O ‘espetáculo Lázaro’ torna mais toleráveis os Jacarezinhos

'Lázaro trocou tiros com os policiais, foi ferido, capturado e chegou morto ao hospital. O que há de excepcional nessa história? Nada'

O ‘espetáculo Lázaro’ torna mais toleráveis os Jacarezinhos

Justiça,Opinião

 

 Na manhã dessa segunda, dia 28 de junho, a perseguição a Lázaro Barbosa terminou com sua captura e morte no interior de Goiás. A caçada começou há vinte dias, após Lázaro assassinar um casal e seu filho numa fazenda em Ceilândia, no Distrito Federal. A busca por ele mobilizou 270 policiais, entre civis e militares, bombeiros, polícia rodoviária federal, Força Nacional e até a Agência Brasileira de Informação, a ABIN.

À medida em que se passavam os dias e Lázaro seguia escapando, sua história se transformou em novela policial e motivo de embaraço para as autoridades políticas e de segurança pública. Escondido entre matas e fazendas, Lázaro burlava os caçadores. Logo, sua ficha policial – que incluía crimes na Bahia e fuga da prisão – passou a justificar a continuidade da operação para prender quem a imprensa começou a descrever como “serial killer”.

Enfim, após uma madrugada de cerco, Lázaro trocou tiros com os policiais, foi ferido, capturado e chegou morto ao hospital.

O que há de excepcional nessa história? Nada.

Criminosos “maníacos”, “perigosos”, “psicopatas” alimentam há décadas a imprensa policial, os discursos repressivos e o imaginário popular em todo o mundo, incluindo o Brasil. Apesar de serem poucos diante do número total de presos e condenados por homicídio ou latrocínio, mobilizam paixões, inspiram obras de ficção e ocupam um lugar importante na produção e reprodução das políticas de segurança pública: o papel de monstros.

O ‘espetáculo Lázaro’, enfim, torna mais tolerável – e, para muitos – necessários os Jacarezinhos, os João Pedro e as Kethlen Romeu diários.

A existência de pessoas como Lázaro reforça a necessidade de punir, encarcerar e eliminar os que ofendem a lei. A comoção pelos crimes atrozes de Lázaro, sua fuga ousada e a impertinência em assumir a força e a justeza do Estado e da polícia foram entendidas como confirmações do desajuste incontornável de uma pessoa que perdeu a humanidade– ou, quem sabe, nunca a teve. Pessoas como Lázaro são usualmente tidas como “monstros” porque não respeitam as regras sociais, as leis do Estado e os valores morais. Como animais que precisam ser enjaulados ou abatidos.

Na história de Lázaro, estão presentes todos os elementos da “monstruosidade”. Seu histórico de crimes, sua violência extrema, sua luta para seguir vivo e ativo, sua fuga por matas e grutas. Sua “novela” contém os fundamentos da lógica do “contrato social” proposta por filósofos políticos do Iluminismo europeu que quase ninguém leu, mas na qual todos acreditam: o princípio de que é preciso domar os instintos, obedecer a autoridade, punir os transgressores para que possa existir a “sociedade”. Haveria, então, que se travar uma guerra constante contra alguns para que todos vivessem em paz.  Eis uma definição mínima de segurança pública.

Após o desfecho da história de Lázaro, o chefe da polícia comemorou o resultado informando no jargão usual que o “criminoso veio a óbito”. “Ele atirou antes”, foi alvejado e agora, explicou o policial, jamais voltaria a “machucar alguém”. Uma jornalista se confessou “aliviada”. O governador do estado postou que Goiás não é “Disneylândia de bandido”. Ao fundo da cena, gente que acompanhava a movimentação da polícia e da imprensa aplaudiu a passagem do furgão do IML.

A saga de Lázaro tornou-se um espetáculo midiático porque se conectou diretamente com o senso comum que alimenta – e se alimenta – da nossa cultura do castigo, ou seja, a fé disseminada à esquerda e à direita de que a punição corrige, repara e reordena o mundo. Milênios de formação individual e coletiva baseadas em princípios de culpa e a expiação produziram esse senso comum difícil de ser superado.

Os “monstros” como Lázaro são acontecimentos excepcionais que confirmam a regra da necessidade corriqueira de vigiar e punir. Os “animais” como Lázaro são os exemplos extravagantes dos “pequenos monstros” cotidianos que habitam, numa sociedade como a nossa, o lugar do medo e da ameaça. No dia a dia, no entanto, não há Lázaros, mas assaltantes, traficantes, assassinos – ou suspeitos disso tudo – que fustigam a ordem social e a vida individual. O “espetáculo Lázaro”, enfim, torna mais tolerável – e, para muitos – necessários os Jacarezinhos, os João Pedro e as Kethlen Romeu diários.

Outra regularidade da parábola de Lázaro: o fato de chegar morto ao hospital. É possível que, de fato, seu ferimento tenha sido fatal. No entanto, abundam as denúncias e relatos de detidos pelas polícias que, feridos, chegam mortos aos prontos-socorros. Asfixiados, alvejados ou, simplesmente, levados aos cuidados médicos tarde demais, casos assim acontecem frequentemente, em especial, com procurados “famosos”.

Por fim, mais uma obviedade: Lázaro era pobre, negro e nordestino. A diferença com a imensa maioria que mata e morre diariamente nas ruas do Brasil é que Lázaro ficou, precisamente, “famoso”. Sua “epopeia sangrenta” reforçou, no entanto, pelo recurso ao show midiático e policial, o estereotipo mais corriqueiro daqueles que são alvo das forças de segurança.

Assim, é interessante notar que imprensa e autoridades se refiram ao desenlace da perseguição como um “sucesso”. Que sucesso há quando foram necessários vinte dias de grandes recursos empregados para capturar um homem que, no caminho, cometeu mais violência? Qual o êxito quando o acusado é morto, não sendo investigado para apurar cumplicidades, sendo julgado com amplo direito de defesa de modo a proteger não apenas a ele, mas também o Estado de Direito?

O “sucesso” da morte de Lázaro é celebrado no campo da vingança, fundamento do direito penal e complemento necessário da cultura do castigo. Não haverá, portanto, outro juízo e outra condenação que não aqueles já decretados de antemão pela “opinião pública” e executados pela polícia. A pena de morte que inexiste nos códigos brasileiros, mas que prolifera na prática, foi aplicada uma vez mais; agora, amplificada pela violência dos atos de Lázaro e pela sua recusa em se entregar. Desse modo, o caso de Lázaro, que parece excepcional e extremo, é cruelmente banal e rotineiro.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Relações Internacionais pela PUC-SP e Sorbonne Nouvelle e professor no Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), membro fundador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (NEIP, www.neip.info) e da Red Latinoamericana de Estudios sobre Drogas (REDESDAL, www.redesdal.org). Além de autor de dezenas de capítulos e artigos sobre o tema das políticas de drogas, é autor dos livros “Narcotráfico, uma guerra na guerra” (Desatino, 2012) e “Política e Drogas nas Américas: uma genealogia do narcotráfico” (Desatino, 2017) e coeditor dos livros “Drug Policies and the Politics of Drugs in the Americas” (Springer, 2016); “Drogas, Política y Sociedad en América Latina y el Caribe” (CIDE, 2015) e “Política e Drogas no Brasil” (Mercado de Letras, 2018). Twitter: @thethiagor

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