O Censo 2021 é decisivo para a o nosso futuro

Os movimentos negros, das mulheres e outros lutaram muito para garantir que o Censo mostrasse que a pobreza no Brasil tem cor e gênero

Marcha das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil)

Marcha das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil)

Opinião

A realização de todos os censos no Brasil desde 1940 foi muito importante para a sociedade, mas a pesquisa de 2021 é decisiva para o entendimento do presente e  do futuro do nosso País, por causa da brutal desigualdade, do acelerado empobrecimento, do retorno ao mapa da fome e, fundamentalmente, das iniquidades de raça e gênero. 

Não tem sido fácil a luta para ter essas macroleituras nacionais, para entender o Brasil profundo e para termos os caminhos de planejar e adotar políticas de educação, saúde, cultura, políticas  sociais, segurança alimentar e nutricional. Sem falar em outras demandas, como habitação e infraestrutura, saneamento básico, acesso a trabalho e renda, assim como à equidade na distribuição dos recursos hídricos, terra e território e outras políticas correlatas. 

No contexto da pandemia e da  pós-pandemia, mais do que nunca precisamos saber de nossas condições socioeconômicas, para medir as iniquidades de raça, gênero e classe, para saber como negros-negras, indígenas e brancos-brancas passamos e vamos sair desta que é considerada a maior crise sanitária de nossa vida contemporânea. Mas o governo genocida que comanda o País faz de tudo para impedir a realização do Censo, nossa política de Estado mais estrutural no levantamento da realidade demográfica. 

O IBGE, que neste ano completa 85  anos, segue uma instância de Estado, de assessoramento da Presidência da  República, apesar de todas as tentativas de desfinanciamento. Ao longo de quase um século, nos governos estaduais foram erguidos mecanismos cor respondentes para levantamento de dados, em geral conectados com as secretarias de Planejamento. Em 2019, quando o Ministério da Economia, onde está a Secretaria Nacional de Planejamento,  desferiu toda ordem de ataques ao IBGE, a reação de seus servidores e servidoras foi imediata, assim como de um sujeito político coletivo que há décadas batalha pelo fortalecimento desse órgão do Executivo, o Movimento Negro  Brasileiro e suas lideranças mais destacadas no trato do tema, entre elas a historiadora Wania Sant’Anna, a gestora pública Regina Adami e a militância nacional que se mobiliza por meio da Coalizão Negra por Direitos. Em vários  estados ocorreram audiências públicas,  para barrar o sucateamento, os cortes e a redução do bloco de questões e garantir a realização do Censo. 

Durante a ditadura, a questão racial foi parar na Lei de Segurança Nacional, esta que ainda hoje nos assombra. Nos  anos de chumbo, não era possível falar na  condição racial de nossa população, era um tabu. A antropóloga afro-americana Angela Gillian e sua filha Anik’a Gilliam, num artigo muito importante, “Negociando a Subjetividade da Mulata no Brasil”, nos contam parte dessa história, no Dossiê Mulheres Negras, organizado por Matilde Ribeiro em 1995, na Revista Estudos Feministas. Os militares barraram Angela Gillian no aeroporto do Rio de Janeiro, em 1973, para confiscar a  sua pesquisa e impedir que os dados sobre desigualdades raciais saíssem do Brasil. 

Outros estudos têm destacado a importância das políticas do Censo e os interesses de governos, a exemplo da pesquisa da cientista política Melissa Nobles, do MIT, Armadilhas do Racismo, destacando um século de Censo no Brasil, pois  essa autora, assim como os estudos do sociólogo mexicano Edward Telles, em seu  livro Racismo à Brasileira, vai buscar in formações do primeiro levantamento feito no Brasil, em 1872. A articulação entre Censo Demográfico, iniquidades raciais, de gênero, de classe e democracia estava  diretamente implicada ao longo de um século e, neste momento, é uma chave importante para entendermos por que o go verno desastroso evita a sua realização. 

A potência da abordagem do sujeito político coletivo Movimento Negro nos anos  de 1990, com pesquisadoras como Wania Sant’Anna, ao juntar a força da militância com os achados de campo, produziu uma campanha monumental, para que o povo  brasileiro, no Censo de 1990, depois do silenciamento imposto pela ditadura, pudesse dizer a sua cor. Foi a “Não deixe sua cor passar em branco – responda com bom senso”, em 1991, pois, na pesquisa anterior,  ainda no processo de transição do período  autoritário, diante da pergunta raça/cor, a  população não branca citou 135 cores diferentes, demonstrando que a população,  por falta de abordagem do tema na sociedade, não sabia como responder. O que se constituiu num grande desafio para os(as)  planejadores(as), que precisavam saber  quem acessava as políticas públicas no  Brasil.

Como destacou Wânia Sant’Anna, na Revista Trincheiras, do Ibase, em junho de 2019, os movimentos negros, das mulheres e outros tiveram de lutar muito para garantir o quesito raça/cor, para mostrar  as iniquidades de gênero, ao desagregar os dados, evidenciando no Censo que a pobreza no Brasil tem cor e gênero.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Socióloga, ativista e ex-ouvidora-geral da Defensoria Pública da Bahia

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