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O discurso das peças
O mérito destacado da Fúria espanhola não foi a fúria: ao contrário, foi a minimização do erro e da emoção
As Copas do Mundo não são campeonatos, mas crônicas concentradas do tempo e do mundo, repletas de cruzamentos simbólicos que extrapolam as linhas do campo. Os esforços do coveiro Infantino, no sentido de enterrar a relação entre futebol e vida, felizmente são apenas parcialmente exitosos e enganam somente os neófitos.
A conquista da Seleção Espanhola é a glória da pasteurização codificada, da vida securitária e sem acidentes, triunfo do futebol de almoxarifes, praticado por gerentes da logística e do prazo rigorosamente cumprido.
“Funciona”? Perfeitamente.
Fascina? Nem um pouco.
Já não se trata de opor valores, falar na leveza da plástica versus a força do corpo, discutir preparo físico, dietas nutricionais, medicina de ponta e câmeras hiperbáricas. Esses conhecimentos foram universalizados.
O que a Espanha consagrou, no domingo passado, é o discurso arrepiante das “peças”. É discurso que já vige na linguagem futebolística há muito tempo, repetido por comentaristas de inteligência pouca, treinadores que falam em primeira pessoa e torcedores-esponja encantados com a teologia do sucesso. “Peça”, curiosamente, era um nome fantasia que se dava a escravos, num país como o Brasil, submetendo indivíduos às rodas dentadas do moinho econômico-social, triturador indistinto de sonhos.
Até aí, morreu o Neves: o futebol, no Brasil, sempre foi escravocrata, operou pela lógica da propriedade e da hiperexploração, embora facultasse lampejos artísticos a alguns de seus melhores jogadores.
Mas e o futebol europeu?
A obsessão pelas “peças” consagra de uma vez por todas a era dos treinadores, que tornaram-se as estrelas principais do espetáculo. É claro que os craques existem. Mas a “Copa dos Protagonistas” teve menos esmeraldas no esmero do gramado do que nas linhas pontilhadas da área técnica.
Bielsa sobressaiu-se, Ancelotti destacou-se, Scaloni conseguiu brilhar, mesmo tendo a luz de Messi a sombreá-lo.
Até mesmo o estúpido Thomas Tuchel terminou como grande assunto na malvina eliminação dos ingleses, muito mais que “suas peças desencaixadas”, tristes “peças que não renderam” num “sistema que não funcionou”. “Não me arrependo de nada”, afirmou o treinador “importado”, num autêntico “singular majestático”. Noves fora a redundância ululante: alemão arrependido é uma “peça” natimorta. “Deu certo na maioria das vezes. Hoje não deu”.
Bem se vê, em resumo, que o futebol planificado é uma estância criadora de bases de dados, e que os times realmente se tornaram sistemas rodando softwares. O léxico da bola sucumbiu aos regimes matriciais de medida.
É mentira, desse modo, que o jogo da Espanha seja mais coletivo que os outros. Futebol é coletivo por definição.
O que a Fúria atingiu, nesse torneio, foi a subsumissão do indivíduo, que seria uma utopia socialista em sua essência ilusória, mas aqui não existe ilusão possível: a moderação das individualidades pode se dar em regimes de cooperação associativa, mas também, como é o caso, em regimes tediosos de “tomada de decisão” (outro jargão da hora), ditados pela parametrização tirânica das ordens. Na base planificada do “Se A, então B; se B então C; se C, D ou E; se D, cruzamento; se E chute a gol”, o que a Espanha obteve foi aquele “melhor ajuste” na “árvore de diretórios”, “extraindo o melhor” das “partes”.
Publicaram-se de novo os grandes “mapas de calor” de fulano e beltrano. O Bola de Ouro deu trocentos passes certos ao longo do torneio. Surgiu nas telinhas o “Gráfico de Domínio”. Os pênaltis foram filmados em enquadramento de PlayStation. Só nos faltou o joystick. A turma do 30-, atolada nessas pirotecnias, masturba-se em discussões de Excel.
O mérito destacado da Fúria não foi, portanto, a fúria: ao contrário, foi a minimização do erro e da emoção, a vitória que sequer se comemora. Mas nem nisso a Espanha venceu: na arte de não comemorar, Erling Haaland foi de longe o melhor em campo. Levanta-se a taça, sepulta-se a vida.
Ancelotti, by the way, afirmou no início da Copa: campeã seria a equipe que cedesse menos gols. A Espanha, por incrível que pareça, cedeu aos adversários o mísero gol de cabeça que tomou dos belgas.
Tampouco La Roja foi pródiga em produzi-los: descontadas as vitórias sobre Áustria e Arábia Saudita, marcou 7 gols em 6 jogos (1,16 por partida). Entre os tentos espanhóis, não houve nenhum golaço. Rodri não foi o melhor da Copa, Cubarsí não foi o melhor dos jovens e Símon não foi o melhor goleiro. Esses prêmios são apenas desvios de holofote da própria FIFA, na conduta deseducante consagrada em verso antigo da banda ABBA: “the winner takes it all, the looser standing small”. A seleção campeã leva agora, por extensão, todos os prêmios individuais, mesmo que a sua “estratégia” vise o fim das individualidades (Deste modo, como disse um divertido comentarista, o júri da FIFA se desobriga de assistir à Copa toda).
O que chama atenção é que esse futebol tenha surgido e prosperado na Espanha, se combina tão bem com a lógica formal do silício. Pelo sim, pelo não, o sucesso do mecanismo coincide com a ocaso das escolas mais charmosas do vigésimo: Itália, Brasil e agora Argentina.
É de se admirar, portanto, que tantas e tamanhas vozes da imprensa esportiva brasileira, com o eco entusiasmado dos neófitos em rede, se dediquem ao elogio dessa joça, ao mesmo tempo em que se esgoelam pela volta sebastianista do “DNA brasileiro”.
Que bagunça!
O futebol Rivotril é a senha de uma competição inchada, transformada em encontro internacional do CISV para a justa “promoção da paz” (exceto se você for um pobre somali, um azarado iraniano, ou qualquer outra “falta de sorte”).
Eis a Copa de 2026: uma estranha assembleia mundial de escoteiros narrada por locutores de rodeio (CazéTV). Definição de escoteiro, precípua e oportuna: um bando de crianças vestidas de bobo andando atrás de um bobo vestido de criança. Panorâmica dos estádios: 90% dos “fãs” (Infantino os chama assim) fazem selfies com as mesmas camisetas, compradas em lojas de estádios que viraram estúdios, e agora shoppings.
Nessa arte, praticada nesse modus operandi, o Brasil nunca foi bom, e talvez nunca seja. O corta-luz de Rivaldo para Ronaldo, na final de 2002, não foi computado como passe certo, nem como enfiada, nem como “assistência”. O craque brasileiro da Camisa 10 não encostou naquela bola.
Saudosismo? Vejamos 2030.
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