Opinião

O capiroto agradece pelo ano recebido

Nada mais escabroso e canalha que a atitude do Congresso ao derrubar os vetos de Lula às perversidades do Marco Temporal

Rodrigo Pacheco e Arthur Lira atuam como zagueiros na defesa dos milionários – Imagem: Jefferson Rudy/Ag. Senado
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Sabemos, neste ano o clima não se fez o comum no País. Algo perceptível em anos mais recentes, ao contrário do usual passado, sobretudo, em países territorialmente diversificados como o Brasil, regiões características de climas equatorial, tropical (altitude, semiúmido ou úmido e atlântico), subtropical e semiárido (11% do território – polígono das secas), este último perfeitamente contornado no Vale do São Francisco e, no futuro, em toda a região após a transposição.

Nossas condições edafoclimáticas (tipos de solo, hidrografia, regime de chuvas, ventos, densidade vegetal, rural e urbana) vocacionaram caboclos, caipiras, campesinos, sertanejos, tabaréus e grandes fazendeiros a escolher as culturas agrícolas e de pastoreio adequadas às suas plagas em busca de produção e produtividade.

O sistema econômico nacional sendo capitalista, daí em diante, faz com que o jogo se dará no campo do mercado e suas diferentes esferas: distribuição, comercialização e serviços financeiros. Quanto maior a prevalência, mais a agropecuária estará beneficiada ou ferrada. Sobre isto tem controle nenhum.

Câmbio, cotações de commodities nas bolsas internacionais, fretes marítimos, Federal Reserve, guerras e conflitos entre países, a fala dominical do Papa Francisco Bergoglio sobre o “amor que devemos dar ao próximo”, assim evitando todas as perversidades que nos mostra o cotidiano planetário sob os cordatos “graças a Deus” de todos os pobres infelicitados por infortúnios (é irritante).

Mas, para finalizar o ano de 2023 nada mais escabroso, nada pior, mais canalha, mais picareta, como a atitude do Congresso Nacional, ao derrubar os vetos feitos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva às perversidades e ao excesso de ganância ruralista impregnados no Marco Temporal. Se assim como a preservação ambiental vinha sendo desrespeitada, resultando nos desarranjos climáticos dos últimos anos, imagine-se o destino reservado aos povos originários. Não que viessem sendo tratados bem. Os processos históricos engendrados pela formação de capataz há anos os fazem sofrer.

Câmara e Senado, ao derrubarem os vetos que o presidente Lula havia determinado ao Marco Temporal, fizeram o que um famigerado ex-ministro do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro, o dândi paulistano Ricardo Salles, fez ao sugerir aproveitar os brasileiros preocupados em se livrar da pandemia da Covid 19, que causou ao país 38 milhões de doentes e 708 mil óbitos, entre crianças e adultos, para jogar para baixo do tapete o crime ambiental amazônico e em outros biomas brasileiros. Genocídio e genocídio.

O mesmo que agora repetem a maioria de deputados federais (321 a 137) e senadores (53 a 19), eleitos para nos representarem em democracia vã, ao vetar os pontos que Lula e a sociedade com um pingo de percepção humanista enxergava nas leis do Marco Temporal para demarcação de terras indígenas: se antes propunha-se “passar a manada”; agora propõe-se “passar a bancada ruralista”, com seus ridículos chapelões fake-texanos, escárnio musical criado pelos cantores novos sertanejos.

Os povos só poderão chamar de minhas as terras que ocupavam antes de promulgada a Constituição de 1988 (5 de outubro). Sem comprovação, poderão ser expulsos.

Para onde? Talvez para o Supremo Tribunal Federal, que em setembro já havia invalidado a tese esdrúxula, ou para a Advocacia-Geral da União, que será acionada. Se lá couberem os sempre assegurados direitos dos povos indígenas e o sangue que lavará mãos assassinas que correrá das torneiras do Congresso Nacional.

Inté!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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