O golpe dentro do golpe de Bolsonaro não prosperou

O leão teve de virar gatinho e se retratar, emasculando toda a operação

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Sergio Lima/AFP

Opinião

“A maior ilusão que nós, brasileiros, temos é que somos uma República. Podemos dar ao Brasil qualquer outro nome, menos República. É um erro conceitual. Aqui, temos uma oligarquia de criminosos.”
Alexandre Saraiva.

A declaração preclara do delegado da Polícia Federal Alexandre Saraiva integra a entrevista que concedeu à jornalista Ana Flávia Gussen, publicada na edição mais recente de CartaCapital.

Não resta dúvida. Vejamos, por exemplo, o salário do presidente da PETROBRAS, general Silva e Luna, que se apropria mensalmente de 260 mil reais. Outros colegas fardados – muitos deles com status de ministros do desgoverno – cobram salários mensais superiores a 100 mil reais, em um país em que metade da população está em situação de insegurança alimentar; 15 milhões estão desempregados; e outros milhões vivem em favelas, sem saneamento ou qualquer infraestrutura urbana mínima, inclusive de segurança.

Com efeito, é muito importante que se tenha consciência da diferença entre democracia e oligarquia, como esta última manipula as grandes maiorias e com quais instrumentos o faz, para manter a histórica dominação.

De fato, a forma mais evidente de repressão da democracia em governos oligárquicos é pela própria incorporação de militares e policiais em funções civis, como Engels observara há mais de um século: “…um anseio pela ditadura militar (você vê como todos os governos modernos se tornaram bonapartistas, querendo ou não).” A citação está em Friedrich Engels – uma biografia, de Gustav Mayer.

No Brasil, apesar dos milhares de militares, a democracia venceu um bela batalha na semana passada: o golpe dentro do golpe não prosperou.

 

 

O “estado de circo”, como bem o definiu o articulista José Simão, claramente previa a invasão da Esplanada dos Ministérios, a ser complementada pelo coronafest, em São Paulo.

Ambos ocorreram. Porém, mais uma vez, os golpistas queimaram a largada, invadindo a Esplanada de véspera e assim possibilitando à legalidade retomar o controle. O circo na Paulista, por essa falência, perdeu a potência (como o falo verde-amarelo bem simbolizou), levando o déspota a proferir insultos institucionais, que, àquela altura, já estavam fora de tom, mas ainda buscavam ser compensar o fiasco anterior.

Como resultado da pantomima, o leão teve de virar gatinho e se retratar, emasculando toda a operação; comprometendo outras e ainda mais se desacreditando junto à direita “democrática”, tão servil e prestimosa no golpe de 2016.

Pior, esta última teve o delírio de convocar ato para o dia 12, só para ulterior desmoralização e evidência de que embaixadas podem ser úteis em golpes, mas não lotam avenidas (assim como federações de empresários).

Com Engels, na biografia citada acima, lembremos, a propósito: “…que a chamada liberdade inglesa depende da opressão das colônias.”

Triste fim de Policarpo Quaresma, diria o nosso grande Lima Barreto.

Nada de novo sob este sol dos trópicos. Em Lima Barreto e a Política, volume organizado por Mauro Rosso, co-editado pela Editora PUC Rio e pelas Edições Loyola, inteiramo-nos de que: “…nas intervenções feitas em Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia os militares eram “simplesmente” (sic) parentes de Hermes da Fonseca” (que, vale lembrar, era Marechal).

Vindo ao campo democrático e às polêmicas sobre participar ou não dos atos democráticos do dia 7 de setembro, podemos nos socorrer do filósofo político Antonio Gramsci, em Gramsci serve ancora?, coletânea de textos organizada por Costantino Cossu, na qual o fundador do Partido Comunista Italiano faz as seguintes considerações sobre os intelectuais, no Caderno 21, sob o título Problemas da Cultura Nacional Italiana: “…Em Dostoiévski há um potente sentimento nacional-popular, ou seja, a consciência de uma missão dos intelectuais em relação ao povo…mas que deve ser liberado…transformado, regenerado. No intelectual italiano [e muitas vezes, de forma similar, no brasileiro]…falta uma identidade de concepção de mundo entre ‘escritores’ e ‘povo’, ou seja, os sentimentos populares não são vividos como próprios dos escritores, nem os escritores têm uma função ‘educadora nacional’, não se tendo colocado ou se colocando o problema de elaborar os sentimentos populares, depois de haver-los revivido e feito próprios.”

No Brasil, nas últimas eleições municipais, vimos o surgimento de novos atores intelectuais, políticos: mulheres e homens negros, mulheres trans e muitos jovens, razão de esperança de dias melhores. Por esse potencial de mudança, sobre eles abateram-se as forças mais retrógradas, com tal violência que alguns tiveram de deixar o país.

Aparentemente, estamos deixando para trás uma noção de ator político intelectual alijado das massas, com o comparecimento desassombrado aos atos de 7 de setembro. Não é pouco.

Com Gramsci, naquele mesmo texto, observemos o risco ultrapassado: “Os intelectuais não saem do povo, ainda que acidentalmente algum deles possam ter origem popular, não se sentem ligados a ele (à parte a retórica), não se conhecem e não sentem as necessidades, as aspirações, os sentimentos difusos, mas, em contraste com o povo, são algo de destacado, de aéreo, uma casta, não uma articulação, com funções orgânicas, do próprio povo.”

Portanto, estamos caminhando – e cantando.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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