Entrevistas

‘O Brasil não quer mulheres negras nos espaços de poder’, diz Ana Lúcia Martins

Primeira e única vereadora negra de Joinville-SC, Ana Lúcia Martins fala dos desafios do mandato, da luta contra o racismo e da defesa da educação

Foto: Mauro Artur Schliec
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“Minha presença na Câmara de Vereadores de Joinville rompe com um processo de ausência de mulheres negras nos espaços de poder”. A frase é da professora Ana Lúcia Martins, primeira e única vereadora negra da cidade catarinense de 605 mil habitantes. 

Nesta entrevista por vídeo à colunista de CartaCapital, a filha mais nova de uma trabalhadora doméstica e de um motorista revela os desafios e a emoção de ocupar uma cadeira em um lugar de decisão, que, como ela mesma diz, não foi pensado para mulheres negras

Ligada ao Partido dos Trabalhadores desde a década de 1980, após uma trajetória de 36 anos dedicados às salas de aula, nas eleições municipais de 2020, Ana Lúcia foi a sétima vereadora mais votada, com 3.126 votos. Guiada pela carreira docente, a defesa da educação e do serviço público, o combate ao racismo e os direitos das mulheres são suas principais bandeiras. 

Antes mesmo de tomar posse, a vereadora eleita pelo PT recebeu ameaças de morte: “Sem sombras de dúvidas, foi o racismo que motivou essas ameaças”, afirma.

Aos 55 anos, Ana Lúcia Martins experimenta na Câmara joinvillense a mesma solidão dos tempos de faculdade, na qual era a única negra da turma. “Estou em um espaço formado por 19 vereadores, sendo 17 homens brancos e uma mulher branca”.

Sobre as eleições presidenciais deste ano, é categórica: “Precisamos de um governo que tenha como prioridade a eliminação das desigualdades”. E finaliza com um recado para as mulheres negras que irão se candidatar: “Tenham coragem”, ela diz.

Leia a entrevista:

Como é ser a primeira e única vereadora negra de Joinville?

Primeiramente, é preciso dizer que é um marco histórico para Joinville, pois a minha presença na Câmara de Vereadores rompe com um processo de ausência das mulheres negras nos espaços de poder, de decisão. É também um marco histórico para a população negra. Eu percebo isso no dia a dia, no quanto principalmente as mulheres negras se sentem representadas por esse lugar que estou ocupando na Câmara.

A senhora respondeu minha pergunta a partir de uma perspectiva coletiva. Do ponto de vista pessoal, o que significa ser a primeira e única vereadora negra de uma cidade em que mais de 80% da população é formada por pessoas brancas?

Ser a primeira vereadora negra de Joinville é uma emoção muito grande, mas não é só isso. Essa emoção se mistura com a responsabilidade que eu assumo quando chego nesse lugar, que é lutar pelos grupos historicamente excluídos. Ser a primeira vereadora negra de Joinville é também experimentar um processo de solidão. Estou em um espaço no qual há 19 vereadores. Dezessete homens brancos e uma mulher branca. Eu continuo vivenciado o mesmo que vivenciei na faculdade, quando eu era a única aluna negra do curso. Não é fácil estar em um lugar em que a questão racial e os direitos das mulheres não são prioridade. 

Pouco depois da divulgação do resultado das eleições, a senhora recebeu ameaças de morte. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Marielle Franco em 2020, as mulheres negras são o alvo principal da violência política. A que a senhora atribui esse fenômeno?

Sem sombras de dúvidas ao racismo. Isso é muito sério. Precisamos olhar isso com profundidade. Eu não pude comemorar a minha eleição, eu fui impedida de comemorar a minha chegada à Câmara. Nós tínhamos pensado em uma grande festa, na rua, em uma praça, mas em razão das ameaças isso não foi possível. É como se estivessem dizendo: qualquer pessoa pode ocupar esse lugar, desde que não seja uma mulher negra. Na época, houve alegações de que as ameaças eram pelo fato de eu ter sido eleita pelo PT, uma rejeição ao PT, o que não é verdade. Fui vítima do racismo que quer que as mulheres negras permaneçam no lugar da invisibilidade, como se nós não pudéssemos representar nada nem ninguém. Como se não pudéssemos estar em um lugar de tomada de decisão, de disputa. Esse racismo se reflete também nos processos de violência simbólica que vivencio diariamente na Câmara, como as tentativas de interdição da minha fala por parte de homens brancos. 

