O contraste nos discursos de Mia Amor Mottley e de Bolsonaro

A governante caribenha condenou a hipocrisia dos que haviam ocupado a tribuna e fez um forte chamado à ação

Foto: POOL / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP

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Opinião

“Get up, stand up, stand up for your rights”.
Bob Marley.

O melhor discurso na sessão anual da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), tristemente aberta pelo desgovernante brasileiro, coube à primeira-ministra de Barbados, Mia Amor Mottley.

A governante caribenha não apenas condenou a hipocrisia dos que haviam ocupado a tribuna para repetirem vazias intenções, mas também fez um forte chamado à ação, contra as mudanças climáticas e as fakenews, principalmente.

Corajosamente, citou outro caribenho, o jamaicano Bob Marley, que a agência central de inteligência americana (CIA) tentara assassinar – por suas ideias libertárias – nos anos 70. No atentado, nem morreu Marley, nem pereceram as ideias dele, como se pôde ver pela citação da mandatária barbadiana, na tribuna mais importante do mundo.

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, já dizia o Cristo.

 

 

Que contraste entre a mulher negra, libertadora, e o branco assassino, monstro rendido à dependência (da raiz latina monstrum, mensageiro da catástrofe, como nos recorda Ocean Vuong, em Sobre a terra somos belos por um instante).

A lutadora lembrou, com precisão, que estamos perigosamente próximos do que éramos há um século, com o fascismo assombrando um mundo que não consegue ver ou agir. Como se tivesse vivido a própria guerra, Mia ecoou a reflexão do vietnamita Vuong à perfeição: “Eu não sabia que a guerra ainda estava dentro de você, nem sabia que existia uma guerra, que quando ela entra em você nunca mais sai – simplesmente ecoa…”

Contudo, em meio à catástrofe socioambiental, boas notícias despontam: com a vitória dos social-democratas na Noruega, os cinco países Nórdicos, aqueles com os melhores indicadores de desenvolvimento humano do mundo, passam a ser governados por progressistas.

Não é pouco e demonstra uma compreensão daquelas populações de que para superar os atuais desafios são necessárias concerto e estratégias comuns. Uma boa notícia para os que prezam a política externa.

Igualmente relevante, a vitória dos social-democratas e dos verdes na Alemanha, estes, desbancando a extrema-direita do terceiro lugar na preferência popular. Confirma-se, mais uma vez, o “dedo podre” do genocida local, que recentemente recebera os pares nazistas.

Seremos o pântano para o nazifascismo? Será nossa contribuição para a humanidade? Será a nossa vez? Dia 2, saberemos mais, nas ruas.

Em Brasil – concluir a refundação ou prolongar a dependência, de Leonardo Boff, temos dicas preciosas, a começar pela forma como instruímo-nos: “Há a cultura da dominação, que é pura reprodução de valores, hábitos, gostos, saberes, tecnologias daqueles povos e centros de poder que subalternizam o país. Criam-se então subjetividades coletivas, hipnotizadas por tudo o que vem dos centros metropolitanos, que nada tem a ver com o nosso meio ecossocial. As elites que assumem essa cultura têm um soberano desprezo pelo povo, considerado como a expressão de atraso e incultura. Têm vergonha de nossa língua e de sua cultura, desde a popular até a erudita.”

Em contraposição: “Há a cultura da libertação, própria dos setores dominados que romperam com o paradigma da resistência e do ajustamento forçado, e avançaram na criação de uma nova consciência de libertação, com a consciência de serem um sujeito histórico novo, com projeto alternativo e com práticas inovadoras. Nesse ambiente viceja a refundação do Brasil.”

Iluminante, o pensador aduz: “Ler é sempre reler, e conhecer é sempre interpretar.”

À luz desses ensinamentos, fica mais fácil entender aquela fala brilhante da primeira-ministra de Barbados na ONU.

Vale notar que, no ano em que se comemora o centenário de Paulo Freire, o Papa recebeu no Vaticano, na semana passada, a viúva do patrono da educação brasileira. Na oportunidade, Francisco declarou que também lera Pedagogia do Oprimido, obra-prima do educador pernambucano.

Em Extensão e invasão cultural, do volume Extensão ou Comunicação? (Editora Paz e Terra), citado em Paulo Freire – vida e obra, organizado por Ana Inês Souza (Editora Expressão Popular), lemos: “A propaganda, os slogans, os “depósitos”, os mitos, são instrumentos usados pelo invasor para lograr seus objetivos: persuadir os invadidos de que devem ser objetos de sua ação, de que devem ser presas dóceis de sua conquista. Daí que seja necessário ao invasor descaracterizar a cultura invadida, romper seu perfil, enchê-la inclusive de subprodutos da cultura invasora.” Uma precisa descrição do Brasil atual.

No mesmo volume da Expressão Popular, dedicado ao pedagogo, o filho Lutgardes Costa Freire acrescenta: “A educação, dizia ele, é um ato político, e sendo político implica em uma escolha: ou se é a favor dos opressores ou se é a favor dos oprimidos. O ato político também é amoroso, pois implica um gosto uma escolha, um porquê.”

No processo de descoberta de seu método, Lutgardes recordou que o pai: “Priorizava também a discussão com os educandos, de forma sempre dialógica, a relação entre natureza e cultura. Essa discussão por sua vez levava os educandos a perceberem que também faziam cultura. Percebiam, por meio de seu próprio universo vocabular, que eram sujeitos de sua história, e que portanto faziam história. Por sua vez ninguém faz história sem ter consciência de sua ação sobre ela.”

No sábado, façamos história!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da Organização das Nações Unidas (ONU) e representante, alterno, do Ministério das Relações Exteriores no extinto Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).

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