulterou seu compromisso com a erradicação do trabalho escravo e, no ano seguinte, defendeu a posição dos ruralistas sobre a portaria do Ministério do Trabalho que flexibilizou as regras de fiscalização do trabalho escravo.

 

Pois bem, entre 2020 e 2021, o mundo, mas principalmente o Brasil se viu diante da maior crise de saúde dos últimos tempos e, para piorar, em meio à incompetência do presidente, aos cortes e desvalorização da ciência. Diante desse caos, uma esperança: no dia 17 de janeiro de 2021, a primeira dose da vacina é aplicada em Monica, minutos após da aprovação pela Anvisa. A escolha de quem seria a primeira pessoa vacinada, no caso uma mulher negra, foi feita pelo próprio governador. Após “lágrimas de emoção” pelo seu próprio “ato heroico” o que fica? O jogo representacional. Isso tudo é uma tentativa de mudar os significados associados a ele.

A emoção consegue ressignificar o próprio histórico escravocrata da família.

Isso é importante pois, apesar do Brasil ser um dos países mais racistas do mundo, a questão racial tem cada vez mais força, principalmente nas mudanças políticas (só lembrar das eleições presidenciais e vitória de Biden nos EUA). Aliás, nada mais justo que uma mulher negra seja a primeira vacinada, já que elas estão na linha de frente do combate à Covid-19 e, ao mesmo tempo, são as mais vulneráveis ao vírus. No dia seguinte, Doria tentou tirar os quilombolas da lista preferencial da vacina, mas voltou atrás. Além disso, é importante ressaltar que o governo tirou R$ 454 mi dos 1,5 bi previstos anteriormente para o Instituto Butantan, além do corte de 30% do orçamento da FAPESP. A população negra é a mais afetada com os cortes da ciência, principalmente da vacina.

Seu jogo representacional com a população negra, não corresponde com a realidade do estado de São Paulo: como prefeito, ele tentou aprovar uma ração humana como merenda para escolas de São Paulo – a maioria dos frequentadores dessas escolas são jovens negros e muitos têm acesso apenas à alimentação servida na escola; higienizou a cidade de São Paulo, com o intuito de tirar a população negra e pobre das regiões centrais; no final do ano de 2019, após mortes causadas truculência policial no baile funk em Paraisópolis, Doria teceu elogios à corporação.

Nos mantenhamos atentos com quem brinca com a vida (e morte) da população negra!


Fontes: Cultura e Representação (2016) de Stuart Hall e O passado escravocrata da família Doria (2018) de Ale Santos

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Junte-se ao grupo de CartaCapital no Telegram

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

Compartilhar postagem