Sidarta Ribeiro

Professor titular de neurociência, um dos fundadores do Instituto do Cérebro da UFRN

Opinião

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O fracasso da nação

O filme Medida Provisória enfrenta nosso grande enigma: como superar a herança genocida e escravista, diante de tamanha hegemonia branca?

Foto: Reprodução
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Se você ainda não viu, assista ao excelente Medida Provisória, dirigido por Lázaro Ramos, um marco cultural. A inteligência ágil do filme leva ao grande público o enigma fundamental da nação brasileira, que nos devorará se não for decifrado: como superar a herança genocida e escravista, diante de tamanha hegemonia branca?

Para quem quer ver e escutar, as respostas são a auto-organização da negritude, a articulação de quilombolas e indígenas e a luta por uma ampla reparação. Esta não é uma agenda contra a população branca. A desigualdade racial é uma das principais causas da atrofia econômica da sociedade como um todo.

No país em que a produtividade do trabalho está estagnada há décadas, temos mais de 10 milhões de pessoas vivendo em favelas, quase 1 milhão encarceradas em condições sub-humanas, e 400 mil vivendo dos lixões, o que perfaz 1,5 milhão de pessoas dependentes dos lixões. Essas pessoas, em sua gritante maioria, são pretas e pardas.

Nas ruas, favelas, quilombos, assentamentos e aldeias de todo o País há uma multidão de crianças de ancestralidade africana e indígena, representantes das inúmeras gerações de crianças abandonadas, desperdiçadas e destruídas secularmente. Plenas de potência criativa, elas são o futuro do Brasil.

Como assinala o economista Mário Theodoro em A Sociedade Desigual (Zahar, 448 págs., 79,90 reais), autoritarismo, hierarquização, violência e mediocridade são as marcas de um país que ainda não realizou seu projeto de nação. “Incapazes de pensar o Brasil desse tamanho, com essa magnitude, com essa força, como um país que possa sair desse rol dos países medíocres. Desculpem os outros países, mas o Brasil não é medíocre, o Brasil tem tudo para sair (dessa situação), só falta um projeto inclusivo”, escreve. O país da desigualdade é inviável até para os brancos: é um projeto fracassado de nação.

Mas como furar a bolha da branquitude? Como convencer uma pessoa branca a se nausear por usufruir de privilégios de todo tipo, do tratamento num elevador ao acesso à educação? Em O Pacto da Branquitude (Companhia das Letras, 152 págs., 39,90 reais), a psicóloga Cida Bento disseca o viés de avaliação que separa brancos e negros no acesso às oportunidades profissionais. O jogo racial é injusto porque o campo é fortemente inclinado contra os negros, seja nas eleições, seja na entrevista de emprego ou na abordagem policial.

Como diz a jornalista Eliane Brum em Brasil, Construtor de Ruínas (Arquipélago, 304 págs., 59,90 reais), “é curioso como a maioria naturaliza seu direito a benefícios resultantes do que foi feito pelos que vieram antes, mas têm enorme ­dificuldade de se responsabilizar pelas atrocidades cometidas pelos que vieram antes”. Até quando pessoas brancas vão confundir privilégio com mérito? Quanto tempo mais até criarem vergonha na cara?

“Eu sou negro, mas, se eu fosse branco, ia ser muito ofensivo ouvir isso: a lei é melhor para o branco do que para o preto. Acho que ofende”, disse o rapper Mano Brown. O que precisa acontecer para que os brancos se posicionem contra a humilhação, a espoliação e a desumanização cotidiana dos não brancos?

Para mudar esse jogo desigual, é preciso, por um lado, haver mais lutas vitoriosas dos negros. Há 68 anos, o grande artista Abdias do Nascimento candidatou-se a vereador com um lema poderoso: “Não vote em branco, vote no preto”. A historiadora Wania Sant’Anna afirma: “Nós temos um projeto para o País. Nós discutimos trabalho, educação, direitos humanos, organização política (…) Temos um projeto de nação. Os outros têm um projeto de pilhagem. Isso faz muita diferença. E por que temos um projeto de nação? Porque não temos nenhum outro lugar para ir”.

Faz-se ao mesmo tempo necessário o amadurecimento da responsabilidade coletiva. Como lembra Eliane Brum, “os alemães, mesmo os que ainda vão nascer, terão responsabilidade pelo que foi feito em seu nome, incluindo o Holocausto. Assim como nós, brasileiros atuais, somos responsáveis pelo que foi feito em nosso nome com os negros e os indígenas”. A reparação dos crimes cometidos é a solução óbvia, via políticas afirmativas, para desconstruir a desigualdade estrutural.

Por tudo isso, Medida Provisória me fez chorar, rir, me indignar e esperançar em igual medida. E não fui só eu. No cinema lotado houve gritos, risos e ovação ao final. Se as populações negras e pardas são a maioria absoluta da nação, não seguirão sendo tratadas como minorias para sempre. Se essa mudança é questão de tempo, que seja agora. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1208 DE CARTACAPITAL, EM 18 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O fracasso da nação”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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