O assassinato de Emily e Rebecca sob a ótica dos Racionais MC’s

No Brasil 'recebe o mérito a farda que pratica o mal / Ver um pobre preso ou morto já é cultural', diriam os Racionais

Créditos: EBC

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Opinião

Mais uma vez me vejo usando esse espaço para escrever sobre o assassinato de crianças e jovens negros.

 

 

Em maio, escrevi sobre a morte do João Pedro, baleado com um tiro de fuzil enquanto brincava em casa com os primos, em um bairro de São Gonçalo, no Rio de Janeiro. Com certo atraso, em junho, registrei a morte do menino Miguel, que sob os cuidados da patroa da mãe despencou de uma altura de 35 metros. Imaginar a dor da Mirtes ao deparar com o corpo do filho despedaçado me deixou emudecida, sem forças para escrever.

Passados seis meses, reservo minha coluna para registrar mais duas mortes: na última sexta, as primas Emily e Rebecca, de 4 e 7 anos, foram atingidas por um tiro de fuzil enquanto brincavam na porta de casa, em uma comunidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. O tiro atingiu a cabeça de Emily, o coração de Rebecca e destroçou duas famílias. Há suspeitas de que os disparos tenham partido de uma viatura da Polícia Militar.

Emily e Rebeca se juntaram a oito crianças que foram baleadas e mortas no Rio de Janeiro em 2020. Segundo a Plataforma Fogo Cruzado, todas eram negras e moradoras de favelas da região metropolitana fluminense. Diante de mais esse episódio da política de extermínio há muito adotada pelo Estado brasileiro, sinto um misto de tristeza, impotência e revolta. Causa-me indignação a conivência de diversos setores da sociedade diante da naturalização da barbárie, dentre eles, a imprensa. Quando os órgãos de comunicação afirmam que as mortes decorreram de “balas perdidas”, estão contribuindo para o entendimento por parte da população de que são fruto do acaso. Como podem ser “perdidas” as balas que têm como alvo preferencial a cabeça, a nuca, as costas, o coração e o tórax de pretos e pobres?

Não há palavras que deem conta do que aconteceu momentos antes de um esperado passeio em família. Não há palavras que deem conta do que ocorreu dias antes de Emily completar seu quinto ano de vida. Na falta do que dizer, recorro aos versos dos Racionais MC’s, grupo que consegue elucidar, como poucos, a violência racista que estrutura a sociedade brasileira.

Ao narrar o episódio, a avó de Emily e Rebecca relata que chegava do trabalho quando ouviu os disparos. Já em frente de casa, deparou-se com o corpo de Emily sem vida. No quintal, estava Rebecca, que ainda respirava. Ela conta que, na tentativa de salvar a neta, correu para o hospital. A cena pode ser vista na letra de “Fórmula mágica da paz”, clássico do grupo do Capão Redondo: “Sangue e agonia pelo corredor / El[a] está viva? / Pelo amor de Deus, doutor… / Lá fora, revolta e dor/ Lá dentro estado desesperador”.

Não houve tempo de salvar a menina que ansiava pelo início da vida escolar. No velório, crianças enlutadas assistiram a tudo. Pergunto: alguém já parou para pensar o que significa para aqueles meninos e meninas crescerem em meio a tanta violência? “Nossa raça está morrendo mais cedo / Não me diga que está tudo bem”, está registrado em “Periferia é periferia”, rap do álbum “Sobrevivendo no inferno”.

Entre os adultos, choros moucos, gritos de dor e desespero. A maioria tem a pele bem escura. Mais uma vez, rememoro as letras cortantes de Mano Brown e sua turma: “Durante uma meia hora olhei um por um / E o que todas as senhoras tinham em comum / A roupa humilde, a pele escura / O rosto abatido pela vida dura / Colocando flores sobre a sepultura”.

Atordoado, o pai de Emily e tio de Rebecca usou as mãos para tapar as sepulturas das meninas. Pelas imagens, é possível perceber que parte dele também morreu naquele momento. Talvez ele saiba que não há muito o que fazer. Mais do que saber, ele sente, vive imerso a um cotidiano de impunidade, do qual suas meninas foram vítimas. De acordo com o Conselho Nacional de Justiça, apenas 5% dos casos de homicídio são elucidados. Mais uma vez, Os Racionais não poderiam ser mais certeiros: “Aqui vale muito pouco a sua vida / Nossa lei é falha, violenta e suicida”.

Como ativista da luta antirracista, eu deveria falar em caminhos para o enfrentamento ao genocídio que segue a passos largos, pensar, propor soluções mas, neste momento, ainda impactada pela morte das meninas, afirmo: não vejo saída. Matar gente preta tem sido uma escolha muito bem pensada e articulada. E isso só terá fim quando houver uma mudança radical das estruturas de poder. No Brasil “recebe o mérito a farda que pratica o mal / Ver um pobre preso ou morto já é cultural”, diriam os Racionais.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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