Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

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Tudo indica que Lula vencerá, enquanto a direita se divide entre duas aberrações antidemocráticas

A concentração de intenções de voto em Bolsonaro e Moro e a quase inexistência de outros são reveladoras dos caminhos que a direita trilhou nos últimos anos

O ex-juiz Sergio Moro e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: EVARISTO SÁ/AFP
O ex-juiz Sergio Moro e o presidente Jair Bolsonaro. Foto: EVARISTO SÁ/AFP
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Salvo outro golpe de Estado, ostensivo ou disfarçado, só uma coisa é certa em relação à próxima eleição: tudo indica que Lula vai vencer. Mas não é possível dizer, hoje, com a mesma segurança, quem ficará em segundo lugar. Nem se Lula ganha no dia 3 ou no dia 30 de outubro.

Saber se a vitória de Lula vai acontecer no primeiro ou no segundo turno é importante por diversos motivos, especialmente por suas consequências políticas. Mas, para o futuro da direita brasileira, o relevante é o nome de quem vai ficar mais perto dele. Melhor dizendo: deveria ser, se ela tivesse candidatos genuinamente diferentes.

Tem vários, todos distantes do petista. Os dois principais são ruins e fracos, mas estão bem à frente dos outros que têm sido testados, nenhum em condição de perturbá-los. Bolsonaro e Moro monopolizam o eleitorado direitista. Na mais recente pesquisa do Datafolha, o capitão tem 21% e o ex-juiz 9%, ficando os outros seis nomes conservadores com o total de 5% (o que quer dizer que alguns nem sequer alcançam 1%).

A concentração de intenções de voto nesses dois nomes e a quase inexistência de outros são ambas reveladoras dos caminhos que a direita brasileira trilhou nos últimos anos. E mostram a dificuldade que ela terá para se recompor nos próximos.

São, a bem dizer, irmãos siameses, algo, aliás, que não esconderam e até saudaram, antes de se engalfinharem na briga pelo poder. A ambição os separou, mas continuam a ser farinha do mesmo saco, onde se misturam autoritarismo e personalismo com supremacismo de classe, gênero e cor. É irrelevante se um foi militar e o outro juiz, pois são iguais na pobreza de espírito e ignorância. Não sabem o que é a política, a busca de caminhos coletivos por meio do diálogo e da negociação. São sua antítese.

É triste que a direita brasileira tenha chegado a esse ponto, dividida entre duas aberrações antidemocráticas. Mas é explicável: suas lideranças tradicionais, partidárias e intelectuais, não conseguiram assimilar os anos de derrotas que sofreram nas disputas contra o PT e foram incapazes de se reinventar. Não aceitaram a aprovação popular das administrações petistas, fazendo-lhes uma oposição acusatória, de um moralismo oportunista. Chegaram ao ápice no canhestro golpe do impeachment, cujas consequências ainda pagamos.

O pecado original de Lula foi dar certo, pois a direita tinha certeza de que seu governo seria um fracasso. Ela acreditava que quatro anos passariam depressa e logo os esquerdistas voltariam para casa humilhados. Quando Lula se tornou um sucesso e a aprovação de Dilma Rousseff bateu recordes, o futuro tornou-se insuportável. Quem empurrou o conjunto da direita, na sociedade e no sistema político, cada vez mais para a ultradireita e o neofascismo foi aquela que posava de “civilizada” e “moderada”. Para derrotar a esquerda, tanto desconstruiu a política que fez nascer monstrengos como Bolsonaro e Moro.

Pelo que as pesquisas mostram, qualquer um dos dois pode ser o adversário que Lula derrotará em outubro. Nessa pesquisa do Datafolha, a vantagem do capitão é de pouco mais de 10 pontos, o que significa que fica empatado com o ex-juiz se apenas um em cada quatro de seus eleitores passar para o outro. Considerados a erosão na popularidade e o crescimento da rejeição ao governo, é uma chance nada pequena.

Seja um ou outro a enfrentar Lula, o futuro da direita no Brasil é igualmente complicado. Derrotada, ela sai da eleição sem lideranças respeitáveis, sem ter apresentado um programa de governo minimamente sólido, sem legitimidade para estabelecer um diálogo com Lula e sem capacidade de contribuir para o esforço de reconstrução necessário para reparar a catástrofe bolsonarista.

A elite brasileira errou gravemente, pois sabia quem era Bolsonaro e viu a lambança que fazia, mas tudo desculpou, por acreditar que, com suas mentiras e falcatruas, tinha fôlego para derrotar de novo o PT. Ainda vão se lamentar muito por não o ter tirado antes da Presidência.

O favorito na eleição deste ano sempre foi Lula. Era a hora de a direita ousar e arriscar, propor novas ideias, novos nomes, novas formas de atuar. Talvez não adiantasse no curto prazo, mas seria um investimento no futuro. Não fizeram e o resultado é o que vemos. Está enredada em duas candidaturas igualmente tóxicas, sem qualquer contribuição a dar. Nem para a própria direita nem para o Brasil. E o pior é que é grande o risco de que continuem a atrapalhar a vida de todo mundo, com suas milícias e arruaceiros.  •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1193 DE CARTACAPITAL, EM 2 DE FEVEREIRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O futuro da direita”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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