O direito à educação pública de qualidade e a defesa dos servidores públicos estão entre as principais pautas do seu mandato. Como a senhora vê as investidas da política neoliberal e da extrema direita sobre a educação? 

Estamos vivenciando um processo de desmonte da educação e do serviço público, de retirada de direitos. A Reforma da Previdência, por exemplo, afeta diretamente os professores. O pensamento de extrema direita tem invadido as escolas, com movimentos antivacina, com ameaças a professores que levam para os estudantes conteúdos comprometidos com uma educação libertadora, crítica e emancipatória. Infelizmente, essas ameaças têm partido de pais e de vereadores. A retirada de direitos, essa desvalorização, faz com que muitos professores abandonem a profissão.

Um dos principais desafios da educação neste momento é encontrar soluções para a questão da evasão escolar, que foi agravada pela pandemia. Por diversas razões, mesmo com a reabertura das escolas, milhares de estudantes não retornaram às salas de aulas. A senhora tem atuado nesse sentido?

Nós temos cobrado constantemente da Secretaria Municipal de Educação de Joinville quais são os projetos, quais as medidas, quais as ações que estão sendo realizadas para solucionar o problema da evasão e também da lacuna que se abriu no processo de aprendizagem no período em que foi necessário fechar as escolas por causa da pandemia. Na primeira reunião que tivemos com a Secretaria, essas foram as pautas principais. Como se sabe, entre as famílias mais pobres, houve maior dificuldade para acessar o ensino remoto, nem todos tiveram as mesmas condições para dar continuidade aos estudos. Temos o desafio de buscar esses estudantes que não voltaram para escola. Nós queremos dados. Onde eles estão? O que tem sido feito para que eles retornem? São cobranças que temos feito constantemente para o secretário de Educação. 

E no âmbito do combate ao racismo? De que maneira a senhora tem atuado?

Uma das pautas do meu mandato é o direito das mulheres negras. Nesse sentido, as minhas reivindicações são praticamente as mesmas que as mulheres negras defendiam logo após a abolição: o direito à educação e o combate ao racismo. Nós, mulheres negras, ainda estamos na base da pirâmide social. A mobilidade social das mulheres negras ainda está muito aquém do que desejamos. Dessa forma, tenho defendido a ampliação e a garantia de vagas nas creches, a criação de programas de geração de renda, o acesso ao trabalho digno, à moradia digna, o combate e a prevenção de todas as formas de violência, medidas que são essenciais para garantir melhores condições de vida para essas mulheres. Defendo, ainda, a ampliação de áreas de lazer nos bairros periféricos de Joinville, pois são nesses territórios que estão as mulheres negras e suas famílias. 

Quais são suas expectativas em relação às eleições presidenciais deste ano? 

Precisamos de uma mudança urgentemente. Precisamos de um governo que tenha como prioridade a eliminação das desigualdades. Hoje nós temos o empobrecimento da população, o aumento da violência, o aumento do número de moradores em situação de rua, de pessoas vivendo na miséria. Eu não vejo a menor possibilidade de haver sucesso em um governo que defende a privatização dos serviços públicos. O projeto político que estamos vivenciando nos empurra para condições de vida cada vez piores, em que as pessoas passam fome, não têm moradia, não têm condições dignas para viver nesse país. Foi retirado das pessoas o direito à dignidade humana. Sem dúvida nenhuma, o presidente Lula é o que tem melhores condições para promover a mudança. Nós precisamos olhar para o período em que ele esteve no poder como um período de oportunidades para a população pobre, em que essa população foi olhada como sujeitos que puderam exercer o direito de ter no mínimo três refeições saudáveis por dia, acesso a programas de habitação e de educação, dentre tantas outras ações.

O que a senhora diria às mulheres negras que irão concorrer a um cargo político nas próximas eleições?

Que tenham muita coragem. É difícil, mas nós não podemos deixar de ocupar esses espaços, de estar nesses espaços. Se nós não estivermos, quem vai falar por nós, pelos nossos?

Luana Tolentino

Luana Tolentino
Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora do livro 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições)

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